Arte e Cultura

Caririanas: Sinal

A crônica, quanto estilo textual literário e jornalístico, sempre teve um espaço especial na CARIRI Revista. relembramos hoje o texto “Sinal”, que lançou a coluna Cariri Crônica, na 2ª edição da nossa revista impressa. Boa leitura!
Por Redação Cariri • 7 de novembro de 2019

Por Ricardo Rigaud Salmito – Observador da cidade e professor do curso de Jornalismo da UFCA.

Para quem anda de carro a melhor coisa que pode acontecer é o sinal ficar vermelho. Pois é o momento em que o motorista pode olhar a cidade. Ali é possível quebrar o mundo de operações repetitivas e monótonas. Geralmente, a surpresa simplesmente perde terreno, surgindo apenas sob algum esquecimento de lombada ou ousadia de ciclista. No mais, a normalidade grosseira nos abocanha.

Amarelou o dispositivo na esquina do Hospital São Francisco. Sem muita expectativa cumpri somente a tradicional olhadela para os lados por ofício de aprendizado. Sob o último batente da escadinha que dá entrada ao hospital, um menino sentado, perninhas pequenas, cabecinha raspada e chinelos aos pés. Arcava sobre ele no vão reto do ambiente que permite percurso, uma camisa 43 do Flamengo, aquela branca, segundo uniforme do time carioca. Eles tinham intimidade de pai e filho e riam minimante de algum contexto. Riam até onde se pode ir com o riso em uma situação hospitalar.

O batente que lhe cedia assento era feito para seu corpo curto. Pra pé apenas. Ali, sem a menor experiência da arquitetura do prédio, o batente era exclusivamente palco, era dali para ali mesmo, sem continuações. Era manhã de possibilidades aumentadas e na dobra verde adentro do carro em movimento, vi o tal pai (com a camisa do Petkovic) tentar limpar o nariz do menino, por alguma sujeirinha que ficara de resfriado ou choro. Ele colocou com muita dignidade o dedo em sua própria boca, acompanhou saliva e passou delicadamente acima dos lábios do garoto.

Segui. Segui porque era preciso, pelo trânsito, horários e porque o mundo já tinha me deixado a cena na memória. O resto seria automaticamente displicente de narrativa. A preencher como quisesse, a esclarecer como pudesse, a missão apenas de escrever sobre a humanidade tremenda das pequenas coisas que faz o próprio homem. Disso que alimenta a palavra e me faz acreditar na promessa irrevogável de que a vida dos outros pode realmente salvar a nossa e ainda oferecer uma áudio-visualidade permanente.

Sei não o que fazer. E o que deveria ser feito por mim e por todos? Que intervenção precisa o mundo? De reconhecimento e decisão! E da crônica urgente do cotidiano. E há coisas que só a água para resolver. Ali mais ainda, água do homem.

 

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