Saúde e Bem Estar

Acessibilidade | Nossos olhos estão fechados

Na nossa coluna de Saúde e Bem-estar de hoje relembramos uma matéria especial, publicada aqui no site pela primeira vez em maio de 2016. Conheça a história de Flávio Moura, deficiente visual, que compartilhou com nossa equipe como superou a perda da visão, a luta pela acessibilidade e o sonho de ingressar no ensino superior. Boa leitura!
Por Redação Cariri • 3 de dezembro de 2019

Por Alana Maria.

Aos 40 anos, Flávio Alves de Moura começou a perder a visão em prestações – com o favor da ironia dada pelo próprio ex-açougueiro. Na época a vista já não era lá essas coisas devido à grave miopia que carrega desde o nascimento, mas contornada com o uso de óculos fundos de garrafa apurado com 24 graus. Só é possível imaginar o charme singular que Flávio transparecia com suas lentes grossas, isso porque ele não tinha nenhuma foto da época em mãos na data da entrevista.

Trabalhando pesado para manter o básico da sua família, foi costureiro em fábricas, açougueiro no Mercado Senhora Santana de Juazeiro do Norte e tudo mais que aparecesse de bico. Não havia dificuldade na frente que ele não contornasse.

Tempos antes dos 40, o médico havia dado o aviso: ou ele trata de descansar a visão – e para isso ele precisaria largar o emprego e a vida noturna – ou algo ruim pode aparecer. E algo ruim apareceu. Em 1989, o deslocamento da retina no olho esquerdo rendeu a Flávio algumas idas e vindas a salas de cirurgia em Fortaleza das quais não podia pagar. Só ele e a esposa sabem a coragem que precisou para enfrentar a faca e a conta depois.

Em 2008, com tristeza se despediu da visão esquerda. A vida continuou, mas os cuidados aumentaram extraordinariamente. “Como tenho o globo ocular muito dilatado, qualquer pancadinha na cabeça ou emoção forte corre o risco de romper, de ter um descolamento ou a lente (intraocular) se soltar”, Flávio explica o perigo que levou ele de volta as salas de cirurgia em 2012.

Duas cirurgias depois e com complicações, o início de glaucoma põe em cheque a visão do olho direito. “Não teve jeito, daí o jeito foi se conformar”, lamenta. “A pessoa vai com tanta esperança e sair com o resultado que não deu certo é uma decepção muito grande”, relevando que a intensidade do choque ao perder depois de tantas batalhas. Mas ainda assim, não havia barreira grande demais que ele não pudesse contornar. “Menina, para você ter uma ideia, tinha hora que eu é quem dava força para eles (a família)”, ri.

(Fotos: Alana Maria)

(Fotos: Alana Maria)

 

CONDIÇÃO E EXCLUSÃO

Flávio é um entre as 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no Brasil, segundo o Censo 2010 do IBGE. Desses, pelo menos 580 mil são cegas e 6 milhões possuem baixa visão. Para o professor e pesquisador cego Victor Caparica, também fundador do blog e podcast Cego em Tiroteio, ainda existem debates a serem superados sobre as deficiências e como lidamos com elas, a começar por nomeando corretamente. Diz-se pessoa com deficiência, e não deficiente, pois assim “deixa semanticamente claro que a deficiência é algo que participa da pessoa, e não a pessoa em si”, escreveu.

Ele ainda nos ajuda a entender dado o exemplo: “a deficiência ocorre não quando o indivíduo não consegue enxergar, mas quando a privação desse sentido o impede de acessar elementos da vida cotidiana. Não porque o sujeito não pode ver a luz, mas porque a sociedade se constrói e sustenta sobre o pressuposto de que todos podem”.

TECNOLOGIA

Leitores de tela como DOSVox, NVDA, Virtual Vision, programas de computador, ajudam na audição dos textos e na navegação simples por sites online. Difícil mesmo é quando precisa fazer compras online e os ícones não possuem autodescrição, impossibilitando o entendimento e a compra, algo que gera frequentes reclamações por parte da comunidade cega que se pergunta “Também não sou consumidor?”.

EDUCAÇÃO É PARA TODOS

Hoje com 48 anos, Flávio concluiu o Ensino Médio no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), onde também estudou noções básicas de braile, e cursa Jornalismo na Universidade Federal do Cariri, instigando os filhos a seguirem o mesmo caminho no ensino superior. “Um sonho que sempre tive”, diz. Com o gravador em mãos, material adaptado e ouvidos atentos, ele assiste e participa das aulas do primeiro semestre.

Sendo um dos poucos que tem algum tipo de deficiência no campus da UFCA em Juazeiro do Norte, ele lamenta que outras pessoas cegas ou com baixa visão ainda estejam fora dessa realidade.

O professor, tradutor intérprete e pesquisador Carlos Oliveira, um dos poucos que trabalham especialmente na área da educação acessível, explica que nenhuma escola pode recusar atender um aluno ou escolher quem atender, diferente do que não dificilmente acontece. No CEJA, Carlos atende a 10 pessoas surdas e três pessoas cegas a concluírem seus ensinos básicos e médios e iniciarem noções em libras e braile.

(Fotos: Alana Maria)

(Fotos: Alana Maria)

RESPONSABILIDADE COLETIVA

A Universidade, algumas faculdades particulares e parte do setor educacional são alguns órgãos que se mostram preocupados em respeitar o Decreto Federal 5.296/2004, que estabelece a Lei de Acessibilidade, ainda que pecando. Poucas também são as legislações municipais que condicionam algum tipo de respeito às pessoas com deficiência.

Em Juazeiro do Norte só se encontram o Passe Livre e a adaptação de algumas entradas de loja e Lan Houses. Implementada em 2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência continua fora da sua capacidade total em lugares como o Cariri. Apoio escolar sem custos a família, obrigatoriedade do material educativo adaptado, proibição de taxas extras nos planos de saúde, 10% da frota de taxis adaptadas e o auxílio-inclusão para o mercado de trabalho são ações distantes da realidade local.

Onde nada é feito, reina a desordem. Popular por sua inacessibilidade, Juazeiro é carro-chefe na questão calçadas e entradas irregulares, o que põe em risco o direito de ir-e-vir não só de pessoas com deficiência visual ou motora, mas também de crianças e idosos.  

“Às vezes deixamos de sair porque a cidade não está preparada para nós. Sempre fica o receio do que vamos encontrar pela frente”, Flávio critica. “Mas a gente vai e se houvesse uma cultura de mostrar para o cidadão que as pessoas com deficiência também podem produzir, também podem trabalhar, o que fariam os milhares que estão reclusos em casa?”.

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(Imagens: Reprodução)

 


Foto de destaque: Alana Maria

 

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