Reportagem

Autismo: uma expressividade singular

Em alusão ao dia mundial do autismo, celebrado em 02 de abril, a nossa coluna Retrospectiva de hoje traz a reportagem especial sobre o TEA, publicada em nosso portal em 2019.
Por Márcio Silvestre • 3 de abril de 2020

Sensibilidade, afeto e empatia são a chave para lidar com as diferenças. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 70 milhões de pessoas em todo o mundo são autistas.

A campanha abril azul, que acontece desde o dia mundial do autismo definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o dia 02 de abril, busca despertar a atenção para o autismo, orientar a comunidade e promover a inclusão de quem convive com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os sinais aparecem nos primeiros anos de vida e afetam questões comportamentais de comunicação e interação da criança com o espaço e as pessoas a sua volta. O diagnóstico precoce com estimulação e intervenção é fundamental para melhorar o desenvolvimento da criança com TEA.

Abril azul mês dedicado a conscientização do autismo. Na foto a Fonoaudióloga Silvia Lemos e a Terapeuta Ocupacional Elizangela Matos, que trabalham com crianças com TEA há sete anos.

No âmbito científico o espectro é uma representação de amplitudes ou intensidades. De acordo com a Terapeuta Ocupacional, Elizangela Matos, existem diferentes tipos de autismo. “ pela singularidade do autismo, você nunca vai encontrar dois autistas iguais. Por exemplo, elas podem apresentar seletividade alimentar, um dos sintomas, mas de maneiras diferentes. Temos pacientes irmãos que foram diagnosticados com TEA, mas são casos totalmente distintos”, afirma.

“Percebi que tinha algo diferente com meu filho no seu aniversário de 1 ano. Ele ficou alheio a festa, as brincadeiras, doces ou presentes. Nada chamava a sua atenção”, relembra a Analista de Sistemas, Beatryce Fernandes, mãe do pequeno Miguel. “Observávamos que ele tinha dificuldade na fala. Emitia barulhos indecifráveis, em vez de balbuciar e não tinha interesse em reproduzir pequenas sílabas”.

Com amor e respeito é possível tratar o autismo. Na foto Miguel com a mãe Beatryce Fernandes e o pai Hai-Lassiê Nunes.

De acordo com a Fonoaudióloga, Silvia Lemos, o atraso de linguagem é um das principais características do TEA. “Muitos pais que nos procuram se queixam de que o filho já tem mais de dois anos e ainda não está falando. Esse é o sinal que mais chama a atenção dos pais. Como eles não falam são crianças muito irritadas, tentam usar uma comunicação não verbal que às vezes é confundida com agressividade”, explica a médica.

Após a reação do Miguel em sua festa de aniversário, Beatryce começou a observar que o comportamento do filho era diferente do de outras crianças da sua idade. “Ele só se interessava por coisas que faziam parte do mundo dele. Por ter a dificuldade de encarar as pessoas ele passava muito tempo assistindo televisão ou em jogos. Com o passar do tempo os sintomas só se intensificavam o choro, irritabilidade, agressão e não apresentava interesse algum por aprender a falar. Quando procurei a pediatra fiz comparações entre o desenvolvimento do meu filho com o de outras crianças da mesma idade. Enquanto conversávamos, Miguel derrubava o consultório e gritava muito, foi difícil manter qualquer comunicação. Neste dia ela me encaminhou para um especialista, indicando que ele tinha autismo”.

Diagnóstico

Para os pais, receber o diagnóstico é muito difícil. Geralmente por desconhecerem o que realmente é o autismo, pela preocupação com julgamentos ou preconceitos que seus filhos possam enfrentar. Emocionada a Produtora cultural, Claudinália Almeida, relembra o momento em que um médico diagnosticou o seu filho, Ian, quando ele tinha 2 anos e oito meses. “O médico acabou comigo. Fiquei muito mal pela forma como ele falou, frisando as dificuldades que eu enfrentaria, que todas as terapias eram particulares e muito caras, que nenhum plano de saúde cobriria as despesas e que o Ian precisaria fazer terapia para o resto da vida”.

