Arte e Cultura

As Madrinhas da Farmácia e do povo de Santana

Por Redação Cariri • 3 de junho de 2019

Por Renata Linard.

Quando se fala em Santana do Cariri para quem é de fora do município, o que vem à mente é o Museu de Paleontologia e o Pontal da Santa Cruz. Mas, para quem é de lá, a memória afetiva remete imediatamente aos balcões de madeira da farmácia conduzida pelas figuras amáveis das “Madrinhas”.

O relógio laranja gigante com o nome “Cebion” dava um ar feliz ao estabelecimento, que era seguramente complementado pelas vozes doces das queridas Madrinhas da Farmácia. Duas mulheres de baixa estatura, de pele branca e cabelos pretos. Maria Eudilce e Maria Eurenice (in memorian) acolhiam crianças, jovens, adultos e idosos com muito zelo e carinho.

A história da Farmácia começou em 1940, quando a cidade era muito menor do que é hoje. A família “das madrinhas” morava na cidade de Mauriti e Seu Ulisses Coelho, pai delas, foi comunicado por um amigo de que em Santana do Cariri havia uma farmácia à venda. O patriarca da família não pensou duas vezes e comprou o estabelecimento, que pertencia a Joaquim Ferreira Lima, conhecido como Seu Quinco. No início, a farmácia se chamava “Sul Cearense” e funcionava como um ponto de socorro farmacêutico.

Maria Eudilce explica que, como em Santana não havia nenhuma outra farmácia, o registro de socorro farmacêutico era o suficiente para que eles prestassem o serviço de saúde na Sul Cearense de forma regulamentada. Seu Ulisses tinha receio em permitir que as filhas participassem da gestão, mas acabou cedendo e ensinando-as alguns serviços, como a aplicação de injeção. “Papai não achava bom, mas eu gostava de ver eles ensinando remédios. Eu fui despertando e fui aprendendo como era que ele fazia. Ele resolveu me ensinar a aplicar injeção, né? Eu era tão pequena, que às vezes eu me trepava nos bancos da farmácia para aplicar injeção, quando o homem era alto”, conta.

DE SUL CEARENSE PARA FARMÁCIA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Com apenas sete anos que havia investido no estabelecimento, Seu Ulisses faleceu, em 1947. Com o ocorrido, quem assumiu a direção foi a mãe das meninas, Rosa Siqueira Coelho. Agora, a Sul Cearense passava a ser Farmácia Nossa Senhora de Fátima.

Em 1951, quando fez 19 anos, Maria Eudilce foi à capital Fortaleza fazer o curso de Oficial de Farmácia. Com o passar do tempo, só o registro de socorro farmacêutico não foi mais suficiente para o funcionamento do estabelecimento. Um rapaz do distrito de Brejo Grande, chamado Zequinha, colocou uma farmácia no município também, o que obrigava a mudança no registro.

A Farmácia Nossa Senhora de Fátima era referência, pois não havia hospital, médico nem enfermeiro na cidade. “Mamãe uma vez fez foi uma operação. Não tinha carro para o povo ir para o Crato não. Tinham só dois caminhões nas segundas-feiras. Tinha que ser por aqui: ou morrer ou viver, tinha que ser por nossas mãos mesmo. Antônio de Dino chegou aqui e subiu os degraus com o intestino na mão. As tripas tudo soltas na mão dele [risos]. Aí ele disse: ‘me acuda, que eu tô morrendo’. Ele era seresteiro, bebia uns porres, cantava bem… No meio dessas serestas, o esfaquearam. Mamãe disse: ‘vá pra casa, Antônio, que eu vou ver o que eu faço com você. Mas não dá pra fazer aqui na Farmácia não’. Quando o povo chegava muito mal assim, deitava no chão, como se fosse um pronto-socorro mesmo. Ele disse que chegou lá, deitou e esperou. Aí mamãe foi, pegou uma tesourinha que a gente tinha aqui para curativo, ferveu e botou uma agulha de costurar saco. Lavou primeiro com sabão, desinfetou e depois ferveu tudo. Nesse tempo, não tinha luva não, era com as mãos mesmo. Só tinha luva no hospital do Crato, que eles pediam de Fortaleza. Era um sacrifício. Mamãe desinfetou bem as mãos, aí lavou o intestino com soro fisiológico e começou a botar o intestino para dentro acompanhando as voltas. Quando foi botar as banhas, não coube. [risos] Ela pelejou, aí ela olhou: as banhas não tinham veias nem nada, aí ela cortou as banha e foi costurar. A anestesia que tinha eram uns tubinhos que se chamavam Kélène. Esses tubinhos eram entorpecentes, mas deixavam os tecidos duros. Mas deu certo. Até hoje, Antônio [que morreu muitos anos depois] estaria dando serenatas aí a fora”, relembra.

