Crônicas

Endoscopia

Por Filipe Pinho • 11 de abril de 2019

Dores no estômago me levaram à médica. Bastou pouco para que a profissional me indicasse um exame endoscópico. Informou  que a anestesia era forte e eu deveria vir acompanhado. Outra recomendação me preocupou: “Mas cuidado com quem lhe acompanhará: a anestesia afrouxa a boca”.

Não entendi de primeira, mas depois de alguns exemplos (sem citar nomes, claro), vi que o negócio era perigoso. Uma paciente, logo depois do exame e sob efeito da anestesia, disse à irmã (sua acompanhante) que o pai vestia as calcinhas da mãe. Em outro caso, um senhor revelou à esposa que queria ter casado com a cunhada. A médica falou que podia ser tudo confusão mental consequência da droga, mas afirmou que a treta foi grande em todos os casos que testemunhou.

Pois eu tinha uma semana pra encontrar a(o) acompanhante. Decidi, então, que o método a ser utilizado seria o da exclusão, passando por vários aspectos da vida.

Comecei pelo político. Estar vulnerável perto de bolsominions seria um grande erro; não pelo receio de ofender (imagina!), mas pelo perigo de uma performance fraca. Confrontar fãs de Bozo — defensores da ditadura militar, da Damares, Vélez, Araújo, da moral e cívica etc. — é exercício de cidadania! Faço questão de fazê-lo sóbrio e bem articulado (não que eles se preocupem com isso, claro. Vocês conhecem as peças!). Como, felizmente, sou muito pouco cercado por esses asnos, o corte não foi significativo.

Caminhei para o campo da afetividade. Descartei rapidamente meus amigos porque são todos uns falsos! Claramente, o pêndulo do perigo estaria apontando para a  minha direção. Finos fofoqueiros, espalhariam minha prejudicada consciência pelo mundo privado do WhatsApp. Excluí as amizades femininas pelo motivo contrário: se as preservo de agressões de machistas, avalie sendo eu o ofensor. Aí seria um sacrilégio.

Diferentemente do aspecto político, a exclusão afetiva minou minhas escolhas. Busquei alternativas inusitadas. Alguém do meu prédio? Será? Se bem que teve o episódio da festa de natal, que, bêbado, fiquei pelado no salão de festas. Sob o risco da anestesia, os condôminos podiam não lidar bem com um segundo nu. Sabem como é esse povo conservador…

Pois é isso, não encontrei ninguém para a aventura estomacal. Se você se emocionou com o depoimento, não perca tempo e corra aqui pra clínica Endoscobom (que também vende colchões): devo ser o cara louco rebolado no corredor do segundo andar.

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Filipe Pinho

Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.