Economia e Negócios

Com 156,8 milhões arrecadados, Ceará é o 3º do Nordeste que mais fatura com seguro prestamista

Conheça a modalidade que cresceu quase 30% no estado e como o setor segurador dribla a crise econômica e evita inadimplência
Por Bruna Vieira • 30 de outubro de 2019
Medo de endividamento é um dos fatores pela busca de seguro que pode evitar negativação de crédito e inadimplência. Foto: Freepik.

Talvez você não tenha familiaridade com o termo “prestamista”, mas, certamente, já recebeu a proposta para contratar um seguro ao comprar algum produto no crediário ou aderir a um novo cartão de crédito. Essa modalidade cresceu 29,7% no Ceará em 2018 e é a nova aposta das seguradoras na região do Cariri. Pouco falada, mas, muito utilizada pelos cearenses, o estado é o 3º do Nordeste e o 9º do país que mais faturou nesse segmento: R$ 156,8 milhões. Apesar da instabilidade econômica, o setor segurador mantém índices de crescimento.

Se por um lado, a crise econômica faz as pessoas apertarem as contas e cortarem gastos, por outro, a palavra de ordem é precaução e menos riscos. Quem nunca se viu às voltas da perda do emprego e com compras parceladas a vencer? Aquele valor a mais na prestação que pode ser visto como um encarecimento, pode ser uma forma de proteção muito útil para evitar negativação e dívidas com juros por atraso.

Há 32 anos no ramo de seguros no Cariri cearense, José Torquato Junior, gerente da TJ Seguros, em Juazeiro do Norte, explica os tipos de cobertura. “É contratado pelas pessoas jurídicas que trabalham com financiamento, por exemplo, ao comprar um carro financiado, a empresa financeira com a permissão do comprador, já inclui na parcela o seguro prestamista. Em caso de falecimento, invalidez que impeça a pessoa de trabalhar ou perda de emprego, esse seguro quita a dívida. Pode ser uma construtora que vende apartamentos ou até mesmo lojas que comercializam aparelhos celulares”, elencou.

Diferente do que muitos pensam, a função do seguro não é apenas indenizar depois que o problema ocorre. Há um papel de gerenciar riscos, evitando a negativação de consumidores que pelos motivos previstos em contrato não consigam pagar o parcelamento e a inadimplência no comércio, girando a economia. “É um alento no meio de uma situação dramática. É muito importante que as instituições tenham uma garantia, com a nossa economia sempre tumultuada, se algum contratempo acontecer com o comprador, o seguro mantém a liquidez e saúde financeira da empresa”, justificou.

Fonte: SES/Susep.

Principais utilizações do seguro prestamista:

Empréstimos em instituições financeiras;

Cheque especial;

Cartão de crédito;

Consórcios;

Financiamentos de imóveis, veículos, eletrodomésticos, eletrônicos e outros;

O coordenador da Escola de Negócios e Seguros, José Varanda aponta as perspectivas do seguro prestamista para 2020. Ouça o áudio:

Mercado em ascensão

Em tempos de incerteza na economia, se precaver é o melhor remédio. Esse tipo de seguro é bem mais difundido nas regiões sul e sudeste. Seu crescimento no Ceará está ligado ao acesso para a população com menor poder de consumo, que no ato da compra contrata o serviço com os lojistas. “Esse mercado não é muito explorado pelo corretor local, mas, esse cenário já está mudando, as concessionárias, construtoras, elas mesmas financiam os bens que vendem. Outro setor que tem contratado bastante esse seguro são as imobiliárias para aluguel. No contrato, o locatário em vez de apresentar um avalista, adquire um seguro prestamista. Até o término de contrato de aluguel, a seguradora paga o aluguel dessa pessoa nas condições especificadas”, destacou Torquato Jr.

Modalidade semelhante em ascensão na região é o seguro educacional, que cobre as mensalidades de escolas ou universidades nas mesmas condições que o prestamista. “É um mercado que tende a crescer”, apontou otimista o corretor.

Há 61 anos o pai de Torquato Jr iniciou o negócio de seguros no Rio de Janeiro. A família deu continuidade ao trabalho no Cariri. A esposa Deonice e a filha Isadora também são corretoras. Foto: Arquivo Pessoal.

Impacto econômico

O setor segurador arrecadou R$ 82,2 bilhões no Brasil somente nos quatro primeiros meses deste ano, segundo a Carta de Conjuntura de Seguros da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização, CNseg, divulgada em junho. O seguro prestamista é responsável pela fatia de R$ 4,41 bilhões, um crescimento de 26,72% sobre o mesmo período de 2018, em que o prêmio total chegou a R$ 3,48 bilhões. Uma das coisas que os brasileiros mais têm medo é de dívidas: foi a 5ª modalidade que mais cresceu no país.