MILAGRE DE FREI DAMIÃO

A cada nova farmácia que surgia, o estabelecimento sofria o impacto nas receitas. “A farmácia ficou falida. Não tinha mais remédio nem nada. Minha irmã [Maria Eurenice] era muito jeitosa e ajeitava as caixas vazias”, conta. Na época, Frei Daminão foi em missão para Santana do Cariri. Um frade, amigo da família, acompanhava Frei Damião em suas viagens. Dona Rosa chegou para esse Frade e contou da situação difícil que ela e as filhas estavam enfrentando. A orientação foi que Dona Rosa pedisse ao Padre Cristiano, responsável pela paróquia de Santana, que convencesse Frei Damião a ir dar uma benção na farmácia. “Mamãe foi e pediu. Frei Damião veio e disse: ‘Ainda tem muito remédio’. Aí mamãe disse: ‘Tem não, Frei Damião. Aí tudo é caixa vazia’. Aí ele olhou para mamãe e confirmou: ‘Mas tem muito remédio’. Ele entrou, saiu benzendo a casa toda, foi na sala, na cozinha, benzeu bem e rezou. Isso foi numa sexta-feira. A gente tinha que apurar um dinheiro para mandar pagar uns remédios no Crato e mandar trazer mais remédios e não tinha um tostão. Quando Frei Damião saiu, nós começamos a apurar. Quando foi no domingo, a gente estava com o pagamento e, além do pagamento, mais um dinheirinho. Daí por diante não faltou mais nada”, descreve.

Maria Eurenice posa ao lado de sua sobrinha, Cidinha, na antiga Farmácia Frei Damião. Foto: Acervo Pessoal.

Com a experiência, atribuída à santidade de Frei Damião, a Farmácia passou a se chamar Farmácia Frei Damião e funcionou até 2008. Hoje, uma outra farmácia funciona no mesmo local.

MARIA EURENICE: ENTRE A POESIA E A FÉ

Até agora, você deve estar se perguntando: mas por que chamavam essas duas senhoras de “madrinhas”? A explicação começa pelo fato de que as irmãs Coelho tinham muitos afilhados na cidade. “Quando havia uma crisma, ela [Maria Eurenice] era a mais requisitada para ser madrinha. A última crisma que houve no tempo do Padre Paulo, fazia uma fila no corredor da Igreja até chegar na calçada de tanta gente para ser apadrinhada por ela. O bispo olhou e chegou para o padre dizendo: ‘Padre, vamos fazer menos para Madrinha, se não ela vai à falência. Todos eles chamavam ela de Madrinha”, conta.

Em Santana, existia uma associação católica voltada para crianças chamada de “Cruzadinha”. O projeto era do Padre Cristiano e todos os dias contava com missas e crianças rezando o terço. Maria Eurenice ficou à frente e seu espírito infantil floresceu em meio aos 90 meninos e meninas participantes da iniciativa. “Quando ela [Eurenice] começou a dirigir [a Cruzadinha], as 90 crianças quase todas eram afilhadas dela. Com isso, as irmãs e os irmãos daquelas crianças começaram a chamá-la de madrinha também. Era madrinha de batismo, de crisma, de São João…”, lembra Eudilce.

A alma sensível alojou, além da fé, a vocação para poesia. Plácido Cidade Nuvens [in memorian], também santanense, era seminarista e resolver fundar um jornal na cidade. Plácido encomendou a Maria Eurenice um artigo para ser publicado no tabloide ainda embrionário. Ela escreveu e mostrou a sua mãe. Rosa logo constatou que o texto, na verdade, se tratava de um soneto. Ajustaram pequenos detalhes da métrica e o soneto ficou perfeito. Quando Plácido foi buscar o texto, se encantou com a surpresa. A escrita era algo sobre moleque e Plácido tinha muita afinidade com as questões sociais. O texto foi publicado e foi também o primeiro de muitos outros. Pelo compromisso que tinha com a vida religiosa, alguns questionavam Maria Eurenice da sua vontade de ser freira. “Ela dizia: ‘eu tenho muita vontade de ser freira, mas é solta no mundo. Enclausurada eu não quero ser não’. Aí ela vivia uma vida de freira, mas não era enclausurada”, conta a irmã.

Maria Eurenice foi fotografada por um turista, enquanto caminhava pelas ruas de Santana do Cariri com um guarda-chuva colorido. Foto: Acervo Pessoal.

O LEGADO E A SAUDADE

Apesar da conduta fortemente associada à Igreja Católica, Maria Eurenice também usava dos versos para compor marchinhas de carnaval. As produções estamparam jornais até mesmo de São Paulo. O jornal Tribuna do Povo foi um dos veículos a mostrar o nome da famosa Madrinha associado a versos de alegria. Além desse tabloide, o Tribuna do Ceará e folhetins municipais comumente traziam nas páginas as produções da poetisa. Ela também escreveu dois livros: “Átomos do Pensamento” e “Flagrantes do Tempo”. O primeiro, foi publicado em 1966 e o segundo em 1984.

O hino municipal de Santana do Cariri foi escrito por ela em 1980. Os versos retratam de maneira fiel o amor que Madrinha nutriu pela cidade de Santana. Maria Eurenice chegou a receber o título de Mulher Santanense do Século. Ao lado de Eudilce, cuidou dos irmãos Paulo e Marcelo Paiva. Paulo hoje trabalha, inclusive, numa farmácia em Nova Olinda. Antes de partir da vida terrena, em 02 de agosto de 2015, ela deixou quase concluído o hino do centenário da Paróquia de Senhora Santana. A data seria celebrada em 2017. Nos seus escritos, percebe-se que a sua partida aconteceu da forma que gostaria. A querida Madrinha assim registrou:

“Se meu corpo recém-nascido não saiu das suas entranhas, um dia, frio e sem vida, penetrará no mais íntimo do seu seio e será aquecido pelo calor do seu coração. E no silêncio do meu repouso, repetirei eternamente: ‘Minha verdadeira MÃE’. Será o mais belo hino. E as estrelas sorrirão”. Maria Eurenice Coelho.

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