Reportagem

Entre, a Casa é Sua!

Misto de centro cultural, escola de comunicação e laboratório de convivência social, a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, sediada em Nova Olinda, alçou vôo como um núcleo criativo de trajetória singular. Criada em 1992, a Casa Grande é uma organização não governamental que trata de educação, cultura e aspirações em quatro programas principais. A experiência bem sucedida é hoje referência nacional na formação de pequenos cidadãos.
Por Márcio Silvestre • 17 de maio de 2019
Fotos: Rafael Vilarouca

Por Raquel Paris.

CRIANÇAS E JOVENS NO COMANDO

Com exceção de uma ou duas mães no refeitório da Casa, não há adultos na Fundação Casa Grande. Os meninos, como são chamados os jovens e crianças que vivenciam experiências no espaço, dividem-se em funções variadíssimas. São recepcionistas do Memorial Homem Kariri; locutores e sonoplastas da rádio comunitária 104.9 Casa Grande FM; quadrinistas e editores gráficos da Casa Grande Editora; iluminadores e diretores de arte no Teatro Violeta Arraes ou mesmo cameraman, produtores e editores de imagem dos inúmeros documentários e curtas produzidos no estúdio de vídeo.

Podemos entrar e sair das diversas salas da Fundação, e nada. Nenhum adulto. Ordem, organização, trabalho bem feito e risada de crianças batendo bola, penduradas na ponte de corda ou jogando bila. E de repente aquilo que só se ouvia falar fica patente: no meio do sertão cearense um bando de jovens e crianças pensa, elabora e executa ações de arte e cultura que servem de exemplo para políticas públicas a serem executadas em qualquer parte do mundo.

Rosiane e Alemberg com as crianças da fundação. 

Diferente do que se imagina, não foram Alemberg Quindins e sua esposa Rosiane Limaverde – fundadores da Casa Grande – que introduziram as crianças nos projetos da Fundação. “Quando a Casa Grande começou, o foco era a coleta e a pesquisa dos vestígios arqueológicos e mitológicos do homem Kariri pré-histórico. Reformamos a casa e criamos o Memorial do Homem Kariri. As crianças ficavam brincando no terreiro, de bila, de pião, elástico, macaca. Depois os meninos passaram a observar e a explicar aquilo que a gente explicava no museu, além de entrar na administração da Casa. Então, foram praticamente eles que criaram essa história da Casa Grande ser uma escola de gestão cultural a partir da infância”, conta Alemberg. Os três primeiros cargos criados foram os de diretor de cultura, diretor de pesquisa e manutenção. Segundo Alemberg, eles foram inventados pelos próprios meninos. “As meninas antes de brincar varriam a calçada, os meninos viam algo quebrado e consertavam. Aí nasceu o cargo de manutenção. Os meninos explicavam o museu, então surgiu o primeiro diretor de pesquisa. E os diretores de cultura eram os que organizavam as brincadeiras. A gente deu esses nomes de adulto para as crianças, que receberam isso como uma grande honraria”.

As pautas de discussões que hoje são debatidas e vivenciadas pelos jovens e crianças da Casa Grande envolvem a formação antropológica do homem Kariri, democratização da comunicação, turismo de conteúdo, desenvolvimento sustentável e estreitamento dos laços entre países de língua portuguesa e espanhola. Para dar conta de todas as vivências que acontecem na Fundação, a instituição possui quatro programas: Memória, Artes, Comunicação e Turismo.

ACUMULANDO CAPITAL SOCIAL

No programa Memória, capitaneado por Rosiane Limaverde, as crianças ampliam o conhecimento sobre a vida e as práticas do homem pré-histórico Kariri. No Museu do Homem Kariri, ficam resguardados, catalogados e expostos os achados arqueológicos da pré-história do homem da região, para depois serem reelaborados em forma de quadrinhos e documentários nos laboratórios de produção. Não ficam de fora também os mitos e lendas dos índios, narrados pelas crianças e expostas para o visitante, no intuito de proteger o universo imaginário Kariri.

Sem se preocupar em formar “artistas” e sim em despertar as sensibilidades individuais, estimulando a inteligência, os gostos e a imaginação, o programa de Artes conta com uma gibiteca, dvdteca, discoteca e biblioteca para livre consulta. Mais do que teorizar sobre a construção de um indivíduo crítico, autônomo, consciente e inventivo por meio das artes, o programa oferece recursos e produtos de qualidade, que estão sempre à disposição das crianças. Só a gibiteca possui mais de 3.200 títulos, que podem ser lidos em cabines individuais. O acervo inclui HQs clássicas, mangás japoneses e livros sobre perspectiva e bonecos articulados. Oficinas de técnicas de desenho em vários níveis acontecem ao longo do ano.

