Arte e Cultura

Costureira do escuro

Por Redação Cariri • 17 de setembro de 2020
Por Alexandre Lucas*

A noite estava mais escura, as luzes dos postes e das casas deviam ter se cansado ou se reuniram para fazer greve. Quando as luzes se apagam, sem a nossa vontade, os que estão espalhados se juntam, parece até que o escuro é perverso ou que ele tira nossos olhos e nossa coragem.

Tinha uma vela acesa no meio da sala, parecia até uma fogueira, mas não fazem fogueira no meio da sala. Fogueira em casa é incêndio. Enquanto a vela chorava no meio da sala e seu tamanho ia diminuindo, três rostos se viam, semelhantes aquelas fotos preto e branco, em que os rostos pegam o escuro para fazer de cortina.

Enquanto as luzes não eram acesas, tinha aquela vela, que parecia uma fogueira dentro de casa, estava aquecendo aqueles três rostos e suas imaginações. Enquanto a vela se derretia, uma senhora costurava suas memórias, falava de sapos, banhos de rios, frutas, escuro e de gente. Ela conseguia costurar tudo, como as roupas que costurava com tranquilidade e cuidado.

Os dois rostos ficavam atentos, a cada palavra daquela senhora, que falava baixinho, quanto mais baixo ela falava mais era compreendida. O desejo era que as luzes dormissem mais um pouco, enquanto aquela senhora costurasse e recosturasse suas memórias.

A luz continuava apagada, já não tinha mais vela e a luz daquelas palavras clareavam a imaginação. Por muitos anos, quando as luzes se apagavam por vontade própria, aqueles rostos se reuniam e acendiam uma vela no meio da sala para escutar a senhora que costurava suas memórias no escuro.

Foto: Freepick (Elderly woman knitting handicraft hobby).
Sobre o autor

Alexandre Lucas é pedagogo, presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais do Crato/CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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