Arte e Cultura

Afetos literários: os livros como uma janela para universos surpreendentes

A CARIRI Revista inicia a série “Afetos literários” trazendo relatos sobre a relação de algumas pessoas com os livros, dicas de leitura e spoillers de algumas obras que marcaram esses leitores.
Por Marcio Silvestre • 5 de agosto de 2020

A leitura é um ato libertador, capaz de nos levar a territórios surpreendentes. Quando o leitor se deixa conquistar pelo romance, o nível de intimidade com a obra e seus personagens pode chegar ao ápice do bovarismo, uma fuga da realidade para vivenciar aspectos imaginativos. Para o escritor Daniel Pennac o Bovarismo é uma “doença textualmente transmissível”. Exercitar a criatividade, ampliar seus horizontes e adquirir novos conhecimentos são algumas das vantagens da leitura.

Conversamos com o graduado em Direito e estudante de Jornalismo, Gilles Diniz, sobre sua relação com a literatura e os livros que mais lhe marcaram. Leitor nato, o estudante faz parte de um grupo de leitura no Cariri, o Colibri, que reúne jovens que compartilham de uma paixão em comum: a leitura. Acompanhe os Afetos Literários de Gilles Diniz:

“Os primeiros livros e autores que me vêm à mente quando penso no meu contato inicial com uma literatura, totalmente nova para mim e que muito me compôs individualmente, são: Edgar Allan Poe, Jack Kerouac, Rudyard Kipling e Mark Twain. Esses autores muito me influenciaram no ensino médio e me remetem a uma fase decisiva de minha vida, repleta de mudanças e com a frequente visita do inusitado. Meu lado ‘sombrio’ com certeza tem muito do que li, escrevi e desenhei inspirado em Poe e o seu Histórias Extraordinárias.

Mas, logo depois, tive um contato mais intenso com a literatura estrangeira e descobri uma obra que muito me significa e representa, cujo conhecimento tive na universidade: Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Esta seria a obra que mais marcou minha chegada à fase adulta e despertou mais amor pela escrita. Em Busca do Tempo Perdido é uma obra de memória e a mais longa escrita em língua francesa, sendo composta por sete volumes que seguem um recorte muito minucioso do amadurecimento do herói (protagonista ou narrador), suas percepções, as histórias que ouve, suas paixões, sua visão da sociedade europeia da época.

Com Proust, eu caminhei por um vasto universo das percepções trazidas pelas memórias involuntárias, a rotina dos salões franceses, os diálogos recheados de críticas à política e à arte na belle époque, as paixões do herói pela pintura, pelo teatro, pela música, as opiniões e polêmicas de pessoas que o cercam. É tudo muito maravilhosamente descrito e narrado de forma a resultar num verdadeiro mergulho catártico que me trouxe lembranças da infância, nostalgia, resgates, buscas. O relevo desenhado por Proust na sua obra magna me apresentou uma Europa em ebulição com a mudança de século e como isso afetou todas as relações e costumes de uma era que morreu. É, todavia, um romance recheado de arte: Bellini, Vermeer, Monet, Mozart, Chopin e Wagner nos aparecem pela delicadeza inconfundível de períodos que só o autor consegue construir.

Os livros são um abrigo, uma janela que se abre para nos adentrarmos em universos dos quais dificilmente saímos os mesmos. Nos livros, e na escrita, encontrei maneiras de ressignificar realidades e redesenhar o mundo, as percepções. Não posso deixar de também citar alguns outros autores que muito me foram essenciais e cuja leitura ainda visito, em prosa ou poesia: Marguerite Yourcenar, George Orwell, Hilda Hilst, Virgílio, Clarice Lispector, Geraldo Urano, Khalil Gibran.

 

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Marcio Silvestre

Marcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".