Arte e Cultura

Diversidade enaltecida em renovação do sagrado

Na coluna Arte e Cultura especial dessa semana, relembramos a renovação do sagrado, que acompanhamos em janeiro de 2019. A tradição reformulada, que aproxima crenças e lutas por igualdade racial e de gênero.
Por Márcio Silvestre • 9 de dezembro de 2019

Com a casa cheia, as irmãs gêmeas Verônica e Valéria Neves fizeram a entronização dos sagrados corações de Jesus e Maria, seguindo uma tradição herdada dos avós. A celebração foi marcada pela valorização racial e do sagrado feminino, compartilhamento de saberes, orações e benditos. A sala ficou pequena para a quantidade de gente. Eram parentes, amigos, religiosos e militantes de tantas lutas sociais, que participaram da renovação na residência das irmãs, no sítio Boa Vista, em Crato.

Renovação do Sagrado, tradição que reúne amigos e familiares para orar pela família. (Foto: Márcio Silvestre)

Trazida e propagada no interior do Ceará pelo Padre Cícero Romão Batista, a Renovação é uma tradição realizada anualmente, a partir de uma data especial para a família. Por isso, a celebração ocorreu no aniversário de 61 anos das irmãs, realizado no dia 03 de janeiro. O objetivo do rito é reunir pessoas para orar e agradecer o novo ciclo.

Representatividade racial nas imagens dos Sagrados Corações de Jesus e Maria. (Foto: Márcio Silvestre)

A oportunidade possibilitou a união de culturas. A entronização dos sagrados corações de Jesus e Maria negros foi feita com a presença do Bispo Diocesano Dom Gilberto Pastana, seguido por benditos populares de renovação e uma reflexão sobre a valorização do sagrado feminino com o Cântico para a Deusa Tríplice, da tradição Wicca contemporânea, entoado pela Professora da URCA e Representante da Frente de Mulheres do Cariri, Cláudia Rejanne.

“A tradição da festividade católica não pode se isentar de considerar a força do feminino. Por isso nós do Movimento de Mulheres enaltecemos a Beata Maria de Araújo, trazendo a sua memória e exemplo de santidade, pois foi no corpo dela que se substanciou a transformação da hóstia em sangue”, explica Cláudia Rejanne, que fez uma fala política sobre empoderamento e união das mulheres. “É muito importante o ritual para preservação da memória e a transmissão de tradições. Queremos deixar para o futuro essa herança de igualdade e liberdade dessas forças da religiosidade imprescindíveis para o ser humano. Que essa ligação com a espiritualidade seja um elemento de libertação e não de repressão”.

Senhoras cantando os Benditos. (Foto: Márcio Silvestre).

Respeito à Diversidade

No altar, as imagens de Nossa Senhora Aparecida, da Conceição e de Fátima, e dos santos Francisco das Chagas, Benedito e Santa Sara Kali dividiam espaço com Pretos Velhos, Padre Cícero e a Beata Maria de Araújo. Sobre a reunião de diferentes religiões e culturas como o culto ao Baobá na renovação, Verônica responde “É o amor! A verdadeira religião é o amor, acima de qualquer coisa. A gente precisa respeitar as pessoas, a fé das pessoas e o direito delas serem o que quiserem ser e professar a religião que lhes convir. Temos como princípio o respeito e o diálogo inter-religioso, eu não sei viver fora disso, nem separar as pessoas”, afirma Verônica.

O altar da Renovação. (Foto: Márcio Silvestre)

Sobre o respeito como bandeira política, Valéria Neves afirma ter sido aprendido na infância. “O respeito a gente aprendeu em casa com Luiz Cocão e Dona Gilbertina, nossos pais, pessoas do povo”, enfatiza com um sorriso saudoso à memória de seus progenitores, também enaltecida durante a renovação.

Bispo Dom Gilberto Pastana abençoando o Sagrado Coração. (Foto: Célia Silvestre)

 

CATEGORIA:

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".