Arte e Cultura

Acessibilidade foi a grande inovação da Mostra Sesc Cariri de Culturas

Intérprete em Libras disponível em 18 espetáculos
Por Bruna Vieira • 19 de novembro de 2018

A Mostra Sesc Cariri de Culturas trouxe algumas novidades em sua 20ª edição. A principal delas foi a acessibilidade, trabalhada em duas vertentes: a mobilidade e a deficiência auditiva. Nas artes cênicas, das 59 apresentações teatrais realizadas em uma verdadeira maratona durante cinco dias, 11 delas disponibilizaram intérprete em Libras. Na literatura também havia o tradutor. E na música, os locais onde ocorreram os maiores shows, de abertura e encerramento, possuíam espaços reservados para cadeirantes.

O espetáculo “O homem que amava caixas”, da Artesanal Companhia de Teatro, apresentado em Crato, Nova Olinda e Juazeiro do Norte foi uma das peças com intérprete. Com poucas falas, porém, muito canto e grunhidos, tem grande impacto visual, pois, intercala atores, bonecos e máscaras. O intérprete auxilia a revelar esse imaginário sonoro indispensável à compreensão das cenas. O enredo é baseado no livro “The man who loved boxes”, de Stephen King.

Assessoria de Comunicação da Mostra Sesc

Samara Almeida já desenvolve o trabalho de intérprete com a Língua Brasileira de Sinais há quase oito anos, porém, pela primeira vez exerceu sua função voltada para o teatro. “Por um lado, a gente sente vontade de assistir ao espetáculo, porém, é necessário concentração na profissão. Tenho orgulho de auxiliar na inclusão da comunidade surda. Isso traz satisfação e percebo o reconhecimento deles pelo meu trabalho. A inclusão de papel tem acontecido, vemos o surdo na escola regular. A nossa maior tristeza foi o fechamento do Intra (Instituto Tranformar), que é onde há o contato entre os surdos, independente da idade”, ponderou.

Para Samara o Brasil ainda está longe do ideal, em que todos usem a Libras como segunda língua do país. No entanto, acredita que pelo menos os profissionais de educação devem conhecer a língua. “Sou professora do ensino superior, não vejo justificativa para os professores não aprenderem Libras. Há vários cursos, a própria comunidade surda é muito acessível. É como aprender outro idioma. Esqueçam um pouquinho inglês, espanhol, francês e foquem na língua de sinais”, acrescentou.

Apesar do acesso, a presença de pessoas surdos ainda é pequena. O professor Raimundo Lopes estava na fila para assistir à peça e observou que todos conversavam em português e não em Libras. “A inclusão é uma necessidade que nossa sociedade tem e alguns meios, como o Sesc, graças a Deus está incluindo essas pessoas, que na verdade nem eram para serem excluídas. Mas dessa forma, as trazemos novamente para o espaço em que elas devem estar. É um trabalho a longo prazo, o lugar delas não é dentro de casa, é onde elas quiserem”, afirmou.

 

Outras formas de inclusão

 

No espetáculo “De malas prontas”, da Companhia Pé de Vento Teatro, de Florianópolis (SC), apresentado no Sesc Crato, outra forma de inclusão é praticada. A peça não tem fala, o que abre as portas para as pessoas com deficiência auditiva. A comédia interpretada pelas atrizes Wanderleia Will e Lily Curcio, conta a história de duas mulheres obrigadas a compartilhar o mesmo banco no aeroporto, gerando conflitos que refletem a dificuldade da partilha.

Para Wanderleia, há alternativas de acessibilidade nas artes, porém, é uma construção recente. “Há uns dois anos fizemos um projeto de circulação no interior da Paraíba. Usamos a audiodescrição para os cegos através de fones de ouvido. Foi bastante interessante, porque mobilizava as associações de cegos e conseguíamos levar alguns, mas percebemos que isso é muito novo. O público com deficiência visual não tem costume de ir ao teatro ou circo pela falta da audiodescrição e o percurso da casa ao local. Seria interessante colocar transporte, estrutura total, além do acesso com rampas. O Sesc é um ótimo espaço porque não há dificuldades de mobilidade”, ressaltou.

Assessoria de Comunicação da Mostra Sesc

Chagas Sales, gerente de cultura do Sesc Ceará destacou que a entidade tem trabalhado em rede com outras unidades do país na sensibilização para garantia do direito ao acesso à cultura. “Conseguimos trazer nessa edição intérprete para 18 espetáculos de literatura, teatro e a cerimônia de abertura. São novas perspectivas e formatos. Na exposição da história da Mostra teremos fotografias e xilogravura, a matriz que irá servir como lugar de apreciação através do toque. Uma plataforma tradicional que reinventamos para acessibilidade visual. Inclusão é sempre um desafio, sobretudo, na música. O fazer artístico pensa em novas possibilidades para ampliar outras soluções além da Libras. Pela capacidade criativa da arte, é possível termos espetáculos inclusivos através da audiodescrição e mimética”, apontou.

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