Arte e Cultura

A verdade e a lucidez da arte de João Miguel

Em nova fase de sua carreira, o ator João Miguel volta ao Cariri com o espetáculo “Bispo”
Por Márcio Silvestre • 5 de dezembro de 2018

“Não sei o que seria de mim sem a arte” disse o ator João Miguel em entrevista exclusiva para a CARIRI Revista. Conhecido nacionalmente por trabalhos no cinema brasileiro, a exemplo dos filmes “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Estômago”, “O Céu de Suely”, e em séries televisivas como “O Canto da Sereia” e “3%”, o ator nos recebeu no terreiro da ONG Beatos, na cidade do Crato, horas antes da apresentação do espetáculo “Bispo”, retomado por ele em 2016 e que já esteve no Cariri, integrando a programação da IV Mostra Sesc Cariri de Culturas, em novembro de 2002.

À sombra de uma mangueira, sons de pássaros e as habituais risadas de crianças formaram a sonoplastia desta conversa, marcada pela simplicidade e humanidade de João Miguel, que com um semblante sereno e olhar fixo, nos falou sobre o início de sua carreira, processo criativo de construção de suas personagens e a importância da arte em sua vida. Confira a entrevista completa com o ator que também participa, nos próximos dias, do II Festival Internacional de Máscaras do Cariri (FIMC).

CARIRI Revista: João, como se sente ao retornar com a peça “Bispo” ao Cariri, após 16 anos?

João Miguel: Então… Eu venho ao Cariri desde 2002, logo no início da primeira versão do “Bispo”. O Cariri é um lugar que carrego dentro de mim, desde a primeira vez que eu vim para cá. Considero essa região um dos grandes portais do Brasil, de humanidade, de arte, de história. O meu trabalho é baseado no deslocamento. A partir do deslocamento você se vê melhor, vendo o outro.

Espetáculo “Bispo” apresentado na ONG Beatos, em Crato (Foto: Márcio Silvestre)

CR: Como começou sua relação e formação artística?

JM: A primeira vez que eu subi num palco eu tinha 9 anos de idade, foi no espetáculo infantil “O cavalinho azul”. Aos 10 anos, tive a experiência de apresentar um programa infantil chamado “Bombom Show”, do Nonato Freire, isso nos anos 80 na TV Itapuã. Era um programa pautado pelas crianças, meio improvisado, eu via como uma brincadeira. Aos 15 anos, protagonizei a primeira peça “A viagem de um barquinho”, com direção de Petinha Barreto. Minha experiência na CAL (Casa de Arte das Laranjeiras) aconteceu quando eu tinha 18 anos. Foi lá que eu descobri o “Palhaço”, com Luis Carlos Vasconcelos, ator e diretor do Grupo Piolim. O “Palhaço” foi uma descoberta fundamental na minha carreira. Surge como uma possibilidade de potencializar sua criança, não ter medo do ridículo, poder se mostrar, anarquizar o espaço convencional e ser afetado por ele. Isso pra mim foi muito importante. Daí eu volto para Bahia e vivo um ciclo forte com o “Palhaço Magal”, personagem que trabalhei por dez anos, sendo palhaço do Circo Picolino, em Salvador. Minha formação desde novo passa por esse viés da educação, aula para criança, oficina de ator e de palhaço.

CR: Pensando a arte como mecanismo importante na transformação e educação social, o que ela representa para você?

JM: A arte me salvou em vários aspectos, eu não sei o que seria de mim sem a arte… Poderia ter trilhado caminhos difíceis. A arte é um espaço que me dá lucidez e possibilita que eu trabalhe minhas qualidades diante do mundo, com a possibilidade de afetar e despertar a qualidade do outro, desenvolvendo posturas positivas e afirmativas. A criação artística é complexa como a vida, nosso trabalho é encontrar fluxos de criação que sejam transformadores.

CR: Quanto à produção do espetáculo “Bispo”; o que te levou à pesquisar sobre a história do senhor Arthur Bispo do Rosário?

