Arte e Cultura

Cariri Retrospectiva: Guerreiros em Cena

A CARIRI Revista relembra hoje um texto, publicado na Edição 22 (outubro/novembro de 2015), que aborda a produção artística e a história da arte cênica no Cariri.
Por Redação Cariri • 8 de fevereiro de 2019

(Elenco do Espetáculo Karimai da Alysson Amâncio Cia de Dança. Foto: Rafael Vilarouca)

A história das artes cênicas no Cariri começou há quase 150 anos. Hoje, não param de surgir grupos e de estrear espetáculos. Para melhor entender esse cenário, a CARIRI Revista foi até os artistas que têm movimentado a vida cultural, formado público e resistido à falta de estrutura dos teatros locais.

Em março de 1988, circulou pelas escolas, bares e comércio de Crato, Juazeiro e Barbalha um panfleto que anunciava a apresentação do espetáculo A Ópera do Malandro, que iria acontecer nos dois fins de semana entre os dias 19 e 26 daquele mês. Em vez de Marieta Severo, era Delma Feitosa quem fazia a Terezinha. Sem Emiliano Queiroz, a Geni incorporou em Cacá Araújo no Teatro Waldemar Garcia, no Sesi Crato. Por 100 cruzeiros, o público pôde ver o coletivo cratense Cia. Focus de Teatro Amador remontar a famosa peça de Chico Buarque.

Registros da época afirmam que o segundo grupo de teatro amador a surgir no Brasil foi fundado no Crato, em 1942. O Grutac, Grupo Teatral de Amadores Cratenses, reforçou o legado das artes cênicas na cidade, que se iniciou em 1875, quando o Seminário São José abriu as suas portas. Nas atividades dos jovens seminaristas estava inclusa a criação de esquetes de temas bíblicos, que eram apresentadas frequentemente à comunidade. Vinte e cinco anos depois, em 1900, o juiz Manuel Soriano de Albuquerque criou o Grupo Teatral Romeiros do Porvir e estreou a comédia O Crato de Alto a Baixo, apresentando sátiras e críticas que atacavam a sociedade daquele tempo.

Em uma tarde quente de setembro, o ator Edceu Barbosa abriu as portas da Casa Ninho, um prédio neoclássico que fica em frente ao Largo da RFFSA. A casa serve de apoio a grupos que precisam montar seus espetáculos, se reunir, ensaiar e, finalmente, se apresentar. Quando recebeu a CARIRI, na sala onde os integrantes do Ninho resolvem questões referentes à gestão da casa, o espaço abrigava dois grupos de teatro da região em um projeto de residência artística. Lá eles se concentram para ensaiar e usam o galpão como espaço cênico para apresentação de suas peças. Com a precariedade dos teatros municipais na cidade do Crajubar, a Casa Ninho, que existe desde 2011, é a salvação dos grupos que precisam de um espaço. “A gente acaba fazendo o trabalho que deveria ser do poder público”, Edceu diz.

De cabeça, ele estimou existirem pelo menos cinco grupos estreando ou preparando estreia de espetáculos no Cariri. Uma pesquisa feita em 2010 pelo Departamento de Teatro da Escola de Artes Reitora Violeta Arraes Gervaiseau apontou 49 experiências dramatúrgicas e 93 encenações feitas em Crato, Juazeiro e Barbalha entre 2000 e 2008. Essa efervescência, Edceu avalia, não é de hoje. “Eu sempre percebi que aqui tinha uma dinâmica artística muito pulsante em relação ao resto do estado. Tinha algo aqui que sempre me chamou atenção. E, se formos analisar historicamente esse ‘algo’, vamos ver que ele nasce bem lá atrás. É preciso considerar a licenciatura em Teatro da URCA e o surgimento do Centro Cultural Banco do Nordeste, porque eles geram novas comunidades de plateia, como o Sesc faz atualmente e a Sociedade de Cultura Artística do Cariri (Scac) fez há muito mais tempo. E eu diria que é preciso considerar, sobretudo, a arte popular, que vem de muito, muito, muito antes”, diz.

Em sua avaliação, Edceu considera importante a tradição de grupos folclóricos fazerem suas apresentações frequentemente em praças, aonde o público chega espontaneamente, e também o boom de grupos de teatro que nasceram a partir dos anos 40. “Se pensarmos qualitativamente, a região do Cariri é muito privilegiada. Porque nós temos uma plateia ‘educada’ para a recepção de diversas linguagens artísticas”, ele avalia. Com demanda constante de espetáculos sendo produzidos na região e vindos de fora, Edceu acredita ser normal que, ao longo dos anos, a plateia caririense tenha se tornado criteriosa e exigente quanto às peças que assiste. Avental Todo Sujo de Ovo (2009) foi selecionado para viajar o Brasil através do Palco Giratório, programa do Sesc, que levou o Grupo Ninho a fazer 34 apresentações em 28 cidades.

