Crônicas

CALENDÁRIO

Por Filipe Pinho • 9 de maio de 2019

O ideal mesmo seriam duas crônicas por semana. No mínimo, uma. Não estou reclamando, amada CARIRI Revista, apenas fazendo uma constatação: É tanta coisa importante acontecendo o tempo todo; e sobre os mais variados temas, claro. Fica impossível escolher um assunto.

No dia cinco de abril, me pus a escrever sobre a comemoração, pelo governo federal, à Ditadura Militar. Joguei os crimes militares no ventilador! Sequestro, tortura, mortes civis fora do contexto subversivo alegado pelos milicos (como referência, “Ronda 66: A História da Polícia que Mata”, de Caco Barcelos). Escrevi uma crônica linda; ESCULHAMBANDO o presidente do Brasil, claro! Vocês teriam adorado: Fatos e xingamentos sofisticados.

Mas aí…

Pois é, aí o Bolsonaro começou a estudar (o que já daria uma crônica bem hilária… Conseguem imaginar o Presidente Bolsonaro estudando? Hahaha… Nunca nem viu!). E ele estudava a usurpação de investimentos das faculdades “de humanas”. Minhas amigas, espumei de raiva. Rasguei a crônica da ditadura e me lasquei a escrever sobre filosofia. Fui láaaaa em Tales de Mileto, passei por Sócrates, apertei a mão de Sêneca, Santo Agostinho, “Penso, logo existo”, Niezstche, Foucault, Viviane Mosé… PEEEEEENSEM numa crônica bem escrita. Chega me estranhei.

Mas aí…

Pois é, aí o Bolsonaro cancelou a viagem à Nova Iorque; e eu fiquei feliz demais! Pra quem não sabe, inventaram um prêmio de “pessoa do ano” ao presidente brasileiro (o que já daria uma crônica engraçadíssima… Já imaginaram o presidente Bolsonaro sendo “a pessoa do ano” em algum lugar deste mundo? Hahaha… Nunca ninguém verá!). E o stuff doido atrás de lugar pra entregar o prêmio e só as portas batendo, patrocinadores rescindindo contrato… Menino, olhe, foi uma lindeza. Pois eu fiz uma crônica sobre o empoderamento das pessoas no mundo, a autonomia humana, a derrocada da extrema direita e o progresso mundial. FICOU UMA COISA LINDA!! Tinha me superado.

Mas aí…

Pois é, aí veio o corte nas verbas das Universidades Públicas por conta de BAUBÚRDIA. Menina, se eu não tomasse remédio controlado… Pense numa raiva de cair o cu! No mesmo dia, me reuni com a Nerice Pinheiro – pedagoga, psicopedagoga, mestre em Educação Brasileira e especialista em “paranauês da vida” –  e elaboramos o que acredito ser, modéstia parte, a crônica mais bem escrita da história da literatura. Juntei técnica, drama, suspense, pausas dramáticas. Quando finalizei o texto, que pinguei o ponto final, olhei pro céu e uma estrela, em código morse, brilhou linda a me dizer: “Bicha, tu arrasou! PAS-SA-DA com o que tu escreveu!”

E eu estava pronto pra entregar a crônica do mês de maio.

Mas aí…

Pois é, aí ontem à noite o Bolsonaro, em entrevista à Luciana Gimenez, falou que o racismo no Brasil é coisa rara e que “enche o saco” essa história de ficar jogando negro contra o branco. A apresentadora não contou pipoca e arrematou “É, essa não cola mais!”.

E aí…

E aí que tá IMPOSSÍVEL escolher um assunto pra escrever.

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Essa é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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Filipe Pinho

Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.