Arte e Cultura

Crocheteando com Amor: amigas transformam técnica de crochê em negócio

Por Marcio Silvestre • 6 de agosto de 2020

Muitos negócios estão sendo reformulados e até mesmo surgindo durante a pandemia de Covid-19. Em Crato, as amigas Assistentes Sociais e Artesãs, Luciana Manenti e Carliana Carvalho compartilham uma paixão em comum: o crochê. Durante o isolamento social, ambas decidiram investir na arte e confeccionar amigurumis, técnica japonesa para criar pequenos bonecos e objetos feitos de crochê ou tricô.

“A ideia para a confecção dos amigurumis veio junto com a pandemia. A redução da carga horaria no trabalho formal, bem como uma alternativa para sair da frente da televisão, que só falava em pandemia e casos crescentes”, relata Luciana, que começou a ocupar a mente com o crochê para evitar a angustia e ansiedade causada pela pandemia.

Foi através das redes sociais, em um grupo de amigas “crocheteiras”, que as duas começaram a trocar experiências, tirar dúvidas e se sentirem motivadas a fortalecer o talento e aptidão para o artesanato. “Começamos a expor individualmente nossas peças no instagram, algumas pessoas começaram a perguntar se vendíamos, isso aconteceu comigo e com Luciana”, relembra Carliana, afirmando que tudo isso serviu de incentivo para elas criarem o “Crocheteando com Amor”.

“O crochê e os demais trabalhos artesanais são formas de geração de renda e muitas vezes ocupam toda uma família na sua produção, que exige tempo, dedicação e estudo.  É também uma forma de terapia, pois é capaz de tratar ansiedade e outras doenças, pois exige muita concentração e raciocínio lógico. Sem matemática não se faz crochê, a contagem dos pontos tem que ser perfeita. E nós somos muito exigentes com o resultado final das nossas peças, todos os pontos tem que estar em seus devidos lugares, e se não tiver desmanchamos e fazemos tudo novamente”, explica Luciana.

Arte que atravessa gerações

Segundo os historiadores, os trabalhos de crochê têm origem na pré-história. A arte foi aprimorada no século 16. No Brasil, o crochê faz parte do artesanato tradicional amplamente difundido no nordeste, fazendo parte da cultura regional e acompanhando gerações. Para Carliana o crochê, assim como outras artes manuais, faz parte da nossa ancestralidade. “O crochê é uma conexão que temos com a cultura herdada pelos indígenas, negros e portugueses. Diversas técnicas artesanais são desenvolvidas por mulheres habilidosas, como o labirinto, a renda de bilrro, a renascença, o rechilier, os artefatos em barro, dentre outras”.

As mulheres são as verdadeiras protagonistas dessa arte, através da observação e treinamento muitas netas aprendem a técnica com as avós crocheteiras e perpetuam o trabalho na família. Luciana relembra seus primeiros passos no crochê e a influência que recebeu da avó Maria de Moça. “Quando eu era pequenina via minha vó tramando aqueles trabalhos imensos para vender, eu ficava encantada como era valorizado o trabalho dela naquela época, chegando a enviar para cidades fora do estado como Recife, São Paulo e outros lugares. Lembro ainda que após o trabalho realizado minha avó lavava e colocava goma para dar firmeza e ainda mais beleza a peça. As vezes ela tramava colchas para cama sem nem olhar para as mãos, pois já sabia tramar os pontos enquanto mantinha um dialogo com alguém. Eu ficava impressionada com o resultado e não saia de perto dela, perguntando como fazia, pedindo para tramar junto… e assim iniciei os meus passos nesta arte”.

Amigurumis: brinquedos e mimos de crochê

A arte aperfeiçoada no Japão dá vida a personagens encantadores, sendo ótimas dicas para presente e demonstração de afeto.  Por ser artesanal, cada peça é única, exige técnica, tempo e muito cuidado para chegar ao resultado esperado. Luciana e Carliana costumam fazer um projeto, planejando cada etapa da confecção do boneco, como relatam:

O primeiro passo é o desenvolvimento da receita, muitas artesãs dedicam-se a desenvolve-las, algumas comercializam, outras partilham sem vender, e outras ainda possuem canais no youtube e ensinam o passo a passo de cada peça.

Depois começamos a confecção da peça, que inclui a escolha das linhas, das cores, da agulha. Aqui começa a magia de transformar linha e agulha em amor e arte. O amigurumi é feito em crochê espiral, sem emendas, porém exige a costura, e o bordado, vamos supor que vamos confeccionar um leãozinho, então temos que fazer, cabeça, corpo, focinho, juba, braços, pernas, depois montar costurando como um quebra-cabeça colocando cada parte no lugar de forma harmônica.

Então depois de todo o tempo e dedicação empregado em cada projeto desenvolvido, sofremos muitas vezes com a não valorização do trabalho artesanal, as pessoas tendem a minimizar o nosso trabalho, não conseguem entender que para uma peça ficar pronta demora semanas, às vezes meses.

Valorização do trabalho artesanal

Diferente de um produto industrializado, o artesanato é feito de forma individual e minuciosa “peça por peça”.  Para Luciana, é preocupante a falta de profissionalização das artesãs da região, que possibilita a precarização e desvalorização do trabalho. “Faltam políticas públicas de incentivo e de cuidado com essas trabalhadoras, ações afirmativas e educacionais, que trate sobre empreendedorismo, cooperativismo, noção de valor com o que se gasta para produzir uma peça, incluindo material, tempo da artesã, para que não se tenha prejuízos na comercialização. Levando em consideração a saúde da trabalhadora e previdência social para ficar acobertada em situações de impossibilidade de trabalhar. São várias as situações que precisam ser trabalhados junto a estas mulheres artesãs”, finaliza.

Conheça mais o trabalho de Luciana e Carliana através do instagram @crocheteando.comamor

 

 

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Marcio Silvestre

Marcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".