Já o programa de Comunicação tem como objetivo a produção de materiais educativos e a formação de leitores, ouvintes e telespectadores. A rádio comunitária 104.9 Casa Grande FM vai ao ar sob o comando dos pequenos, que mostram tudo o que sabem sobre sonoplastia, locução e boa música. Esse programa vem se expandindo a partir da Rede de Crianças Comunicadoras em Língua Portuguesa, que une Brasil, Moçambique e Angola, com apoio da UNICEF. Em 2006, o programa “De Criança para Criança”, criado pela Casa Grande, foi escutado em sete províncias de Angola. Em Moçambique são 32 programas, envolvendo duzentas crianças nas províncias.

E ASSIM NASCEU UMA CASA AZUL

No alto do Rio São Francisco, nos sertões da Bahia, uma casa muito alta se destacava em meio à paisagem rude. Ali se criava touro, novilhas, cavalos. Escravos africanos e indígenas serviam de mão-de-obra na lida da casa imensa e nas penosas expedições pelos sertões misteriosos. Era a afamada Casa da Torre, enorme sesmaria concedida ao português Garcia d’Ávila, com a estrita condição de que este povoasse as terras do interior.

Corria o fim do século XVII e o “Ciclo do Couro” fazia brotar dinheiro por onde o gado passava. Foi então que numa manhã do ano de 1680, Afonso Sertão, imediato da família D’Ávila, foi encarregado de levar até as terras do Piauí a bandeira da Casa da Torre. Ele deveria tocar um rebanho dos leitos do São Francisco até a cidade de Oeiras, então capital do Estado. Recebeu ordens expressas para que, em sua passagem, construísse currais primitivos, pontos seguros para abrigar e proteger o rebanho.

A 741 km de seu ponto de partida, Afonso Sertão chegou a um imenso vale cercado por uma vasta chapada. O clima ameno, após tantos dias enfrentando um intenso calor, foi a senha para o pretendido descanso. Seguindo as instruções recebidas, ergueu uma tapera para pousar com o gado, uma armação rude de paus entrecruzados, sem paredes laterais.

A terra fértil da Chapada do Araripe logo despertou o interesse dos invasores, que no lugar da tapera construíram uma casa grande, uma capela e um cemitério, para pouco depois surgirem as primeiras casas no entorno. As construções transformariam o lugar no povoado de Tapera. Trezentos e trinta e um anos depois, o povoado é agora a cidade de Nova Olinda.

Entre seus 14 mil habitantes, seria natural que nomes como Afonso Sertão ou Casa da Torre nada significassem. Menos ainda uma construção erguida no século XVII. Mas o caso, é que incrustada bem no meio da cidade, pintada em azul e amarelo berrantes, lá está a casa grande que deu origem à cidade de Nova Olinda, agora conhecida por Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, centro irradiador de cultura e desenvolvimento para todo o planeta, única casa de ideias no mundo a ter seu núcleo pensante composto por jovens e crianças.

TURISMO DE CONTEÚDO

Em 2006, a Casa Grande recebeu 28.050 visitantes, nove vezes a população urbana da cidade de Nova Olinda – o que mostra a expressiva capacidade da instituição de atrair turistas de todas as partes do mundo. Por causa da falta de infraestrutura que o município ainda apresenta para receber essas pessoas, foi criada a COOPAGRAN, cooperativa dos pais dos meninos da Casa Grande, que desde então recebem os turistas em suas casas, adaptadas em um número maior de quartos e banheiros. O turista convive com a família, senta à mesa e come a mesma refeição de um sertanejo. É o chamado “turismo de conteúdo”, que atrai cada vez mais pessoas ansiosas por participar de novas experiências.

Recentemente a Fundação criou o programa de Esporte e Meio Ambiente, que tem o objetivo de ocupar a área urbana da cidade com o desenvolvimento de esporte de rua, mais precisamente o futebol. O programa será desenvolvido no centro da cidade, em uma área doada pela Prefeitura, onde antes ficava a aldeia indígena. Em parceria com a Fundação Nestlé, a Casa Grande reurbanizou o lugar para que as crianças pudessem brincar. Por último, através de um convênio com o Futebol Clube Barcelona, a Fundação terá uma unidade do clube para a capacitação das 80 crianças que farão parte do projeto. A parceria foi oficializada em junho deste ano, na abertura da Copa Barcelona FC de Futebol infantil sub 12, que contou com a presença de Eric Roca, patrono do Barcelona.