Interação e expressividade: Desde pequeno, Ian Chaves acompanha os pais em trabalhos com grupos culturais e artistas da região.  Foto: Kennedy Araújo.

Apesar da sentença pessimista, Claudinália conseguiu forças para garantir o tratamento do filho que passou por muitas sessões de terapia. Hoje Ian é acompanhado pelo pai, o Arteterapeuta, Franze Chaves (Barrinha), que também é Filósofo Clínico (UECE) e Doutor em Educação pela UFC. “Recomendo para os pais de crianças com autismo, que sejam percorridos os caminhos da sensibilidade, do afeto e da percepção compartilhada. As pessoas que têm autismo são muito perceptivas; inclusive, bem mais perceptivas que as pessoas neurotípicas. No entanto, elas necessitam que as suas percepções sejam adequadas às situações sociais que as circundam. Isso porque o mundo é algo normativo, com normas prontas que estão à disposição das pessoas neurotípicas, aquelas que chamamos de ‘normais’, pois, elas vivem entre normas. Normas essas que nem sempre fazem parte do mundo das pessoas que têm autismo”, afirma.

Entendendo o autismo

Com a publicação da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), em 2013, as subclasses que existiam anteriormente – síndrome de Asperger, síndrome de Rett, autismo típico e autismo atípico – foram fundidas dentro da classificação de Transtorno do Espectro Autista. Atualmente ele é dividido em três graus: leve, moderado e grave, de acordo com a intensidade dos sintomas.

 

Especialistas no tratamento do autismo, a Fonoaudióloga Silvia Lemos e a Terapeuta Ocupacional Elizangela Matos, fazem parte da equipe multidisciplinar da Clínica Integrar, no Edifício Office Cariri.

As pessoas com TEA sentem o mundo de uma maneira diferente das pessoas neurotípicas. É o que se chama de atipicidade sensorial. Segundo a Terapeuta Ocupacional, Elizangela Matos, é importante para o desenvolvimento da criança com TEA, o acompanhamento com profissionais certificados e especializados pela Associação Brasileira de Integração Sensorial (ABIS).

Veja o vídeo sobre o que é autismo publicado em “Um canal sobre autismo – Chimura”, do jovem youtuber Willian Chimura, que tem o TEA e começou a gravar vídeos falando sobre como ele percebe o mundo a sua volta e outras singularidades do autismo. 

Sinais e sintomas

– Bebês que evitam o contato visual com a mãe, inclusive durante a amamentação.
– Choro ininterrupto.
– Apatia.
– Inquietação exacerbada.
– Pouca vontade para falar.
– Surdez aparente: a criança não atende aos chamados.
– Transtorno de linguagem, com repetição de palavras que ouve.
– Movimentos pendulares e repetitivos de tronco, mãos e cabeça.
– Ansiedade.
– Agressividade.
– Resistência a mudanças na rotina: recusa provar alimentos ou aceitar um novo brinquedo, por exemplo.
Fatores de risco
– Sexo masculino: o autismo é de duas a quatro vezes mais frequente em meninos do que em meninas.
– Predisposição genética.
– Poluição.
– Infecções como rubéola durante a gravidez.

Exercício cognitivo que estimula a linguagem (Foto: Márcio Silvestre)

Não há cura para o autismo. Mas com o tratamento precoce e multidisciplinar, englobando médicos, fonoaudiólogos, físioterapeutas, psicólogos e pedagogos, a criança pode ter melhora nos sinais do autismo. De acordo com a Pedagoga, Karine Feitosa, que foi a primeira professora do Miguel, O tratamento está associado a forma com que se dirigi e se relaciona com a criança. “O estímulo de se olhar nos olhos da criança enquanto conversa com ela, é importante para o seu desenvolvimento. Buscar compreende-los é fundamental. O mundo do autismo é muito singular”, destaca.

Primeira professora do Miguel, Karine Feitosa, mantém os laços de amizade com a criança que lhe despertou a atenção como pedagoga e pesquisadora para a educação inclusiva e arteterapia voltada à crianças com autismo.

 

 

 

CATEGORIA:

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".