Arte e Cultura

Desfile de majestades abriu o Ciclo de Reis em Juazeiro do Norte

O brilho da realeza da cultura popular envolveu quem passou pelo Centro da cidade na tarde desta sexta-feira, 21
Por Bruna Vieira • 22 de dezembro de 2018

Foto: Helio Filho/ Ascom Juazeiro do Norte

A rotina do comércio na Rua São Pedro, principal via do Centro de Juazeiro do Norte, foi quebrada no fim da tarde desta sexta-feira, 21. O cortejo de 45 grupos de tradição popular abriu o Ciclo de Reis 2018-2019 no município. O resplendor de uma realeza cultural que reluz mais forte até o dia 06 de janeiro e arrematou o público em um desfile de cores, perfumes, sons, pele e emoções, despertando todos os sentidos humanos.

A arte de rua é a manifestação humana mais democrática, pois, não julga diferenças, não limita presença, mas, dissolve fronteiras entre artistas e público. Misturam-se entre selfies. Crianças, idosos, mulheres, homens caminham lado a lado em uma festa que parece nunca chegar ao fim. O gênero se perde, homens se vestem de mulher e vice-versa. Rosa não é coisa de menina e azul não é coisa de menino. O rebolado pertence a todos e as cores também. Espelhos que se refletem, multiplicando essas imagens em milhares de identidades. Um reinado de glamour que emerge das camadas menos favorecidas da população, mas, com lume de dignidade.

Brilho que se repetia nos olhos curiosos de quem acompanhou a multidão que desceu da Praça Dirceu Figueiredo (Praça da Prefeitura) rumo ao Largo da Fundação Memorial Padre Cícero (Praça Cinquentenário). Festa de rua é assim, não paga para olhar. Em cada passo ensaiado com amor, pares de pernas em sincronia traçavam a dança que simboliza o regionalismo caririense.

Fitas, chapéus de couro, apitos, penas, laços, plumas, cordões, bolas, o tilintar das espadas que guerreiam contra inimigos mágicos ou quem sabe simbólicos. A luta desses guerreiros diariamente é contra as injustiças sociais, a desigualdade e o preconceito. A ansiedade dos pequenos na hora da formação para a saída do cortejo revela que esse é o momento mais importante do Ciclo, tanto quanto seu encerramento 16 dias depois, com a festa para Baltasar, Gaspar e Melchior, os três reis magos que originam a festa.

 

“É a segunda edição dessa política pública que vem se fortalecendo. Quantos brincantes a mais têm hoje em relação ao ano passado? Meus parabéns a todos os mestres e agradecimento. A gente vai mandar boas vibrações, uma bela arte, grande cultura para todo mundo poder vislumbrar. Vamos caprichar nas terreiradas e no cortejo de encerramento no dia 06” – Renato Fernandes, secretário de Cultura de Juazeiro do Norte.

 

Helio Filho/ Ascom Juazeiro do Norte

Alguém falou em festa?

Foi nesse clima que o desfile de majestades teve início. De lorota em lorota corre o Mateu veloz na multidão. Zabumba, triângulo, violão, pandeiro, flauta, pífano. Os instrumentos se harmonizam, todos ritmados na mesma cadência da feliz cidade neste dia. O coração do Cariri pulsa cultura. Em cortejo sobrevoam também as aves no céu. Comerciantes, trabalhadores e clientes pararam para ver “a banda passar”. Crianças no “tum tum” dos pais para enxergarem acima dos mais altos. O trânsito parou e mesmo assim, nada de estresse, só apreciação e respeito. As lentes dos celulares filmavam o que a memória quis perpetuar.

O espetáculo não se restringe aos reisados. Lapinha, Maneiro Pau, Bacamartes e outros tantos que integram as tradições juazeirenses tomam posse do espaço público que é tão vosso. Enquanto ministram uma aula de comunhão, brincando entre eles e com grupos diferentes. Não tem rivalidades, tem somas. As roupas padronizadas de cada grupo identificam quem eles são, é o sentimento de pertença que norteia seus membros.

A tarde cai. De coroa na cabeça e espada na mão, as meninas destilam elegância em suas saias rodadas, coordenando o sopro do vento. Nem o calor, nem o cansaço param os mais velhos. Casais que atravessaram décadas dividindo o amor em família e na cultura. Demonstrações de afeto que saíram do privado ao público naquela tarde, bulindo os sentimentos contidos de quem observava. Passos, passos, passos. Espada risca o asfalto. Marca de gente feliz.

 

“O Ciclo de Reis é um sonho que a cultura possa ter valor, que a gente possa dar voz aos brincantes e que eles possam mostrar seu brilho e quem sabe serem reconhecidos pelos seus valores e o tamanho que eles têm. Quem são os reis? As pessoas mais simples da nossa cidade, é mantida a essência, pessoas que vivem em comunidade, anônimas, invisíveis e excluídas da sociedade. Vestem-se de reis e rainhas e vêm festejar o reinado encantado. Essa é uma missão de nós que fazemos cultura e da Secretaria: dar voz e lugar para que essas pessoas possam brincar e ser valorizadas” – Maria Gomide, coordenadora do Ciclo de Reis pela Secretaria Municipal de Cultura.

 

Helio Filho/ Ascom Juazeiro do Norte

Brilho em terra e céu

Mira o céu o bacamarte. O brilho dos brincantes alumiaram a terra. A ausência do grande líder dos Bacamarteiros da Paz, mestre Zuza, não impediu que sua luz atingisse a todos do céu. Os olhos marejados de mestre Nena, que coordena os trabalhos não escondem o pesar pelo falecimento do companheiro no último dia 10. A perda não foi fácil para o grupo, que puxa o cortejo abrindo alas para os demais. Os tiros anunciam a hora do show.

O estandarte com fotos de mestre Zuza é para lembrar a todos de seu legado. “Influenciar os jovens a entrar na cultura nordestina que estava se perdendo. Eu também não me interessava, quando nasci meu pai já dançava. Entrei no Bacamarte com 14 anos e acompanhei-o até os dias de vida que ele esteve aqui. E ainda vou continuar”, declarou sua filha Aparecida Angelita Calixto.

A esposa reuniu forças para superar a dor e participar da folia que mestre Zuza tanto amava. Foram 25 anos de convivência com dona Edvânia Alves, com quem teve duas filhas, dentre os nove que deixou. “Se ele estivesse aqui, estaria muito feliz, brincar cultura era a vida dele. O grupo ainda está de luto, mas, seguimos em frente”, ressaltou com emoção.

Bacamarterios da paz seguem tradição de mestre Zuza. Helio Filho/ Ascom Juazeiro do Norte

O Largo do Memorial nunca esteve tão colorido. Tem índio e tem anjo, fantasia das mais diversas. Mestra Fraternara cantou em gratidão ao pai e todos seguiam em uma só voz. De arrepiar. Até quem não faz parte dos grupos, rende-se à dança. Mestre Cachoeira e Mestra Margarida foram os homenageados da noite.

Carne, pele e ossos vibram. Sorrisos se cruzaram nos mais de 1.500 metros percorridos. As ruas estavam tomadas de reis. Mestre Antônio dos Discípulos de Mestre Pedro guiou a todos com seu canto na marcha mais encantada. As cenas mais lindas para se ver nessa época do ano e estão apenas começando. As terreiradas darão o tom em 25 apresentações do nascente ao poente na terra de padim Ciço. Tradições que permanecem vivas de geração em geração.

Mestra Margarida, a mais antiga em vida. Helio Filho/ Ascom Juazeiro do Norte

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