Arte e Cultura

Caririanas: Nomes

Por Redação Cariri • 13 de fevereiro de 2020

As ruas e os bairros das cidades ganham seus nomes ou têm suas alcunhas alteradas no afã nada discreto de homenagem a personalidades falecidas. Familiares e nobres (e nobres familiares) têm seus registros afixados em letras de placas e muros. Mesmo não tão próximos, são lembrados os mortos alheios de destaque e reconhecimento local, nacional ou mundial.

É uma forma digna de valorizar aqueles que foram/são importantes para a cidade ou para o proponente. E como estamos numa peleja eterna contra o acionamento coletivo precário da memória, pode ser até uma distinção didática… Na grande maioria das ruas em que morei, por exemplo, tive que pesquisar posteriormente em enciclopédias e google quem havia sido tal personagem que virara endereço.

Por outro lado, n’A Evocação do Recife, Manuel Bandeira escreveu:

(…)

Rua da união…

Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância Rua do Sol

(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade… (…)

 

Esse trechinho do poema vem e volta ao meu pensamento todas as vezes em que repito numa loja ou para um amigo os três nomes que compõem a minha rua e os dois outros que identificam o meu bairro. Além, é claro, dos três que completam quem sou. É nome e sobrenome demais, de gente demais para uma única localização.

Começou primeiramente com as ruas esse processo de dr. fulanização. Mas agora também nos bairros (e até em cidades) é possível encontrar menos referências à natureza, às cores ou aos sentimentos e mais aos nomes de pessoas, personalidades.

Pensei sobre isso porque estive no bairro Bico da Arara em Caririaçu, circulando por aquelas ruas que sobem e descem e descortinam horizontes de verde, de casas, de história grande da Chapada. Realmente é feliz quem pode dizer seu bairro assim, sem nome e sobrenome. Viajante displicente, não perguntei a razão do surgimento daquela denominação. Também não quis saber, melhor esse anonimato poético para devaneio individual, emancipador de imaginação.

Ali D. Dina abriu o portão de sua casa e pude articular vento e sol e a pedra. Pedra como panorama. Era a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que olha para o centro da cidade. Com simpatia e sem reservas mostrou o acesso a um mirante com bancos e vista para os pontos cardeais de todos os lugares. Ao final da visita, o Bico da Arara promoveu encontro com a palavra, palavra-paisagem.

Na periferia do Cariri, o Bico da Arara é como a crônica: periferia das letras, tanta gente de literatura e jornalismo. Lugar de salvação da cidade, da palavra. Salvação – saudação dos nomes do mundo.

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