Arte e Cultura

Anoitecer no Quilombo

O romper do crepúsculo num lugar em que a ancestralidade e história se mantém viva.
Por Redação Cariri • 31 de outubro de 2019

Por João Leandro e Tayronne de Almeida.

Era final de tarde, uma penumbra avermelhada se espalhava pelo horizonte e lá estava eu, repensando na mística daquele lugar, observando aquele espetáculo natural do pôr do sol. Tive a impressão que o anoitecer no quilombo era sempre o mesmo, mas naquele instante recordei-me de uma metáfora usada pelo filósofo Heráclito onde ele dizia que ao observar a chama de uma vela nós temos a impressão que ela é constante e imutável, mas que na verdade enquanto ela queima estamos contemplando uma   transformação sutil: a parafina está se transformando em fogo, o fogo em fumaça e essa fumaça se mistura ao ar… Naquele instante algo mexeu comigo. A tarde, com seu gradiente dourado de cores, estava dando espaço à noite e a magia do quilombo me instigava a permanecer ali.

O crepúsculo no quilombo e o pé de tamboril. Foto: Tayronne de Almeida.

Avistei passando pela estrada o sr. Lourenço, líder da comunidade, voltando de sua lida no campo. Ao cumprimenta-lo senti no aperto de mãos a força vinda da resistência e da luta desse povo em se fazer ouvido na nossa sociedade. O nosso líder quilombola não usa itens de realeza ou traja vestes formais de trabalho. É um homem robusto, de palavra firme, munido de muita humildade e clareza de ideias, tem um espírito de liderança nato que fortalece o povoado.

 

O Quilombo do Arruda foi formado pela luta e resistência de homens e mulheres que foram escravos na região dos Inhamuns e na Chapada do Araripe. Após a abolição (https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-abolicao-escravatura.htm), migraram para o sítio Coqueiro, onde viveram em condições sub-humanas, com seus direitos ainda negados. O grito de luta não calou no peito deles e com muita coragem compraram uma pequena porção de terra onde hoje fica o sítio Arruda. Nascimento, Caetano de Souza e Pereira da Silva, são as três famílias basilares, são os três baobás que deram origem a comunidade do sítio Arruda. Lourenço é um dos ramos dessas árvores, guardião da tradição ancestral.

A “Bruxa de Padre”

Enquanto conversávamos, ouvimos o estouro de alguns fogos de artifício vindos das casas de cima e fomos saber o que era. Vinha uma pequena procissão de mulheres e crianças, rodeando um pequeno andor com Nossa Senhora Aparecida. Estavam cantando benditos em tom de gratidão e se dirigindo à capelinha. No meio do povo vinha uma jovem mãe com sua pequena filha vestida de branco. Acompanhei o cortejo conversando com Tarça, mãe de um de meus alunos. Ela me contou que aquela procissão era para agradecer por um livramento da neta de Sebasto.

A devoção a nossa senhora Aparecida, protetora dos negros. Foto: Tayronne de Almeida.

– Ontem à noite a Bruxa de Padre tentou pegar a menina e a santa protegeu ela. Agora tamo indo batizar a criança para que a bruxa não volte mais”. Fiquei atônito, com minha cabeça a mil. Perguntei quem era a Bruxa de Padre e Tarça me respondeu benzendo-se três vezes: – A bruxa vem para pegar criança não batizada. É uma assombração horrível, que aparece no quintal de casa balançando um chocalho, para você pensar que é um animal pequeno que fugiu do curral. Aí quando você abre a porta, ela entra e pega o bebê, aí você não vê ele mais nunca. Vixe Maria!”. Fiquei em silêncio depois disso e segui até a comunidade. Enquanto entravam na capela onde o padre já esperava para fazer o batizado, observei que um dos meus alunos se aproximava.

Sua bênção, Mãe Chica!

Professor! O senhor vai ficar aqui hoje de noite?, perguntou Rodolfo. Eu disse que sim, mas não ia demorar muito. Então ele me falou: – pois o senhor não vá muito tarde não que hoje é lua cheia, aqui aparece muita coisa de noite e aquele pé de tamboril, em frente à escola, é mal-assombrado. Foi aí que eu pensei: agora é que vou ficar!

Fui então à casa de Mãe Chica, ouvir algumas estórias. Ela estava no terreiro, sentada, conversando com sua família em volta. Arrumaram logo uma cadeira e começamos a prosa, mas durou pouco, pois chegou uma mãe com seu filho precisando de reza. Mãe Chica imediatamente mandou tirar um galho e com olhar sereno, ela acudia com sua poderosa oração aquela criança que ardia de febre. Rezando baixinho e realizando sua liturgia, ela conclui a reza afastando a febre da criança. Os ramos da benzedura estavam totalmente murchos e sem vitalidade, ela os colocou no chão e deu ordem para que ninguém mexesse neles. Perguntei o que ele tinha.

– Era um mal olhado – disse ela -Tem criança que paga pela ruindade dos pais. Deus não quer ver ninguém constrangido de nada, eu rezo desde nova, sei de toda maldade que se bota no povo. – Não tive do que discordar, pois era o saber do povo antigo que mantinha viva a fé de muitos. Percebi que a hora avançava e minha jornada naquele dia precisava encerrar.

 O mistério do tamboril

Contemplando o mandacaru, sinal de resistência. Foto: Tayronne de Almeida.

Decidi voltar para casa e pensar no incrível dia que vivi ali. No retorno à escola, já não contava mais com a luz do sol, era escuro e uma greta de luz amarela de uma casinha iluminava um trecho da estrada. No antigo e pequeno prédio, onde antigamente funcionava a escola e que hoje está abandonado, os morcegos se balançavam tranquilos, nos últimos clarões do horizonte. A paz da noite e o clima sereno estavam atingindo o equilíbrio, até quando passei em frente ao pé de tamboril mal-assombrado. Ouvi estalos, um brilho estranho vinha das matas detrás dele, então corri e até hoje não sei o que vinha de lá. Ainda assustado, fiquei aliviado por não dar aulas a noite, pois prefiro meus anjinhos e suas travessuras.

O quilombo vive e Resiste!

Resistência unida, em busca da identidade ancestral. Foto: Tayronne de Almeida.

A comunidade do sítio Arruda possui uma aura de calor humano que não se sente mais nas grandes cidades dominadas pela frieza tecnológica. O quilombo resiste por amor a vida, em reverência a natureza e seus mistérios. A energia desse povo mantém vivas as memórias ancestrais e mitologicas desse lugar. Não há diáspora no sítio arruda, não há mais grilhões. Existe alegria e dança, existe vivo o sagrado da Mãe África, a centelha mística que aviva os corações daquelas pessoas.

Foto destaque: Tayronne de Almeida.

 

Leia os outros capítulo da série sobre o Quilombo do Arruda:

Amanhecer no Quilombo

Entardecer no Quilombo

 

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