Arte e Cultura

CARIRI Natureza: Tesouros e Segredos da Chapada

A Coluna CARIRI Natureza foi publicada em algumas edições da nossa revista impressa. Hoje relembramos um texto especial sobre as belezas naturais da região publicado na primeira edição da CARIRI Revista.
Por Redação Cariri • 14 de outubro de 2019
Por Raquel Paris.

Com mais de 300 fontes de água perene em meio a uma rica e variada vegetação, a Chapada do Araripe acolhe uma Floresta Nacional, uma Área de Proteção Ambiental e um Geopark. Sua beleza, porém, não está aí apenas para o deslumbre de moradores do Cariri e ecoturistas brasileiros. A Chapada abriga tesouros capazes de melhorar a vida das comunidades mais carentes.

De longe, o sertão nordestino parece uma coisa só. Seco, inóspito, rústico. A imensa faixa de semiárido dá a impressão, para os mais apressados, de que o Nordeste, à exceção do litoral, é um imenso e monótono deserto, com uma vegetação retorcida e animais à míngua. Parece.

Um erro comum associado à imagem do Nordeste e de seu povo. Não é de hoje que se retrata o nordestino como um eterno retirante, sempre pronto a abandonar a terra seca e degradada em busca de oportunidades. Um homem nômade, mudando de região para região à medida que a seca avança.

Tal imagem, alimentada durante décadas de história, gerou uma quadro imutável na cabeça de muitos: um Nordeste sem água, sem terras férteis, sem vegetação úmida. Nesse processo de criação de discursos e mitos que caricaturam a região, a despersonalização do nordestino é um caminho lógico. “Retirante” e “Paraíba” são as denominações frequentes que uniformizam milhões de homens e mulheres, tão diversos quanto a região que habitam.

Uma surpresa para os olhos

Para espanto de alguns e maravilhamento de muitos, incrustado em meio à caatinga há um ecossistema surpreendente, tão rico quanto pouco estudado (texto publicado em 05 de maio de 2011). Para todo canto que se olhe, lá está ela: a Chapada do Araripe ergue-se orgulhosa e imemorial sobre o Vale do Cariri. Presença quase humana que todo caririense aprende a amar e a respeitar. Um paredão que se estende por mais de 10.000 km2 e abarca os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí.

Chapada do Araripe, Oásis do Cariri. Foto: Rafael Villarouca.

Chamada de FLONA, a Floresta Nacional do Araripe tornou-se, em 1946, a primeira Floresta Nacional do Brasil. Cinco décadas depois, em 1997, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) do Araripe, e em 2006, delimitado o Geopark do Araripe, que se estende por seis municípios do Cariri (Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri), com nove geossítios de valor histórico, geológico e paleontológico. A extensão é de aproximadamente 3.520 Km².

Com enorme potencial paisagístico, ambiental e turístico, a área oferece trilhas ecológicas e uma vegetação diversificada de florestas úmidas, cerrados e florestas secas, além de animais de grande porte, como a onça pintada, e de pequeno porte, como o soldadinho do Araripe, pássaro símbolo da região.

Beleza ameaçada, história antiga

Formada há mais de 130 milhões de anos, a Chapada do Araripe é constituída basicamente por rochas sedimentares. Trata-se de um dos principais sítios paleontológicos do planeta, com fósseis de diversas espécies, a exemplo do pterossauros (réptil voador do período Mesozóico) e de pelo menos dois dinossauros, o Santanaraptor e o Irritator, encontrados na região.

A bacia sedimentar favorece também o aparecimento de fontes perenes por todo o Vale do Cariri. O epíteto “oásis do sertão” não é à toa. São mais de 300 fontes de água que jorram dos canais fluviais que irrigam todo o Vale. Nesta área, o clima ameno se evidencia devido à vasta floresta que recobre a Chapada. São 39.262,326 hectares de floresta, onde vivem muitas espécies de mamíferos, 23 espécies de anfíbios e 59 espécies de répteis – entre estes há espécies raras como o lagarto Stenocercus squarrosus, com apenas um espécime encontrado, e a serpente Atractus ronnie. Já as aves aparecem em um número ainda maior. São 280 espécies, sendo que destas, 14 estão ameaçadas de extinção.

Ciência e raridade na floresta

Há tesouros escondidos na Chapada que os nossos olhos não captam. Uma descoberta feita pelo professor e pesquisador Waltécio Almeida, da Universidade Regional do Cariri (URCA), promete contribuir com as pesquisas em torno da evolução das espécies. Encontrado apenas na Chapada do Araripe, a espécie de onychophora epiperipatus cratensis, pertence a um grupo intermediário entre anelídeos e artrópodes.

Conhecido popularmente como onicóforo, é um animal raro que já foi considerado o “elo perdido” entre os anelídeos (minhocas e sanguessugas) e os artrópodes (insetos, aranhas e crustáceos), por possuir características comuns aos dois grupos. Para os leigos, a aparência é de uma minhoca com antenas e patas carnosas.

