Arte e Cultura

Engole o choro Dualina

O fascínio e a paixão por velórios colocou Dualina, a carpideira de Juazeiro do Norte, em situações difíceis.
Por Redação Cariri • 16 de abril de 2019

Quando menos se espera, ela chega e… chora!

Usando um vestido longo e preto, as mulheres conhecidas como carpideiras, são há mais de dois mil anos contratadas para chorar em velórios de pessoas famosas ou de parentes mal-amados. O que se sabe da nossa carpideira do Ceará é que ela chora de graça, não importa quem seja o falecido. Antes do choro, quando está de boca fechada, sua presença é imperceptível. Nos velórios, ela costuma usar uma mantilha branca de renda que simboliza o hábito do seu ofício voluntário.  Dualina, nossa carpideira, existe e contou seus segredos para que pudéssemos dar boas risadas sobre seus feitos.

Dualina é uma das moradoras mais antigas do bairro franciscanos, em Juazeiro do Norte. Ela é uma senhora de baixa estatura e de pele enrugada, marcas da idade. Os vizinhos dizem que quando a veem sair de casa já sabem que a causa é velório. Além do mais, quando qualquer desinformado do bairro quer saber quem morreu nas redondezas, vai guiado pelo barulho do choro da carpideira.

A mulher tem um choro alto e marcante que o povo faz piada dizendo que ela chora igual uma vaca parida. A carpideira tem o dom não só de derramar lágrimas, mas de fazer do momento de dor um espetáculo macabro. Ela chega sem convite e chora a ponto de constranger a família. Faz um grande reboliço, funga, pede lenço emprestado aos parentes e ainda diz entre soluços: “O bichinho era um santo em vida”.

O Vexame de Dualina

Certo dia ela entrou em um desses velórios que sempre frequentava, esperando que fosse apenas mais uma alma precisando de compaixão humana. Enquanto chorava de maneira escandalosa ao lado do morto, todos se questionavam se ela era parente por parte de pai ou por parte de mãe, mas não descobriram. O fato é que na hora de fechar a tampa do caixão, Dualina deu um daqueles ataques de nervos típicos de velórios do Nordeste e caiu desmaiada, tesa, ao lado do defunto. Para piorar seu véu branco prendeu-se a um castiçal e incendiou causando o maior furdunço na despedida do finado.

Quem não correu com medo do fogo ficou para acudir ou então dar umas boas risadas da catástrofe cômica. Dualina não lembra como acabou aquele funeral, mas sabe que foi levada para o hospital de ambulância, com direito a sirene alarmando em toda altura e como acompanhante estava a sua filha Maria das Angústias, morrendo de vergonha dos vexames que sua mãe fazia e pedindo pelo amor de Deus que ela parasse de fazer alarme para as famílias alheias. Teimosa como uma mula, Dualina não parou por aí.

A Curiosidade cheira mal

Em uma tarde quente, típica das terras de meu Padim Cíço, Dualina ficou sabendo de uma morte violenta que ocorrera há uma semana. O incidente chocara a população. O corpo tinha sido finalmente encontrado, naquela tarde. Desde que soube do fato, a carpideira cuidou de saber onde seria o velório. Saiu investigando e acabou descobrindo que seria na capela do Socorro. Ansiosa, sem pensar duas vezes, correu para ser uma das primeiras a chegar, mas para sua surpresa as portas da igreja estavam fechadas, o velório seria privado ao público. Somente familiares teriam o passe livre à capela.

Vigiando a porta da capela com cara de abusado e um rigor que beirava a impaciência, estava Zé, que naquela ocasião fazia um bico como segurança, controlando a entrada e saída. A primeira a ser barrada por ele foi Dualina, que implorava para entrar e começou a chorar antes mesmo de ver o morto.

A carpideira inventou mil conversas para enganar o vigia, mas nenhuma adiantou. Foi então que apareceu Raimundo, o irmão de Dualina, que costumava jogar com Zé, na Praça Padre Cícero. No jeitinho brasileiro, Raimundo conseguiu que o amigo deixasse Dualina entrar. Mas em contrapartida, Zé impôs uma condição: depois que ela entrasse não poderia sair, tinha que ficar na capela até a hora do enterro. Dualina aceitou e correu para dentro.

Quando chegou perto do caixão sentiu o mal cheiro do defunto entranhado naquela igreja pequena, quente e fechada. Arrependeu-se de ter entrado, foi um sufoco só. Pensou então em um jeito de sair. Desconfiada, sem uma lágrima no olho, voltou na porta e implorou para sair dali de dentro. Zé, já emburrado com todo aquele drama, meteu o pé na bunda dela, que saiu catando cavaco até cair de cara em um monte de fezes de cavalo. O povo que estava do lado de fora caiu na gargalhada e Dualina ficou espichada no chão, inerte. Não sabia se era de vergonha ou se era de gratidão por ter saído antes do enterro.

Desde aquele dia, Dualina nunca mais foi para nenhum outro velório. Perdeu o encanto pelo choro e agora tentava alegrar batizados tristes, chegava em qualquer batizado, sem convite e ria sem parar. Ria tanto que era expulsa, mas ria!

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