Arte e Cultura

Entre o corpo e o espírito

Nossa retrospectiva de hoje relembra uma reportagem especial, publicada na edição 22 da nossa revista, que fala sobre a trajetória feminina na espiritualidade. Elas não trazem seu amor de volta em três dias. Elas podem, no máximo, apontar o caminho. A CARIRI consultou três mulheres, uma rezadeira do Horto, uma médium espírita e uma mãe-de-santo, que usam de um dom para ajudar as pessoas trazendo uma resposta, dando um conselho ou até mesmo curando doenças.
Por Pedro Philippe • 26 de junho de 2020
A CURA É FEMININA

“Nasci com o dom que Deus deu”, Maria Isabel explica, com uma voz quase inaudível de tão suave. A quem chegar ao começo da ladeira do Horto pedindo a sugestão de uma rezadeira no bairro, o nome dela é o primeiro a aparecer e nem é preciso subir muito, já que na principal rota que leva à estátua de Padre Cícero, elas são muitas. Na casa de número 253 na Rua do Horto mora uma rezadeira especial, porque a história dela se mistura com a da prática de reza em Juazeiro, com as romarias e com a cura de doenças incuráveis.

Aos 11 anos, Maria Isabel foi mandada a Juazeiro do Norte para “ser rezada” e procurar a cura de uma enfermidade que remédio nenhum dava jeito. Órfã de mãe, ela ficou hospedada na casa de Maria das Dores dos Santos (1903–1998), rezadeira contemporânea do Padre Cícero e que por muitos anos foi conhecida por dar jeito em problemas insolucionáveis. Conhecida como Madrinha Dodô, um apelido carinhoso que ao mesmo tempo fazia referência à sua autoridade espiritual, ela apelava para a fé em uma época em que o acesso à saúde era precário – nem a penicilina havia sido descoberta ainda. Em uma religião que abre pouco espaço para figuras femininas e em um lugar onde prevalece a atuação de guias espirituais homens, como Padre Cícero e Padre Ibiapina, é de se entender que Madrinha Dodô e muitas outras tenham caído no esquecimento.

A prática da reza com folhas parece ter surgido da mistura do catolicismo com as crenças indígenas. Nossos primos kariri-xocós, das Alagoas, mantiveram o mesmo costume. Acredita-se que as ervas absorvam o mal que a pessoa carrega e, com ajuda de um Creio-em-Deus-Pai e um Pelo-Sinal-da-Cruz, a cura venha. “O que é de remédio, é de remédio. O que é de médico, é de médico. E o que é de reza, é de reza”, Maria Isabel explica. Na lista de males que podem ser curados, estão não somente as doenças e o clássico mau-olhado (que não pode ser resolvido pela medicina tradicional), mas também muitos incômodos de nome estranho: espinhela caída, peito aberto, nervo triado, quebranto e monturo. “Mas também tem que se confessar, ir pra missa e, pelo menos, rezar um terço quando chegar em casa”, Maria alerta. Segundo ela, é obrigação do curado mudar o rumo da vida e seguir as coordenadas que Deus manda no momento da reza.

“Tem uns que vêm do médico, outros já ‘desenganados’ e as palavras de Deus curam”, Maria garante, “e quem cura é Deus, não sou eu”. Além de recitar alguns benditos e balançar um ramo de aroeira na pessoa, ela volta e meia tem um recado para passar. Seja a solução de um mistério, uma mensagem tranquilizante, um direcionamento para uma decisão a ser tomada, o conselho vem sem que Maria conheça nada da pessoa na sua frente e é assustadoramente acertado. “A gente não cobra. Quem tiver condições, dá de boa vontade. As palavras de Deus a gente não vai vender, né? De graça Deus deu, de graça nós damos”. Questionada sobre a origem das revelações que recebe, ela encerra a conversa: “Não, não sei. Aí Deus é quem sabe”.

UM AXÉ SÓ DELAS

Debaixo do barracão Ilê Axé Oxum Tungi há um trono onde se senta Mãe Célia e, abaixo dela, em uma cadeira ao lado, senta sua filha Alice, que, aos 28 anos, também é ialorixá, a dita mãe-de-santo. Mãe Alice tem um leve sotaque baiano, apesar de ter nascido em São Bernardo do Campo (SP) e vivido no Cariri desde a adolescência. Ela é coordenadora de juventude da Renafro (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde) e passou pelo processo de iniciação ainda na barriga da mãe. O frequentador do terreiro, que não tem obrigações no candomblé, é um abiam. No momento em que o abiam sente a necessidade de “dar a cabeça” ao seu sacerdote e consagrar seu coração ao seu orixá, é feito o ritual de iniciação, onde ele vem a ser um iyawô (ou iaô), o irmão mais novo na família. Quando Célia escolheu se iniciar durante a gestação, Alice, que ainda nem tinha nascido, também se tornou uma iyawô.

