Coronavírus

Coronavírus: dicas para manter a saúde mental durante a quarentena

Por Márcio Silvestre • 1 de abril de 2020

O Ceará está de quarentena desde o dia 20 de março, quando começou a valer o decreto de fechamento do comercio e serviços não essenciais. Após prorrogação da medida, pelo governador Camilo Santana, no último sábado, 28, os cearenses permanecem praticando o isolamento social. Na nossa coluna de Saúde e Bem-estar dessa semana abordaremos dicas da psicóloga Débora Silva, para vivenciarmos o confinamento sem cair no sofrimento. Ressaltamos a importância do cuidado com a saúde mental principalmente em momentos de crise.

Todos os dias somos bombardeados de informações sobre a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A imagem de centenas de caixões sendo transportados por comboios do exercito, na Itália, assombra o imaginário da população. Nesse cenário, é importante lidar com a crise de forma equilibrada, mesmo com as adversidades do momento e a prática do isolamento social, que transformou a dinâmica diária da sociedade.

De acordo com Débora, a problemática que estamos enfrentando com a pandemia mundial do novo Coronavírus, coloca em pauta algo sinalizado por Freud no texto Mal-Estar na Civilização (1996/1930), que retrata o desamparo humano frente às intempéries ambientais, a doença, a velhice, os relacionamentos conflituosos e a morte. “Temos a tendência a acreditar que possuímos o controle no que tange à natureza, nosso corpo e mente, e relações que travamos com os outros. A verdade é que o ‘Ego não é senhor de sua própria morada’ e pandemias como esta só nos lembra de nossa fragilidade estrutural e nos coloca diante do fato de termos de considerar nossa finitude”, destaca.

Dicas para lidar com o isolamento

Utilizar o tempo para distrair a mente é a forma de lidar com a quarentena. Usar as redes sociais para se comunicar com familiares e amigos, ler livros, assistir filmes, apreciar arte de forma geral, fazer cursos EaD e buscar informações sempre em fontes seguras. A psicóloga Débora Silva traz algumas dicas para lidar com o período de isolamento.

1- A Terapia Cognitivo Comportamental ensina que não é a situação em si que nos causa ansiedade, medo, tristeza. Mas os pensamentos automáticos que nutrimos ao redor dessas situações. Estes pensamentos, em sua maioria, são de cunho distorcido e/ou negativo. O que aumenta as sensações físicas e psíquicas em torno da angustia.

2- Além disso, podemos alterar nossos pensamentos automáticos de cunho disfuncional com afirmações positivas do tipo: Seja lá o que aconteça, sofrer por antecipação dificulta encontrar uma solução racional que seja embasada em evidências.

3- A Psicologia Analítica Junguiana adverte que, “Tudo aquilo a que se resiste, persiste”. Ou seja, trazendo para a dimensão da pandemia, negar que está sentindo angústia pode fazer essa emoção aumentar na percepção e sensação da pessoa. Neste sentido, aceitar que o medo existe e não se prender aos pensamentos que o geram é altamente recomendável.

4- As terapias holísticas orientais e as pesquisas científicas ocidentais em torno dos efeitos benéficos da meditação apontam sua prática no intuito de promover relaxamento, redução dos pensamentos automáticos negativos, hormônios do bem, do tipo: dopamina, serotonina e endorfina.

5- A Psicologia Positiva promove o entendimento de que uma vida baseada em prazer, engajamento e significado nutre no ser humano a ampliação de suas funções executivas superiores, tais como: empatia, altruísmo, sentimento de autoeficácia e autocontrole, o que colabora para mantermos um pensamento e atitudes que levam em consideração a dimensão do reconhecimento da alteridade e do respeito às vítimas contaminadas e às regiões que originaram e deflagraram tal vírus.

6- A Análise do Comportamento também ensina que um comportamento volta a ocorrer no futuro através de suas consequências. Ou seja, não dar atenção a noticias falsas ou de cunho xenofóbico pode contribuir para que tais comportamentos sejam extintos na rede social. Neste sentido, a atenção, o bate boca, as discussões desnecessárias contribuem para que estas atitudes se mantenham.

7- Ainda é possível praticar a Análise do Comportamento, uma aprendizagem que pode ser estabelecida por meio de regras ou pelas contingências ou experiência. Mas, o raciocínio e estabelecimento de planos e metas é um dos atributos humanos, o que leva a crer que exercer as regras e recomendações das autoridades de Saúde pode ajudar a prevenir muitas lágrimas, dor e morte no presente e no futuro.

8 – Charles Darwin, há cerca de dois séculos, sinalizou a existência da seleção natural e o fato que só os mais adaptáveis sobrevivem a determinadas mudanças ambientais e mesmo sociais. O que leva a crer que, nós, seres humanos continuamos frágeis diante das intempéries. O raciocínio, entretanto, pode e nos ajuda a desenvolver métodos, próteses, remédios e vacinas que estendam a atuação dos nossos órgãos dos sentidos e garantam a proteção e sobrevivência da espécie humana.

9 – A psicanálise Freudiana sinaliza que o lado inconsciente e os conteúdos que compõem as instâncias psíquicas denominadas ID e Superego, na maioria das vezes, sobrepõem os domínios do Ego e da racionalidade. No entanto, através da análise das defesas: fantasias, projeções, identificações e recalques, é possível, mesmo às custas de certo mal-estar na Cultura, vivermos sob o domínio das Leis que guiam e sustentam uma Civilização. Com efeito, possuímos um vazio existencial que não pode ser totalmente preenchido, vazio este relacionado à nossa condição de seres finitos, mortais. E essas catástrofes mundiais veem nos lembrar dessa verdade inescapável. O desespero, entretanto, pode aumentar essa angústia e tornar nossa sanidade mental impraticável.

10- Freud nos ensina, ainda, que transformar o sofrimento neurótico em sofrimento comum pode ser atingido por intermédio da terapia psicanalítica, dos entretenimentos sociais, das substâncias químicas, do sexo, do amor ou da arte. Na impossibilidade de atingirmos esse ínfimo de plenitude por intermédio das relações físicas; então, nos cabe encontrar um sentido em meio ao sem sentido do CAOS que nos assola através do apoio mútuo virtual, da apreciação e da fruição da arte em geral (dentre elas, o cinema, a literatura e a música).

Foto destaque: Freepik.

 

CATEGORIA:

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".