Os onicóforos podem ser os animais mais antigos ainda vivos no planeta, pois seu aparecimento data de 500 milhões de anos atrás. São muito mais antigos que os dinossauros, que teriam aparecido há 150 milhões e 200 milhões de anos. Neste tempo todo, eles sobreviveram às mudanças climáticas e geográficas da Terra, perdendo pouca ou nenhuma característica original. Por isso, são considerados fósseis vivos e chamam a atenção de toda a comunidade científica.

No mundo inteiro são conhecidos 50 gêneros e 150 espécies, que vivem na Oceania, África, Ásia, e Américas Central e do Sul. Estes animais ajudam a comprovar a teoria do Pangea, segundo a qual o planeta seria uma única porção de terra, que se dividiu e formou os atuais continentes. Outra evidência apontada por alguns cientistas é a da evolução das espécies, já que os onicóforos possuem características de dois tipos de animais.

Sabedoria Popular Comprovada

Essa é apenas uma das descobertas dos pesquisado- res que compõem o Programa de Pós-Graduação em Bioprospecção Molecular da Universidade Regional do Cariri – URCA. Liderado pelos professores Waltécio Almeida, Galberto Martins e Irwin Menezes, o labora- tório pretende compreender a biodiversidade do semiárido nordestino e reconhecer aspectos importantes da biodiversidade regional, inclusive caracterizando, planejando e modificando moléculas bioativas com potenciais sócio-econômicos.

Foto: Rafael Villarouca.

Trata-se, portanto, de um projeto que ultrapassa a fronteira institucional e se apresenta como um fator de interesse regional, suprindo as necessidades de pesquisa de alto nível e a formação de recursos humanos. No centro das atenções estão plantas e animais de reconhecida utilidade na medicina popular, que agora ganham respaldo científico através de um conjunto de pesquisas que buscam a certificação dos produtos obtidos. Exemplo disso é o óleo extraído da gordura do lagarto Tupinambis Merianae, popularmente chamado de teiú. Muito encontrado na Chapada do Araripe, a gordura do teiú é usado na medicina popular para a cura de reumatismo, problemas de pele, doenças respiratórias e inflamações.

Recentemente, pesquisas feitas no laboratório pelo prof. Irwin Menezes comprovaram que o óleo retirado da gordura do lagarto reduz, de fato, a produção da atividade inflamatória no organismo. O estudo foi publicado na principal revista de etnofarmacologia do mundo, Journal of Ethnopharmacollogy, e deixa clara a importância do conhecimento científico andar de mãos dadas com o saber popular.

Segundo o prof. Galberto Martins, esse conheci- mento é um dos pilares para a conservação e compre- ensão da Chapada. Além disso, através das pesquisas desenvolvidas no laboratório, o conhecimento do povo pode ser confirmado, produzindo extratos de importância econômica para as comunidades.

“A Chapada do Araripe não é apenas um jardim para nosso deslumbramento. Ela é uma fonte inesgotável de pesquisas científicas sérias, que engrandecem, conservam e melhoram a vida de sua população”, finaliza Waltécio Almeida.

Preservar é preciso

Há um milhão de anos atrás, uma floresta úmida que ia do Amazonas ao Rio Grande do Norte, formava um imenso corredor ecológico por toda região Norte e Nordeste do país. Com as mudanças climáticas ocorridas no planeta, essa vegetação se retraiu. Da imensa floresta sobraram pequenos nichos isolados. Um deles é a Floresta Nacional do Araripe. Lutando contra o processo alarmante de desmatamento, a FLONA instiga nos cidadãos o desafio de pôr em prática um desenvolvimento capaz de conciliar crescimento sócio-econômico à conservação dos recursos naturais. Temido por alguns e sonhado por muitos, o desenvolvimento sustentável é a única alternativa viável para as próximas gerações.

S.O.S Soldadinho

O soldadinho do Araripe, ave símbolo da região, é um exemplo de como a depredação da floresta chegou a um nível crítico. Ele foi descoberto em 1996 pelo então estudante de biologia Weber Girão, numa expedição à Chapada do Araripe em companhia do professor Galileu Coelho, da Universidade Federal de Pernambuco. O soldadinho do Araripe já figura na lista de aves em extinção, com uma população estimada em 50 a 250 indivíduos. Localizado apenas nos municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha, seu habitat é restrito a 28 km2 nas encostas da Chapada do Araripe. “Lá há uma ressurgência das águas absorvidas pelo platô da Chapada, o que propicia o aparecimento de uma mata bem úmida, com árvores altas, bem diferente da caatinga e do cerrado”, explica Thieres Pinto, biólogo do Aquasis, entidade sem fins lucrativos que congrega pesquisadores em torno da questão ambiental.

Foto: O paredão do geossítio Santa Fé servia de abrigo às civilizações primitivas. Foto: Geopark Araripe.

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