Arte e Cultura

Abdoral: um pássaro que canta o Cariri

Por Márcio Silvestre • 26 de dezembro de 2018

Foto: Giovanna Duarte.

Com a generosidade típica da região, o cantor cratense Abdoral Jamacaru abriu as portas de sua casa para a CARIRI Revista, e contou parte da sua história, revelando as escolhas e acontecimentos que o fizeram compositor, cantor e um dos mais reconhecidos representantes da música popular produzida no Cariri. Recentemente, Bida (como é carinhosamente chamado pelos amigos) lançou o seu quarto CD “Abdoral Jamacaru”, durante as comemorações do seu 70º aniversário.

O artista nos recebeu à sombra do pé de jasmim, em frente a sua casa, no centro de Crato. Com um sorriso, mostrou a nova placa colocada na fachada da residência durante as festividades de seu aniversário de 70 anos, no último dia 28 de novembro. Uma homenagem feita pelo Instituto Cultural do Cariri (ICC).

Na placa lê-se: “Esse é o ninho de um pássaro de canto maravilhoso e único: Abdoral Rodrigues Jamacaru Filho. Poeta, músico, ambientalista, compositor, seu cantar desperta o Cariri nas auroras e embala e nina a chapada nos seus crepúsculos. Ave!”.

Foto: Marcos Taveira

CARIRI Revista: Abdoral, a música sempre esteve presente na sua vida? Como começou essa relação?

Abdoral Jamacaru: Desde criança. Minha mãe gostava de cantar os hinários religiosos e meu pai era seresteiro e vendedor de instrumentos musicais. Eu cresci nesse ambiente. Meus irmãos todos tocavam violão, por um problema em um dos dedos eu demorei a conseguir tocar, mas acabei aprendendo também.

CR: O que te levou a assumir a música como oficio?

AJ: Eu não era muito afeito à sala de aula, só vivia gaseando aula. Talvez por que eu tivesse problema de vista e não soubesse. Sempre me dava dor de cabeça. Como eu não enveredei pelo estudo, com o tempo teria que decidir por alguma coisa. Ainda tentei o comércio, ajudando meu pai, mas eu não levava jeito, não queria me sentir preso. Terminei escolhendo a música.

CR: Como foi no início? O que te inquietava e inspirava a cantar?

AJ: Foi nos anos 70. O mundo inteiro vivia um período de reivindicações e desejo de mudanças. As pessoas passaram a seguir suas próprias orientações religiosas e sexuais, influenciando inclusive a maneira de se vestir. Por essa época também estavam em alta os festivais de música, como o Festival de Woodstock, que era bem interessante porque agregava as reivindicações desse período da contracultura*. Aqui no Crato, esse movimento aconteceu de forma intensa. Na época, eu morava em frente à praça bicentenária, antigo parque da cidade. Lá nos reuníamos todas as noites para discutir sobre essas questões e inquietações do período. Houve também alguns festivais no Crato, não uma festa de música, na verdade eram concursos. Nós concorríamos, tinha júri para dar as notas. Isso foi um grande acontecimento. A partir daí podemos acreditar que era possível se nascer compositor aqui, não só no Rio de Janeiro, São Paulo ou nos litorais.

CR: De que forma isso influenciou na sua carreira?

AJ: A partir do momento em que a gente foi expondo as músicas, o público ia reagindo, fazendo com que acreditássemos que era possível e se envolvendo. Quando me dei conta a musica já era minha razão de viver, meu trabalho e tudo.

CR: Abdoral, qual foi sua primeira composição?

AJ: A primeira música que fiz foi um frevo chamado “São lembranças do carnaval que passou”. Sempre tivemos uma influência meio inconsciente de Pernambuco e o frevo aqui era muito tocado nos clubes. – Com um sorriso saudoso, ele canta uma estrofe de sua primeira canção, apresentada nos antigos festivais de Crato – “Começou sábado gordo, três horas da tarde, passando domingo, segunda e a terça, na quarta de cinza ainda tava por lá sem saber que a alegria do povo já tinha acabado”. Nunca a gravei, vinha sempre guardando para o próximo. Mas um dia ela vai ser gravada.

CR: Nos anos 70, início de sua carreira, o Brasil vivia o período da Ditadura Militar. Como foi iniciar neste cenário?

AJ: Tive uns problemas nessa época, período da ditadura. Cheguei a ser preso, entre os anos de 75 e 76. Depois disso passei um período recolhido. O Francis Vale, um grande amigo, vendo minha situação produziu um show meu em Fortaleza. Esse show foi fundamental, a partir daí abriram-se portas na capital. Contei com muita ajuda, pois eu não fazia música veiculada por grandes emissoras, minha produção era independente, eu tinha liberdade para fazer minha música como eu queria. O sentido era fazer uma música com arte e conteúdo.

CR: Quais as principais referências musicais que contribuíram, desde o início, para a sua produção?

AJ: No começo foi muito dos seresteiros, por influência do meu pai. Depois o movimento pré-rock and roll brasileiro com Celi Campelo, Toni Campelo, Carlos Gonzaga. Depois apareceu a bossa nova, uma coisa mais sofisticada que muito me impressionou, que dá um respaldo na estrutura da música. As músicas de protesto também tiveram forte influência sobre o meu trabalho. Artistas com Gonzaguinha e Chico Buarque, com eles passei a entender de política. Minha música tinha apenas o belo artístico, mas faltava o sentimento crítico. Isso fez com que ela fosse se transformando, com todas essas referências e experiências, se tornando uma salada mesmo.

Foto: Giovanna Duarte

CR: O Cariri também é bastante abordado nas suas letras, desde a Chapada do Araripe até a heroína Bárbara de Alencar. O que te leva a documentar nossa história nas letras de suas canções?

AJ: É preciso ter um referencial, um ponto de partida, e isso está na sua terra. Não se pode ser universal sem ser regional. Meu novo CD tem muito isso.

CR: No mês passado o senhor lançou o seu quarto CD, intitulado Abdoral Jamacaru. Do que trata essa nova obra?

AJ: Nesse CD eu trago algumas músicas novas e a mesma essência. Pois em todos esses CD’s tem uma tônica que remete ao mesmo sentido: O vanguardismo e a contemporaneidade. Tendo o pé na terra, o regional está muito presente. Tudo partiu de minhas inquietações.

CR: Fazendo uma análise da sua produção desde Avallon. Qual a marca que o cantor Abdoral Jamacaru deixa em sua obra?

AJ: Minhas músicas são verdadeiras, não sigo moda, estou expressando sentimentos de momentos que vivi. Eu sempre tive convicção de que desde o começo fiz o que queria.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".