Conta a tradição que as mulheres iorubas, ainda na África, eram fortes comerciantes e negociadoras, ativas na vida da aldeia e provedoras de seus lares. Quando foram trazidas ao Brasil, a influência que exerciam na África já não tinha mais nenhum valor, então foi na religião que exerceram poder, por meio da espiritualidade. Fazia parte da cultura delas receber a maternidade como um dom que trazia alegria e não sofrimento à mulher, por isso que, para os escravos brasileiros, a África era a “terra-mãe” e, para os praticantes do vodu haitiano, era também a “casa” para onde retornariam após a morte. Quando as mulheres se uniram para juntar o povo negro através do candomblé, a religião tornou-se a ligação entre eles e a terra-mãe, enquanto a maior sacerdotisa seria, inevitavelmente, a mãe-de-santo, que teve de buscar força divina nos orixás para defender seus filhos.

O tataravô de Alice foi um dos homens a ajudar as mulheres a estabelecer o culto do candomblé no Brasil. “Mas as mulheres foram as grandes protagonistas, enquanto ele e outros homens ficaram mais à parte”, ela explica. “Ainda hoje há esse costume de auxiliar o trabalho das mulheres na Casa Branca, onde somente elas são iniciadas. Só que essas mulheres abrem seus próprios barracões e lá elas iniciam homens, aí vai disseminando”, diz. Os terreiros mais antigos a surgir na Bahia naquela época existem até hoje, como a Casa Branca, o Gantois e o Alaketu, entre outros. Em todos eles ainda são as mulheres que mandam.

Alice tinha seis anos quando pediu para aprender a jogar búzios. Só quando chegou à fase adulta foi que ela deu continuidade ao ritual que começou na barriga da mãe. “Existem pessoas que nasceram para serem pais ou mães de santo, enquanto existem pessoas que são chamadas a ser egbomys”, ela explica. Depois de feita a iniciação, o iaô passa por evoluções que destacam três etapas: de 1, 3 e 7 anos. A cada um dos graus o iaô “paga ano”, até chegar à maioridade, que é aos 7 anos de iniciação. O iaô e o ebome serão os irmãos que vão ajudar a cuidar da casa e guiar quem é abiam, enquanto alguns serão chamados pelos orixás para assumir o cargo de pai ou mãe de santo.

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O jogo de búzios liga muitos pontos dentro do candomblé e traz esclarecimento a diversas questões, inclusive a de apontar quem deve ser ialorixá. “É um destino marcado desde o nascimento”, Alice explica, “é um compromisso que uma hora você vai ter de assumir. Geralmente não é uma escolha, é uma questão de predestinação”. O que na África era o Jogo de Ifá, no Brasil é o Meridoglun, isto é, o jogo de 16 búzios, onde cada um representa um Odu, ou um caminho. Para o Ifá, existem 256 Odus (16 vezes 16) e que são o número de possibilidades de encontros dos búzios. Quando os búzios caem sobre o tabuleiro, eles podem combinar Odus da riqueza, da desgraça, da confusão, da fartura, e por aí vai. Cabe ao pai ou à mãe de santo fazer a interpretação e mostrar ao consulente o que ele deve fazer para solucionar o problema.

Antigamente, o oráculo do Ifá era buscado para resolver problemas do plano espiritual. Hoje as pessoas procuram para buscar soluções referentes a várias áreas de sua vida.  “Os búzios não são só a queda que você vê, mas são também o recado e a inspiração que o orixá traz pra você”, Alice explica. “ É um jogo divinatório, mas é também um jogo de caminhos. Tem muita gente que fala ‘ah, se é assim tão bom, por que você não joga na Mega Sena?’, mas não é bem assim. É um jogo de caminhos que vai te direcionar pra o que é melhor pra sua vida e mostrar o que você tem que fazer”. Observando a conversa de longe, Célia interrompe, com o semblante sério: “Vicia, viu!? Eu tinha uma consulente lá em São Paulo que queria que eu jogasse todo dia. Eu dizia pra ela: ‘Não é assim a vida, minha filha! Você tem que colocar em prática o aconselhamento que eu lhe dou e dar tempo pra as coisas acontecerem’”.

O TELEFONE TOCOU NOVAMENTE

“Chico Xavier sempre dizia que o telefone toca de lá pra cá”, Aurilúcia Xenofonte explica. Há 25 anos ela resolveu atender a chamada e desde então empresta sua voz aos espíritos que precisam passar pelo que a doutrina espírita chama de momento anímico – uma espécie de choque que a entidade recebe quando “incorpora” em alguém e percebe que morreu. Aurilúcia, assim como todo seguidor da doutrina espírita, não fala em morte, mas em desencarnar, já que o espírito é eterno e o corpo é como uma casa temporária. “Para aprender, o espírito precisa retornar”, ela explica, “é como reprovar de ano na escola. Você volta quantas vezes precisar, até resolver suas pendências”. E é aos espíritos que ainda não retornaram que ela procura servir desde que se descobriu médium.