Cena do Espetáculo Avental todo Sujo de Ovo. Foto: Rafael Vilarouca.

O Crato também foi palco das primeiras companhias de dança, que surgiram a partir dos anos 70, mas que foram minguando aos poucos. Quando voltou ao Juazeiro em 2006, após formar-se em Dança no Rio de Janeiro, Alysson Amâncio encontrou um cenário apto a receber grupos de diversos formatos, mas ainda resistente à dança contemporânea. “Quando eu comecei, o cenário era completamente diferente”, ele conta. “Esse movimento lúdico cresceu nos últimos anos, com a Mostra Sesc, os teatros Patativa do Assaré e Marquise Branca, e agora com o Centro de Artes Violeta Arraes Gervaiseau lutando pelo curso de dança na URCA”. E completa: “Foram várias ações, instituições e pessoas que fizeram com que o cenário das artes cênicas na região seja tão efervescente quanto de capitais”.

Assim que voltou ao Cariri, o bailarino fundou a Alysson Amâncio Cia de Dança e, desde então, vem  produzindo, pesquisando e difundindo a dança contemporânea aqui. No ano seguinte, percebendo que as danças populares, como axé e forró, eram mais valorizadas, ele criou a Associação de Dança do Cariri, em uma tentativa de fomentar a dança cênica. Sediada na Rua São Francisco, em Juazeiro do Norte, a Associação oferta aulas de jazz, dança contemporânea e balé à comunidade, além de dança de rua e populares. Em 2010, a Associação de Dança do Cariri calculou existirem 2.700 artistas da dança na região, desde dançarinos de tradição popular à swingueira. Atualmente, existem sete escolas de dança só em Juazeiro do Norte, sendo quatro de dança contemporânea.

A Associação de Dança do Cariri tem promovido o Festival Nacional de Dança, a Semana de Dança do Cariri, além de seminários teóricos, residências artísticas e outros eventos. Desde a sua fundação, tem ganhado prêmios e movimentado as artes cênicas na região. “A gente já caminhou bastante, mas ainda falta muito”, Alysson avalia. Para o coreógrafo, é necessário reformar os teatros sucateados da região e construir outros, capazes de atender o fluxo de grupos e de espetáculos que não param de surgir. “Atualmente temos festivais de artes cênicas em março, de dança em abril, a Mostra Sesc em novembro. Poderíamos também começar a pensar em fomento de circulação de obras nacionais e regionais durante o ano todo, mas é preciso estrutura”, comenta.

“Seria ótimo fazer uma turnê em Nova York e Tóquio, mas eu também adoraria apresentar meu trabalho em Caririaçu e Farias Brito”, ele diz, sugerindo diminuir a fronteira entre as cidades e promover o diálogo entre artistas, público e secretarias de cultura dos municípios caririenses. Professor de Artes Cênicas da URCA desde 2009, Alysson comemora a diplomação de 23 alunos do curso e sonha com o mestrado em Artes e a graduação em Dança na região. “Mesmo com pouca estrutura, nós conseguimos muito”, ele diz, “o Cariri ainda vai ser um lugar muito importante das artes. Não tenho dúvida de que vamos ganhar o mundo daqui a pouco tempo, porque os artistas locais são muito bons”. Só é uma pena que esses avanços venham mais dos artista e pouco do setor público”, completa.

Em 2007, na estreia de Quis, primeiro espetáculo da Alysson Amâncio Cia de Dança, ouviam-se vaias e berros de pessoas na plateia hostilizando os bailarinos que usavam calça apertada. Em 2014, na abertura da Semana de Dança do Cariri, a Cia Dita, de Fortaleza, apresentou Corpornô, onde os dançarinos incitam a plateia com cenas de sexo. Sobre a experiência, Alysson conta: “Eu vi um teatro lotado, com uma plateia educada e silenciosa, assistindo a uma obra provocadora e conceitual”. Ao fim de Karimai, espetáculo do grupo lançado em setembro e que homenageia o artista plástico Luiz Karimai, ouviam-se soluços de um público emocionado. Sobre a necessidade de continuar investindo na formação de plateias, artistas e obras no Cariri, Alysson comenta: “As pessoas não fazem Teatro porque não passaram em Engenharia. Elas fazem Teatro, Dança ou Circo porque gostam, porque também são profissões e porque a arte é importante para o ser humano”.

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