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Dezembro Vermelho: viver com HIV, ter filhos e qualidade de vida é possível

Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha lançam campanha de prevenção e combate ao HIV e Aids
Por Bruna Vieira • 5 de dezembro de 2018

Foto: Anderson Duarte

A Campanha Dezembro Vermelho de prevenção e combate ao vírus HIV e Aids começou com muitas atividades no Cariri. Juazeiro do Norte lançou a ação na última terça-feira, 04. Crato e Barbalha fizeram o lançamento com atividades de orientação à prevenção e identificação de novos casos no sábado, 1º, Dia Nacional de combate ao HIV, instituído há 30 anos pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, ONU, e Organização Mundial de Saúde, OMS. A cura pode estar há poucos passos da humanidade. Os avanços da medicina permitem aos pacientes soropositivos viverem com qualidade de vida e até terem filhos sem infectar a criança e o parceiro. A principal luta é contra o preconceito.

O tema escolhido pelo Ministério da Saúde para a campanha deste ano é “Uma bandeira de histórias e conquistas”, que representa bem a biografia da técnica de enfermagem aposentada Zilma Santos, 60. Convivendo com o vírus HIV desde 1998, ela atravessou duas décadas de histórias, preconceitos, desafios e conquistas. “Pedi um check-up por uma brincadeira à médica, como trabalhava na área de saúde ninguém se importou em me orientar, quando abri o envelope estava escrito “soro reagente”. Meus filhos pequenos, a família chorando acreditando que eu morreria. Foi uma descoberta chocante, com pouca informação na época. Sofri um preconceito terrível e o maior deles entre os médicos, de onde menos esperava”, relatou sem timidez de contar sua trajetória.

Os maiores constrangimentos foram no trabalho. “Eu trabalhava na UTI e fui remanejada para o Arquivo. Foi brutal, com a imunidade baixa no meio da poeira, ácaros e sem luvas. Fui proibida de entrar no refeitório e tinha que levar meus próprios talheres e copos. Naquele tempo achavam que HIV era coisa de gay, não conseguiam aceitar que uma senhora casada tivesse. A cada dia fui vencendo essa batalha, lutando sem medo. Todo mês ia fazer o tratamento em Fortaleza”, narrou Zilma.

A disciplina no tratamento é o motivo de sua boa qualidade de vida, com carga viral indetectável até hoje e nenhuma doença oportunista no histórico. “Receber o diagnóstico é difícil, mas, é possível viver com os cuidados e levar a vida para a frente. Ter autoestima e evitar a depressão. Eu me cuido dentro dos limites, pois, sou de origem humilde e estou bem”, ressaltou.

A história do marido de Zilma, de quem ela adquiriu a infecção foi mais triste. Ele entrou em quadro depressivo, recusou-se a fazer o tratamento e foi vencido pela doença três anos depois. Mesmo assim, ela não desanimou. O que era uma sentença de morte passou a ser uma declaração de vida. Se antes era apontada como aidética na rua e pelos próprios familiares, hoje é reconhecida pelo trabalho de apoio aos soropositivos na Pastoral da Aids. A ignorância foi combatida com amor e fé. “Eu queria ver meus filhos crescerem até os 10 anos. Hoje eles têm 24 e 27 e não adquiriram o vírus, o que me deixou mais feliz”, conclui.

 

“É preciso encarar de frente. A Aids não tem cura, mas, tem tratamento. Às vezes eu nem lembro que tenho HIV. Acredito que a cura está bem pertinho. Levar minha vivência para as escolas, faculdades, praças e em qualquer lugar é minha maneira de vencer meu próprio preconceito. Sempre falo: ‘se eu livrar uma pessoa do vírus já ganhei meu dia’, pois há uma banalização entre os jovens de 15 a 24 anos, mesmo com tanta informação” – Zilma Santos, soropositiva.

 

A cura pode estar perto

Sem minimizar a gravidade da infecção, porém, lançando uma luz de esperança, Geni Oliveira, coordenadora do setor de infectologia da Secretaria Municipal de Saúde de Juazeiro do Norte, aponta que a cura pode estar mais perto do que se imagina. “Há quem diga que já apareceu. Eu acredito que logo vai chegar. Os avanços são muito grandes. Temos o melhor tratamento do mundo no Brasil, gratuito. Acesso a todos os exames e profissionais. Em outras patologias é diferente”, comentou.

Geni ressalta a importância da prevenção. “Estamos hoje tentando desmistificar o preconceito. Se a pessoa não disser o diagnóstico ninguém vai saber, não está à vista. Começar a entender que HIV não tira capacidade resolutiva, de trabalho, de viver. Vírus não ataca a alma. Precisamos é elevar a autoestima dessas pessoas. A população em geral está muito desesperançada. Quando a gente se aceita, pode tudo. Aceitar a condição de soro não é se abandonar, é se cuidar. Transar com camisinha todo mundo precisa, não apenas quem tem HIV”, destacou.

