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Cabernet Sauvignon

Por Filipe Pinho • 14 de fevereiro de 2019

Já fui ajudante de coroinha. Coroinha é o ajudante do padre. Ajudante do coroinha, portanto, é o ajudante do ajudante. Pode parecer uma função estranha, mas fazer parte da igreja do bairro era símbolo de status.

Pois bem, meu serviço seria muito simples se não fosse a arrogância do meu superior imediato: O Xavier. Xavier era o coroinha titular e gostava do poder.  Mandava que eu limpasse o cálice e colocasse o vinho. Cálice cheio, tomava de minhas mãos e desfilava pelo altar, até entregá-lo às mãos do Sr. Padre. Me incumbia de carregar a Bíblia pesada, encontrar o trecho escolhido pelo padre e ele, o ajudante ditador, lia na frente de todo mundo.

Pra sedimentar a hierarquia e submissão, Xavier sentava numa cadeira de madeira em cima do altar, enquanto eu ficava em pé escondido atrás de uma pilastra (ao alcance dos olhos de Xavier e de suas ordens).

Num sábado à tarde, papai chegou eufórico. Xavier faltaria à missa do outro dia: “É a sua vez de brilhar, meu filho”. Enquanto eu jogava videogame, meus pais confabulavam. No fim do dia, me chamaram para uma conversa: “Filipe, o seguinte é esse: o Xavier falha onde não falharemos. Ele usa um vinho barato”. Ah, tinha também esse detalhe. Na igreja do meu bairro era o coroinha que providenciava o vinho, requisito para o cargo, inclusive.

E chegou a hora do show. Apareci à missa com a roupa branquíssima e um Cabernet Sauvignon debaixo do braço. Meu pai até quis comprar uns queijos pra acompanhar, mas mamãe impôs a voz da coerência:

— Tira-gostos, Ranieri? Sério??
— Eu só tomo vinho com queijo.
— E o padre vai falar “corpo de Cristo” e jogar um queijo na boca?
— Calma, foi só uma ideia.

E, sozinho, fui impecável!! Segui com primazia todo o protocolo ecumênico. Ao fim, como sugerido por meus pais, servi ao padre uma dose generosa do vinho seco. Não deu outra: na terça-feira, recebemos uma ligação da secretaria da paróquia. Fui promovido.

Nos domingos seguintes, um Xavier desconfiado tomou lugar atrás da famigerada pilastra. Mamãe, em uma primeira grande lição de humildade, sugeriu que eu tratasse o meu subordinado de maneira diferente a que fora tratado. E assim o fiz. Meu reinado foi de paz e respeito ao meu súdito.

Passados alguns meses, saímos de férias e fomos a uma viagem familiar. O Cabernet e meu talento nato pra coroinha nos tranquilizavam. Retornamos num domingo de manhã, exatamente para a missa. Enquanto papai me arrumava, mamãe foi comprar o vinho. E partimos.

De longe avistei Xavier na cadeira de titular. Como todos na rua sabiam do nosso regresso, não seria diferente para o menino, sendo as costas da pilastra o seu lugar de trabalho.

Com a lotação da igreja, meus pais ficaram na última fileira, e lá fui, comedidamente, cumprir meu dever divino.

Caminhei desconfiado, pois desde minha entrada na igreja notei o olhar de Xavier travado em mim, sem que se mexesse da cadeira. Há poucos metros do meu suposto suplente, percebi, aos pés da cadeira, a mesma garrafa de vinho a que eu tinha em meus braços. O sabido tinha empatado o jogo! Mas minha desenvoltura no cargo seria caráter de desempate. Fui chegando mais perto e o semblante de Xavier alargava-se.

A dois passos de subir as escadas do altar e restabelecer minha cadeira, notei um volume que se destacava no colo do menino. Ao perceber do que se tratava, nem pisei no degrau. Dei meia volta e já fui tirando a bata. A passos largos e claramente enraivecido, me dirigia à saída. Meus pais deram um pulo na tentativa de me impedir, mas logo me acompanharam quando souberam a notícia:

— Ele trouxe uma bandejinha de queijos.

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Filipe Pinho

Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.