Arte e Cultura

Bete Pacheco e a arte de contar histórias

Convidada para participar do projeto Banquete de Histórias do Sesc, em 2007, a pedagoga Bete Pacheco não imaginava que a narração de histórias se tornaria uma profissão, que a aproximaria ainda mais das pessoas, tocando-lhes a mente e o coração. A CARIRI Revista conversou com a narradora, que abriu seu caçuá de histórias e relembrou os momentos mais marcantes que esta a arte lhe proporcionou.
Por Márcio Silvestre • 16 de maio de 2019

“Contar histórias sempre foi algo muito presente na minha casa, na minha família… meus pais tinham esse hábito. Mas o que me chamavam mais atenção eram as histórias contadas por Dona de Jesus, uma senhora negra, alta, muito bonita, que usava uns vestidos lindos e imensos. Quando ela chegava sentava-se em baixo de uma mangueira e começava a contar histórias. Todas as narrativas dela tinham um cunho popular. ‘Esse homem que virava lobisomem era vizinho da gente’. Tinha tanta verdade no que ela contava que nos convencia”, relembra.

Como uma exímia contadora de histórias, Bete Pacheco gesticula de forma ampla e entoa variadas entonações, durante nossa conversa. A verdade que Dona de Jesus emprestava às suas histórias inspirou-a na construção do seu narrador, um personagem que bebe nas fontes da cultura popular do Cariri e que acredita nas histórias de botija, lobisomem, almas vaqueiras e encantamentos. “Não tinha como eu sair deste universo da cultura popular com os cantos que tanto me encantaram na minha infância e que reverberaram na minha vida enquanto profissional da educação e posteriormente como narradora”, destaca.

“O papel da contação é unir as pessoas”

Com repertório extenso e variado, Bete encanta todas as gerações. “Primeira história que fiz narração foi Couro de Piolho, do Câmara Cascudo. Daí não parei mais, mergulhei nas lendas dos índios Cariris, me apaixonei pelas narrativas da cultura popular, histórias de capeta, de trancoso e lendas urbanas, como o famoso Vicente Fininho [lobisomem que assombrava o Crato]”.

Bete Pacheco contando histórias em escola. Foto: Hélio Filho.

No caso de Bete o ofício virou paixão. É comum encontra-la nas programações culturais da região contando histórias. As praças, teatros, escolas, lugares comuns da cidade se transformam em infinitos cenários através da imaginação. Muitas dessas narrativas fazem parte da cultura popular, ouvidas na infância e por amor repassadas para outras pessoas.

“Na escola a gente didatiza, contando histórias para incentivar a leitura. Mas as crianças têm interesse em ouvir. Quando eu faço a reflexão: por que eu conto histórias? É para criar laços entre as pessoas. Para que a gente possa, mesmo sendo diferentes uns dos outros, sonhar com a história que o narrador proporciona. As imagens que ele vai nos ajudar a formar são únicas em cada ouvinte, mas no momento que escutamos as histórias estamos num círculo juntos, a gente está criando laços”.

Mostra Nacional de Contadores de Histórias nas Terras do Cariri

Com o propósito de difundir e divulgar as manifestações artísticas da contação de histórias, Bete Pacheco idealizou a Mostra Nacional de Contadores de Histórias nas Terras do Cariri, em 2014. O evento promove o intercâmbio entre os contadores, democratizando a leitura e compartilhamento de histórias.

De acordo com Bete, o papel da contação é unir as pessoas. Foto: Márcio Silvestre.

“Para mim contar histórias é poder criar pontes entre as pessoas. Unir as pessoas é esse o papel da contação de histórias. A Mostra de Narradores é algo grande para a gente fazer sem recursos, mas quando eu vejo essas ligações, conexões, encontros proporcionados, abre uma outra perspectivas. O acesso democrático ao livro é uma das coisas mais lindas que acontecem na Mostra”, explica a Contadora.

Esse ano, Bete se tornou coordenadora da Escola de Narradores, uma formação intensiva de contadores de histórias, que está com matrículas abertas em Fortaleza e no Cariri, através do email: escoladenarradores@gmail.com.

Conheça mais sobre Bete Pacheco e trabalho realizado por essa grande narradora acessando o Mapa Cultural do Ceará. 

 

CATEGORIA:

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".