Arte e Cultura

Arquiteta Brenda Rolim visita suas raízes em busca de inspiração

A arquiteta Brenda Rolim, responsável pela ambientação da sala de estar da CASACOR Ceará 2019, visitou o Cariri na última semana. Em entrevista exclusiva para a CARIRI Revista, a arquiteta contou um pouco de sua história na arquitetura e importância de se reencontrar com suas raízes para o desenvolvimento dos novos projetos.
Por Márcio Silvestre • 20 de agosto de 2019

Investir em regionalismo, valorização das raízes, sustentabilidade e conforto tem sido o caminho trilhado pela arquiteta Brenda Rolim. Inspirada pelas obras de Antoni Gaudí, símbolo do modernismo catalão, a jovem arquiteta procura imprimir em seu trabalho a identidade regional, respeitando a cultura e o clima do lugar. Neste ano, Brenda participará da 21ª edição da CASACOR Ceará, que acontece de 12 de setembro a 22 de outubro, em Fortaleza. No evento, ela está responsável pela ambientação da sala de estar.

“A vontade de ser arquiteta aconteceu de maneira bem orgânica na minha vida. Gosto de desenhar plantas desde pequena. Criança geralmente cria um mundo. Quando brincava na infância juntava as cadeiras, produzia pequenas edificações com o mobiliário da minha mãe, amarrava lençóis para a gente fazer tendas. Na minha vida, sempre esteve presente o interesse por desenho, plantas, ambientações. Como uma vocação natural”.

Formada em Arquitetura pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Brenda destaca que o diferencial em seu percurso, que impactou positivamente na sua carreira, foi a natureza curiosa que a tirou da zona de conforto, a fez viajar, conhecer novos lugares e culturas. Encontrar com o outro e descobrir a si mesma. “A UFC é uma faculdade de cunho mais teórico que te ensina muito mais a pensar do que a executar.  Para mim o importante é entender o ser humano para saber o que eu vou projetar para ele. Sempre faço o paralelo: filosofia, arte e arquitetura. Você não deve entender arquitetura apenas do ponto de vista mercadológico, você precisa entender filosoficamente e tecnicamente o que o arquiteto tem que fazer”, destaca.

Arquitetura como ferramenta social

Para além da construção e materialidade da obra, o arquiteto é o mediador entre a idealização e a concretização de um projeto. De acordo com Brenda, muitos arquitetos foram tragados pelo mercado e perderam o encanto da profissão, seu senso crítico e criativo, tornando a arquitetura um status de luxo e segregação. “Sempre tive essa preocupação. Eu faço vários projetos comerciais e residenciais, mas sempre tento pôr um olhar especial, educar de certa maneira o meu cliente, explicando o porquê das coisas. Procuro ser muito embasada, nada é porque sim ou porque não, ou somente por estar na moda”, destaca.

Encontrando referências e resgatando suas raízes

Ler, viajar, trocar experiências são formas de ampliar o repertório e resgatar memórias. Após concluir sua graduação, Brenda conheceu Barcelona, e viu na obra de Gaudi, um mordenismo que resgata a identidade regional. Tal reflexão a fez mergulhar em suas raízes, na infância quando visitava o interior. “Tudo o que nós somos é um repertorio do que a gente vive. Eu vivi a minha infância nos dois interiores, o do meu pai no Sertão Central, e o da minha mãe no Cariri. Apesar da gente está no mesmo estado temos muita diversidade. O Cariri é uma terra muito fértil culturalmente, uma terra com muita religiosidade então, quando eu começo a me entender melhor como arquiteta, e tentar entender a cultura para fazer os projetos mais condizentes. Cada vez mais eu vou atrás das minhas raízes”.

Em Barcelona, a arquiteta percebeu que o modernismo regionalista de Galdi, respeita e enaltece a cultura dele e suas referências. Nos lugares onde foi, os restaurantes, as lojas as casas que são embasadas pela funcionalidade e praticidade.

“Por serem uma civilização mais antiga, que passou por várias guerras e crises econômicas. Eles têm uma maneira de viver diferente da nossa. Em Barcelona às três horas da tarde tem a ‘siesta’, tudo fecha e as pessoas vão descansar e curtir suas famílias. É o movimento do autocuidado, que é você dar tempo a você, não dar mais importância ao dinheiro. Quanto vale você almoçar com sua família? Por sermos subdesenvolvidos, mais pobres, a gente ainda é muito impressionado com o dinheiro”.

Sustentabilidade e Arquitetura

Pensar em espaços funcionais para evitar o desperdício de material é um dos principais desafios da arquitetura moderna. Nem sempre é possível optar por uma estrutura 100% sustentável, mas Brenda orienta como se evitar o desperdício nas pequenas coisas, como por exemplo na projeção de móveis e escolha de ornamentação.

“Eu não sei até que ponto vale a pena você ter uma estante com vasos comprados no mesmo dia numa loja, e entupir uma estante com coisas que não significam nada. Eu luto muito contra isso. Tento conversar com os clientes para entender o que importa ou tenha significado mais visível. A nossa casa tem que contar a nossa história. A gente tem que entrar em casa e ter memórias boas. Essa sensação de pertencimento, depende dessas memórias que colocamos nos objetos, nas cores, no jeito de morar. O projeto tem que te dar a liberdade de ser mutável, para que daqui há quatro anos, se quiser mudar, não precise destruir tudo. Transformar tudo em lixo e trazer mais coisa para o mundo. Sustentável ninguém consegue ser, mas se você tiver um pouco mais de consciência no consumo, você gera menos lixo”, conscientiza a arquiteta.

Sala de estar da CASACOR 2019: redefinição do luxo e enaltecimento do regionalismo

A exposição acontece na Mansão da Família J Macedo, Rua Visconde de Mauá, no bairro Meireles, em Fortaleza. Esse ano, Brenda Rolim traz uma reflexão sobre o morar “livres para mudar a casa hoje tem que ser um ambiente de liberdade”. Nesta perspectiva, ela cria um ambiente que acompanhe as mudanças, sem desperdiçar móveis e objetos.

Os visitantes que forem contemplar a exposição encontrarão muitas referências do Cariri na sala de estar. “Colocarei elementos regionais para que o visitante da CASACOR, chegue no meu ambiente e perceba algumas coisas, que ele já viu em algum lugar. Eu estou redefinindo o que é luxo. Para mim, o luxo não é mais essas quinquilharias importadas e inacessíveis, para mim o luxo é se sentir bem, eu quero que o meu visitante se sinta bem, se sinta acolhido e se identifique. Como gerar essa identificação? Tendo elementos da nossa cultura. Eu vim ao Cariri para encontrar essas coisas, que eu posso usá-las de maneira sofisticada e ao mesmo tempo simples. Criando uma ambientação aconchegante, e que as pessoas não entrem na sala pensando ‘É lindo, mas é algo que eu nunca teria’.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".