SEM PROBLEMA DE AUTOESTIMA

A 45 km de Nova Olinda, na cidade do Crato, em uma sala recoberta de fotos de times de futebol e banners de eventos, Alemberg Quindins, fundador e presidente da Fundação Casa Grande, trabalha ao lado de Rosiane Limaverde, co-fundadora da Fundação, presidente do conselho científico da instituição e também sua esposa. Juntos, acompanham a movimentação da Casa Grande de longe, porém, de perto, ou mais precisamente, pela tela do computador.

No momento dessa reportagem, a Fundação, está envolvida nos últimos retoques da Mostra Cariri de Música Ibero-Americana. A mostra internacional, com músicos e produtores das culturas ibero-americanas, foi criada no intuito de estabelecer e fortalecer os laços entre países de língua portuguesa e espanhola. No evento, com a participação de músicos como Manu Chao, será discutido a papel dos coletivos de músicos e gestores culturais para a afirmação e criação de es- paços alternativos de cultura.

Eles estão desenhando o novo mapa do Cariri.

Eventos como este atraem visitantes do mundo inteiro e ajudam a explicar como uma cidade pequena, no interior do Nordeste, reordenou o mapa do turismo em sua região. Tanto é, que o Ministério do Turismo incluiu Nova Olinda entre os 65 destinos indutores do turismo no Brasil, em função de sua projeção nacional por meio da Fundação Casa Grande. No Ceará, os outros destinos escolhidos ficam todos no litoral: Jericoacoara, Fortaleza e Aracati.

A Fundação hoje integra um novíssimo nicho de negócios – o do turismo comunitário. Seduzidos pelo acervo da gibiteca, os filmes da dvdteca, as oficinas e experiências dos laboratórios, as produções e eventos de alto nível, muitos artistas, pesquisadores e curiosos do mundo inteiro vão a Nova Olinda, no intuito de vivenciar e trocar conhecimentos, gerando um intercâmbio de culturas e negócios.

“Esse recurso que vem a Nova Olinda gera distribuição de renda porque quem recebe são as famílias da cidade e as pequenas pousadinhas. Muitos proprietários de grandes hotéis do Cariri não apoiam os eventos culturais. Então nós resolvemos trabalhar com quem faz o turismo comunitário local. Hoje nós temos condições de receber até 40 pessoas nas pousadas”. Durante os principais eventos, os hotéis e pousadas de Nova Olinda têm sua capacidade esgotada com ante- cedência. Alemberg acredita que a diferença está na maneira como os eventos são concebidos. A ideia é que gerem cultura e desenvolvimento social.

O QUE A IMAGINAÇÃO NÃO CONCEBE

Não faltam turistas. Basta uma rápida olhada no caderno de visitas que fica na Fundação para ver nomes provenientes dos cinco cantos do planeta. Gente que sai dos lugares mais longínquos apenas para ver com os próprios olhos o que a imaginação não concebe. “No início houve uma não aceitação disso. Pois se acostumemos brasileiros, porque é pelos caminhos do social que o Brasil está se colocando no grupo dos oito e se destacando a nível internacional. Não adianta centralizar”, enfatiza Alemberg.

Os diversos prêmios angariados pela Fundação também ajudam na captação de turistas. Devido à excelência do trabalho em pesquisa arqueológica e ao cuidado patrimonial, em 2009 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN concedeu à instituição o título de Casa do Patrimônio da Chapada do Araripe. Assim, a Casa Grande, agora com respaldo federal, possui um termo de cooperação técnica com o objetivo de constituir-se num espaço para o aperfeiçoamento da gestão, proteção, salvaguarda, valorização e usufruto do patrimônio cultural.

Em 2011 a distinção veio através do Prêmio Trip Transformar, que destaca projetos de empreendedorismo social. Alemberg foi uma das 13 personalidades reconhecidas pelo trabalho desenvolvido, assim como o ex-jogador Raí, que leva adiante o projeto Gol de Letra, com reconhecimento da UNESCO, e de Ana Primavesi, precursora da agroecologia no Brasil, hoje com 90 anos. Alemberg comemora: “Do Cariri nós conhecemos outro mapa. Como foi a formação da personalidade do homem Kariri. Então, a gente passa a ver o Cariri não como um estado político, mas como um estado de espírito. E isso não é separatismo, isso é personalismo. É a personalidade que é construída a partir desse estado de espírito, muito presente em todos os momentos da história do homem no Nordeste. Essa chapada sempre foi um entroncamento humano muito forte. O Cariri é o Exu, é a Paraíba é o Piauí. É um estado de espírito que tem como mãe a Chapada do Araripe”.

Reportagem publicada na Edição 03 da CARIRI Revista.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".