Fonte: Carta de Conjuntura. Dados até abril.

Boanerges Lopes, conselheiro efetivo do Conselho Regional de Economia do Ceará, Corecon, aponta o setor segurador como fator de desenvolvimento econômico e pilar de sustentação do capitalismo. “É um componente importante no meio empresarial porque apesar das crises, funciona como protetor de patrimônio e dinheiro. É exatamente nos momentos difíceis que as pessoas têm receio de perderem o que ganharam em períodos de bonança. Evita surpresas ruins e despesas extras, assegurando um recurso”, ponderou.

O economista ressalta o ponto de vista da empregabilidade na corretagem. “O seguro tem forte penetração em vários aspectos, quer na vida pessoal, familiar, de patrimônio fixo ou móvel. Por isso não sofre tanto com a crise quanto outros setores. E contribui muito na economia porque gera oportunidade de emprego e renda, oportuniza alternativas de soluções dos problemas e aproxima empreendedores dos seus objetivos de negócios, que encontram um pouco de segurança que o mercado não dá por conta dos riscos”, avaliou.

“Enquanto economista, tanto pessoalmente, como familiarmente e junto aos amigos e clientes e, enquanto consultor empresarial, oriento que seja feito sempre o seguro, pessoal, de casa, veículo, equipamento, às vezes até de joias ou algo que precisa ser preservado para o futuro mais longínquo”, concluiu Boanerges.

Fonte: SES/Susep. Dados de 2018.

O Ceará foi o 10º do país que mais pagou sinistro por seguro prestamista em 2018. O que significa que mais pessoas precisaram do benefício. Foram 46,9% a mais que no ano anterior, quando foram desembolsados R$ 15.354.323. No Nordeste, somente Alagoas e Maranhão apresentaram variações maiores: 95,7% e 73,8% respectivamente, segundo dados do Sistema de Estatísticas da Superintendência de Seguros Privados, SES/Susep.

Medo x Segurança

A cultura do seguro deixou de ser algo característico das grandes cidades e propaga-se cada vez mais em centros interioranos. O medo de perder um bem ou patrimônio adquirido é uma das razões que levam as pessoas a procurarem esse tipo de serviço. De acordo com o sociólogo Marco Aurélio Barros, doutor em Política Social e mestre em Administração Pública, artifícios mercadológicos também favorecem a seguridade.

“Do ponto de vista da sociedade em que vivemos, baseada no consumo, a aquisição de qualquer mercadoria tem a ver com as estratégias de marketing cada vez mais poderosas. Seguro é uma mercadoria de caráter financeiro, que são as que mais produzem riqueza. O medo é também uma mercadoria do nosso tempo que se materializa em um conjunto imenso de atributos. Não é necessariamente a perda de patrimônio que faz com que a pessoa adquira seguro”, explicou.

“Se a gente quiser atribuir a processos sociológicos mais complexos, a gente tem que olhar para a sociedade em que vivemos. Anthony Giddens coloca essa questão do risco. Qual é a garantia que a gente acaba criando? Sistemas peritos. Por exemplo, se todo mundo parar para pensar, é assustador voar de avião. Por que as pessoas voam? Porque acreditam que existe um sistema perito capaz de fazê-las chegarem do outro lado da viagem. Essa crença em sistemas de proteção e, o seguro é um deles, faz com que essa mercadoria passe a ser comercializada”, complementou o professor.

Para Marco Aurélio, os produtos financeiros atuam com a ideia de antecipação ou garantia de algo para o futuro. “O seguro, como todo produto financeiro trabalha com duas dimensões: da crença do valor volátil sobre toda e qualquer coisa e que essa variação tem a ver com a capacidade que alguns agentes têm de vender tempo, vender o futuro. Quando você compra uma mercadoria a crédito, na verdade, você está gastando hoje o dinheiro que só teria amanhã”.

Marco Aurélio acrescentou que o mercado securitário aproveita as oportunidades de políticas para consolidar as vendas de seguros previdenciários. “O Brasil não tem hoje um mercado de seguro previdenciário do tamanho que poderia ter, por isso há até uma percepção de que nós brasileiros estamos mais preocupados com o futuro. Com a aprovação da reforma da previdência, cria-se um mercado potencial que será um dos maiores do mundo”, apontou.

 “O risco é colocado para uns como oportunidade imensa de negócios, porque as margens de rentabilidade tendem a ser maiores e ao mesmo tempo, o risco é algo da natureza essencial da vida cotidiana. A gente está sempre sob ameaça que probabilisticamente alguma coisa vá acontecer no nosso curso de ação que pode interromper os nossos desejos, as nossas vontades” – Marco Aurélio Barros, cientista social.

Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".