Arte e Cultura

COINCIDENTEMENTE

Por Filipe Pinho • 15 de agosto de 2019

Coincidentemente, preparei uma crônica sobre os absurdos proferidos pelo presidente Bolsonaro contra a causa indígena. Para ilustrar o texto, resolvi fotografar alguns indígenas tapeba (aldeia que sabia existir no município de Caucaia). Entrei em contato com uma instituição indigenista que me direcionou a um membro da aldeia. Isso foi quarta passada. Coincidentemente, o indígena me informou que naquele dia começaria a XIX Feira Cultural e Jogos Indígenas Tapeba. O evento, com três dias de duração, sempre foi realizado em outubro, mas este ano, coincidentemente, anteciparam a data.

E com o aval do meu contato, fui à aldeia. Cheguei às 9:30h e me enturmei rápido. Conversei com várias lideranças, expliquei meu intuito e pedi permissão para fazer fotos (quanto mais melhor). Às 12 horas, tinha na base de cinquenta fotografias de cerimônias, músicas, esportes, pessoas… Tava tudo certo. Meu objetivo fora alcançado e eu já podia ir embora. Coincidentemente, deu vontade de ficar um pouco mais. Às 12h30, gritos vindos da lagoa, assim como a movimentação desbaratada naquela direção, alertou todo o evento. Eu tomava café em uma das ocas e só me juntei à correria quando escutei o seu motivo: “O menino se afogou”.

Olhando por cima de cabeças curiosas como a minha, avistei um grupo de seis pessoas que claramente lutava para trazer um corpo à margem. Uruá, um dos líderes tapeba, resgatou o afogado do fundo da lagoa e comandava o nado.

Deitado na areia, o garoto de 15 anos não passava de um corpo. Era um corpo morto na beira da lagoa. Coincidentemente, abri espaço e me joguei de joelhos ao lado do afogado. Coincidentemente, o André Tapeba, professor da escola Abá Tapeba, fez o mesmo. Uma médica que visitava a aldeia também participou da ressuscitação. Eles intercalavam quinze massagens cardíacas e eu soprava a plenos pulmões os pulmões encharcados do adolescente.

Passados uns cinco minutos a médica perdeu o pulso — que até aquele momento estava fraco, mas estava: “Tá sem pulso, tá sem pulso… Parem um pouco”. Checou os batimentos com mais cuidado e decretou: “Podem parar. Tá em óbito”. O André, à minha direita, ombro a ombro, desacatou o parecer médico e disparou a gritar, olhando fixamente para o garoto no chão: “Não é teu dia, cara. Não desiste! Hoje não é teu dia”. E nós dois, coincidentemente, continuamos as manobras. O corpo estava mais morto que nunca, isso era visível, mas, coincidentemente, continuamos: quinze empurrões e duas fortes sopradas.

Um minuto depois, percebi um movimento no pescoço do jovem. Gritei à médica. Ela tocou a artéria com os dedos e foi direto com as mãos cruzadas no peito do garoto: “Ele voltou, ele voltou”. Desse momento até a chegada do helicóptero de resgate foram longos vinte minutos de pura luta. Àquela altura, o jovem (não mais o morto) já respirava sem a minha ajuda.

Estabilizado, porém inconsciente, foi transportado de carro até um campo de futebol, onde o helicóptero o esperava. A equipe de paramédicos o colocou numa maca e posicionou a máscara de oxigênio que denunciava o movimento decidido do peito que há menos de 30 minutos estava completamente estático.

O colocamos no helicóptero e acompanhamos a decolagem. Ato contínuo, meus colegas de salvamento desabaram a chorar. Eu, com a roupa toda enlameada, não tive a mesma reação. Voltei à aldeia e fiquei andando pelo terreiro sagrado. Não conseguia falar nada: meus pensamentos estavam absolutamente nublados. Notaram a minha peregrinação circular, me sugeriram que sentasse e mediram minha pressão. “Tá alta, 14 por 11.” Bebi água, deitei-me no chão batido e respirei por alguns minutos.

Recebi o carinho da tribo, abracei o André e fui embora.

Esses fatos ocorreram na quinta passada e até agora não consegui chorar. Sinto que meu corpo pede lágrimas que o liberte do estado de concentração que mergulhei para salvar o garoto. Mas ainda não consegui: estou perturbado com essa avalanche de coincidências.

 

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Filipe Pinho

Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.