Arte e Cultura

As Áfricas no Cariri: espetáculo teatral abriu programação da Mostra Sesc de Culturas 2019

Protagonismo negro, racismo e cultura são refletidos de forma lúdica para todas as idades
Por Bruna Vieira • 8 de novembro de 2019
Contando Áfricas da Cia paulista Colhendo Contos e Diáspora Negra abriu programação da Mostra Sesc de Culturas 2019 no Cariri. Foto: Davi Pinheiro.

À primeira vista parece o mapa do Brasil, mas, o colorido dos 54 países revela as múltiplas Áfricas que existem no continente. O espetáculo teatral Contando África em Contos, da Companhia Colhendo Contos e Diáspora Negra deu o pontapé inicial na programação da Mostra Sesc de Culturas 2019 no Cariri, com alunos da Escola de Ensino Fundamental Pelúsio Correia Macedo e estudantes da escola Educar Sesc, em Juazeiro do Norte. Os três contos trouxeram ao público reflexões sobre a cultura, racismo e protagonismo negro de forma lúdica, atingindo todas as idades na manhã desta sexta-feira, 08. E neste sábado, 09, será reapresentado em Crato.

Os olhares curiosos acompanhavam as batidas dos tambores no palco. Crianças de três a 12 anos participaram da primeira atividade da Mostra. A animação encontrava lugar no jogo de interação da peça, perguntas dirigidas aos espectadores, adivinhações lançadas e aos poucos, cada um vai se familiarizando com os nomes dos países. Etiópia, Gana e Angola vão desvendando memórias de suas histórias orais contadas e cantadas pelos artistas. “A primeira quebra que o espetáculo tem é mostrar que a África não é um país e sim um continente”, comentou a atriz Didi Carvalho.

São diversos povos, línguas, culturas. “Cada um tem sua peculiaridade, são contos passados de geração em geração, às vezes de pessoas que foram para lá estudar ou trabalhar. É pouco abordado, a gente começa a pesquisar e vê a defasagem até dentro das escolas desse tipo de material. Queremos levar acesso para esses locais, para que as pessoas saibam que existem contos africanos que foram influência para muitas fábulas europeias, inclusive”, destacou Jefferson Brito, que atua e dirige a peça.

A interação com o público é a marca do espetáculo. Foto: Davi Pinheiro.

 

Atração inédita

Essa é a primeira vez que o espetáculo é apresentado no Ceará. A companhia formada em 2016 mantém outras atividades de resgate, valorização, preservação e formação cultural relacionada à África, como a Nova Arca de Ébano e o projeto Leitura Interativa. “Vamos pesquisando, cavando e mais mundos aparecem, apesar que muitas coisas foram apagadas. Levamos livros de cultura africana, colocamos no chão e lemos juntos, para não haver verticalidade. Quem não sabe ler, lê as figuras”, complementou o ator.

“É uma demanda que percebemos, a falta de referência para crianças negras. Sou arte educadora e esta peça desmistifica algumas questões das relações cotidianas e humanas, como a cooperação, superação e família. Observamos a reação de uma criança negra vendo três negros contando essas histórias. Queremos possibilitar que ela tenha uma infância diferente da que tivemos, de negação, solidão. Temos um cuidado de não se apropriar indevidamente dessa cultura, que nos influenciou, mas, não é nossa. Mesmo sendo negros, é muito fácil cair no estereótipo”, explicou Rita Teles, que também dirige e atua.

Os artistas ressaltam a importância de iniciativas como a Mostra Sesc de Culturas. “São muito importantes, porque muitos coletivos trabalham sem recurso, é um trabalho de resistência mesmo. São temáticas que precisam ser trabalhadas. As Áfricas de Guiné-Bissau, Etiópia e África do Sul são completamente diferentes da Argélia e Líbia, por exemplo, que são consideradas a África branca. Como disse Angela Davis, não adianta não ser racista, tem que ser antirracista, não é uma luta só dos negros, porque nós sofremos o racismo, mas, nós não o inventamos”, lembrou Rita.

O espetáculo também busca trazer o protagonismo negro à cena, deixando um pouco de lado o aspecto da escravidão. “Tirar o negro do lugar da subalternidade, há rainhas e reis negros. A arte tem o papel de trazer conscientização para o ambiente em que a gente está inserido, a questão do negro, a herança escravocrata de forma leve, lúdica. Esses temas não têm que ser abordados só em maio e novembro, porque racismo a gente sofre os 356 dias do ano”, concluiu Jefferson.

Animadas, crianças de três a 12 anos aprenderam se divertindo algumas histórias de países africanos. Foto: Davi Pinheiro.

 

“Foi muito animada, aprendi sobre a cultura da África, que é muito bonita e importante. Eu não conhecia as danças e achei interessante. Já sabia algumas coisas porque ano passado fiz um trabalho sobre a África do Sul, a economia e o presidente” – Isabel Neves, 10 anos.

 

“Eu já conhecia a lista de todos os países, fiz muitos projetos na escola, cantando a música do Senegal, mas, as línguas das músicas são novas para mim. Gostei da animação deles e da reação do público” – Iago Sampaio, 11 anos.

 

“Já assisti outras peças de teatro, estudar a África é importante, a música, a dança, a fala, o tanto de países. Quero participar de mais atividades da Mostra” – Misael Bezerra, 10 anos.

 

Serviço:

Contando África em Contos

Local: Praça da Sé – Crato

Data: 09/11/2019

Horário: 19h30

CATEGORIA:

Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2019, 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".