“Às vezes as pessoas chegam pra mim e pedem: ‘Aurilúcia. Eu tô com tanta saudade do meu pai, queria tanto saber notícias dele!’. Eu digo: “Aguarda, espera, que vai vir’”, ela conta. A ligação daqui para lá tem um custo, já que o espírito pode não estar preparado para falar com os encarnados, então melhor não chamar. “Eu, como médium, não peço que venha uma entidade. Nós não sabemos se aquele espírito que desencarnou há anos atrás tem condições de retornar, mesmo através da mediunidade. Eu posso invocar todos os dias e o espírito não vir. Não é na minha vontade. É na possibilidade dele”, explica. Quando o telefone toca voluntariamente, Aurilúcia atende disposta a ajudar.

Ela define a mediunidade como uma faculdade que permite o intercâmbio entre o mundo espiritual e material. Acredita-se que ao médium tenha sido dada a oportunidade de usar da tarefa para fazer o bem nesta vida e, assim, resgatar os débitos que gerou nas vidas passadas. “Não é um castigo, é um compromisso”, ela diz, explicando que a cada um é mostrado o projeto da nova encarnação. Ou seja, antes de nascermos, todos nós sabemos no que estamos nos metendo.

Depois de perder um filho que desencarnou com um mês e meio de vida e de superar o divórcio que veio logo em seguida, Aurilúcia precisava de respostas. Na época da morte do filho, ouviu alguém comentar: “Há espíritos que precisam reencarnar por um período de tempo mais curto”. A revelação a acalmou, mas não pôs fim ao luto. Tempos depois ela se aproximou da doutrina espírita e descobriu através dos espíritos o propósito da vinda do filho efêmero. A vocação mediúnica veio de repente, quando, um dia, ela acordou sem voz e assim permaneceu por duas semanas. Foi aí que descobriu que os espíritos poderiam se comunicar através dela pela psicofonia, isto é, falando pela sua voz. “É como um telefone mesmo. Eles falam por meu intermédio”, diz.

Aurilúcia é uma mulher serena e com os olhos atentos de quem não para de prestar atenção no que o outro diz, até mesmo quando é ela que está falando. Atuante em uma doutrina em que o papel da mulher é tão importante quanto o do homem, ela percebe que as diferenças acabam quando os dois “sentam na mesa”, já que a sensibilidade é algo intrínseco da mulher, enquanto o homem é mais fechado. “Mas a mediunidade flui da mesma forma”, diz. No Brasil surgiram várias médiuns importantes para a doutrina, como Yvonne do Amaral Pereira e Célia Ferreira do Carmo. Aurilúcia pontua que o espiritismo se tornou conhecido mundialmente através do trabalho mediúnico de mulheres. A história das Irmãs Fox causou alvoroço quando, em 1848, Kate, Margareth e Leah se comunicaram com o espírito de um homem que havia sido assassinado e que indicou onde estava escondido seu cadáver.

Em 1858, no lançamento da Revista Espírita, onde publicava o Jornal de Estudos Psicológicos, Allan Kardec difundiu artigos em que defendia ideais feministas demais para a época. Considerado o pai do espiritismo, Kardec escrevia sob a orientação de entidades que clamavam pela emancipação das mulheres, com o argumento de que era necessário libertá-las para que a humanidade progredisse. O espírito do poeta Alfred de Musset teria dito através da médium Eugénie: “A influência da mulher no século XIX! Acreditais que ela tenha esperado esta época para que continueis a dominá-la, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes aviltá-la, foi porque a temíeis; se tentastes abafar a sua inteligência, foi porque receastes a sua influência. Somente em seu coração não pudestes opor barreiras”.

“Você já imaginou a emoção de, depois de um certo tempo de sua mãe ter desencarnado, ela voltar pra falar com você?’”, Aurilúcia pergunta, emocionada, ao lembrar de fatos que aconteceram por seu intermédio. “Às vezes é a mãe de alguém que tá ali ao lado, que vem dizer que está com saudade. Outras vezes são espíritos que foram atendidos na nossa casa anos atrás e voltam pra dizer: ‘Obrigado, vocês me ajudaram’”. E a vida então segue e se repete, para viverem outros personagens. Ou não. Na pior das hipóteses, quando acabou, acabou. Tela preta. Fim do filme.

Fotos: Rafael Vilarouca

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