A população jovem é alvo da Campanha Dezembro Vermelho para reforçar a prevenção. O município de Juazeiro do Norte está realizando busca ativa nos segmentos populacionais de maior vulnerabilidade: moradores de rua, dependentes químicos e os privados de liberdade. “O objetivo é identificar casos de forma precoce e entrar com o tratamento adequado para que tenham qualidade de vida. Cerca de 92% dos pacientes que tratam cedo em três meses conseguem ficar com a carga viral indetectável. O tratamento é multiprofissional, com farmacêutico, psicólogo e assistente social também”, informou Geni.

 

“O preconceito diminuiu muito. O diagnóstico precoce e tratamento adequado têm melhorado, os medicamentos têm efeitos colaterais menores. São mais pessoas aderindo à terapia e percebem que a carga viral fica indetectável. Mesmo a maior fonte de infecção sendo o sexo, dessa forma, casais que querem conceber, com acompanhamento, podem namorar sem camisinha. O risco é quase zero, o bebê também fica livre do vírus. Pouca gente sabe” – Geni Oliveira, coordenadora do setor de infectologia de Juazeiro do Norte.

 

Campanha segue por todo o mês

Imagem oficial da campanha Dezembro Vermelho desenvolvida pelo Ministério da Saúde

Na abertura da Campanha Dezembro Vermelho em Juazeiro do Norte foi realizado um Fórum que discutiu a epidemiologia da doença, situação no município e no estado do Ceará, abordagem psicológica e outros métodos de prevenção, como a Profilaxia Pós-Exposição, PEP (quando a pessoa é exposta ao vírus) e a Profilaxia Pré-Exposição, PrEP (em casos de sexo inseguro).

O Prefeito de Juazeiro do Norte, Arnon Bezerra, destacou a importância da valorização da vida. “Estamos vivendo um momento importante. Em uma data como essa devemos refletir, devemos nos importar com o outro, para que a gente possa valorizar cada vez mais a vida e tenhamos o cuidado para não dar oportunidade à doenças como essa”, declarou.

A secretária de saúde do município, Francimones Albuquerque, revelou que o serviço receberá mais um médico infectologista. “Nós temos hoje mais de mil pacientes cadastrados e mensalmente a gente atende mais de 600. Precisamos de mais um médico infectologista para que a gente possa dar melhor atendimento e ampliar o acesso, dando garantia de prevenção aos nossos pacientes, qualidade de vida e diagnóstico precoce”, apontou.

Durante todo o mês, as ações preventivas serão intensificadas nas escolas, empresas e postos de saúde com a oferta de testes rápidos e distribuição de preservativos. Os casos positivos são encaminhados ao Hospital Estefânia, referência no atendimento. O sigilo do paciente é mantido.

 

6 a 8 novos casos foram registrados por mês em 2017 (Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Jardim, Caririaçu e Granjeiro).

 

Em Crato, a abertura da Campanha ocorreu na Praça Siqueira Campos no último sábado, 01. Além das atividades de prevenção e promoção de serviços, também houve programação cultural com a Banda de Música do município. Foram realizados 96 testes rápidos e disponibilizadas informações educativas em parceria com o Sesc Crato, Arte Gay e Faculdade Estácio. A coordenadora da Atenção em Saúde, Deborah da Conceição avaliou o evento. “Foi um momento muito positivo, tivemos uma boa adesão da comunidade que portou-se de maneira participativa, oferecemos também aferição de pressão, e fizemos cadastros do Programa Crato Cuidando de Você”, elencou.

Barbalha também realizou o lançamento do Dezembro Vermelho no sábado, 01. Cerca de 100 pessoas foram atendidas. A Tenda da Saúde foi montada na Praça Dr. João Filgueiras Teles para orientar a população sobre a prevenção e identificar casos existentes. O atendimento permanece de forma contínua nos Postos de Saúde da Família com testes para HIV, Sífilis e Hepatites. Os casos positivos passam por teste confirmatório e são encaminhados ao Centro Especializado no Cariri.

A Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, Sesa, realizará ações itinerantes em empresas, trabalhando a saúde do trabalhador junto ao tema da campanha. Na próxima terça-feira, 11, haverá uma atividade de promoção à saúde e prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis, IST/AIDS, no Hospital Regional do Cariri. Nas Unidades Básicas de Saúde também serão intensificadas as ações, com oferta de testes rápidos e outras orientações de prevenção.

 

Ceará em 2018:

975 novos casos de HIV

592 novos casos de Aids

247 óbitos

 

Nanopartículas podem inativar vírus

Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, CNPEM, desenvolveram um estudo que utiliza nanopartículas carregadas de grupos químicos para atrair os vírus, que deixariam de se ligar às células do organismo. A estratégia foi desenvolvida na pesquisa “Funcionalização de nanopartículas: aumentando a interação biológica”, coordenada por Mateus Borba Cardoso e realizada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp. É o primeiro estudo que comprova a inativação viral em base química de nanopartículas. O resultado reduziu em até 50% a infecção viral.

 

 

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