JM: Inscrevi o “Bispo” para um programa de televisão voltado à comunidade afrodescendente. Essas questões sempre foram importantes para mim, pois atravessaram a minha própria formação. Venho de uma cidade (Salvador) onde 90% da população é negra, eu sou branco de classe média, privilegiado, mas sempre fui afetado por esses universos. Toda edição eram indicados livros sobre uma personalidade negra. Aí encontrei “Bispo Senhor do Labirinto”, da Luciana Hidalgo. Essa história me inquietou. Achei muito curioso como esse cara criou uma obra dentro do hospício, sendo catalogado como louco. O “Bispo” conseguiu criar obras que entraram na história das artes plásticas do Brasil e do mundo. O espetáculo não é biográfico, mas sim o debruçamento de um grupo de artistas sobre um dos maiores artistas brasileiros que é o senhor Arthur Bispo do Rosário.

Cena do Espetáculo “Bispo” (Foto: Márcio Silvestre)

CR: O Senhor Arthur se via como artista?

JM: Não. – Afirma João Miguel, declamando uma fala do espetáculo atribuída ao personagem – “Tão dizendo que isso que faço é arte, quem fala não sabe de nada. Isso é a minha salvação na terra tá mais do que visto”, a obra do seu Arthur é destinada para o dia da passagem. Ele criou todo um mundo. E para entrar na cela dele, você tinha que dizer a cor da áurea dele. Isso me chamou muito atenção.

CR: Como se deu o processo criativo do espetáculo?

JM: No início achei que não conseguia mostrar a grandiosidade do seu Arthur, nesta obra. Então o espetáculo tem vários caminhos e um deles é que acabei, dentro do próprio processo criativo, não vendo o seu Arthur como um louco, mas sim como uma pessoa de muita lucidez. Faz parte de uma pesquisa que eu estudava corpo e memória. A obra do seu Arthur me remetia às pessoas fortes, de santo, de fé, e que nada tinham haver com a loucura.

CR: Como isso contribuiu na sua carreira?

JM: Fiquei seis anos atuando nesse espetáculo e depois entrei no cinema passei a fazer filmes e dialogar com o áudio visual de uma maneira muito intensa, mas sempre tendo o “Bispo” como meu lugar de referência, assim como também o palhaço Magal, os dois personagens que criei e seguem sempre comigo de alguma maneira.

CR: O que essas personagens te ensinaram?

JM: O palhaço (Magal) me ensinou a interagir com o outro, através da alegria, instrumento importante e necessário, principalmente nos dias de hoje. Já o “Bispo” é um espetáculo sobre o ver e ser visto na sociedade. Isso é importante para se respeitar a diferença e singularidade do outro. Essas duas figuras me acompanham como matrizes do meu processo de criação.

João Miguel em “Bispo” (Foto: Márcio Silvestre)

CR: O teatro foi sempre presente em sua trajetória artística. Como foi migrar para o audiovisual, mais especificamente para o seu primeiro longa-metragem, “Cinema, Aspirina e Urubus”?

JM: Olha, foi incrível… Eu caí de paraquedas no cinema. O Marcelo Gomes viu a peça (Bispo) e me fez o convite. Foi muito interessante por que eu estava imbuído de muitas perguntas sobre criação durante o processo do “Bispo”, daí entro em um filme autoral. Hoje, após 10 anos desta experiência em “Cinema, Aspirina e Urubus” vejo que era muito visível minha máscara vinda do teatro. “Bispo” é uma construção de uma máscara que está ali no limite. E eu levo essa máscara para o cinema. Eu acho incrível que o meu trabalho tenha sido aceito com sua verdade. Através dessa base que me foi galgada do “Bispo” e do “Palhaço”.

CR: Seu trabalho tem tido grande repercussão no cinema e na televisão. Como você avalia essa inserção na mídia e consequente popularização do seu trabalho, a exemplo da série 3% da Netflix?

JM: Em relação ao audiovisual… Hoje eu faço parte deste universo também. Que foi galgado através do diálogo e a inserção do meu trabalho nas mídias que dialogam com o mundo na contemporaneidade. Em 3% eu consigo me comunicar com um novo público, essa turma jovem da internet, do mundo virtual.

CR: Como você se percebe nesse momento de sua carreira?

JM: Eu continuo procurando. O “Palhaço” me deu um firmamento no não saber. Acho que isso é muito importante, a gente sabe não sabendo e não sabendo sabe. Fazendo, procurando… Esse espaço da procura é importante. Eu continuo visitando minhas bases, essa retomada do “Bispo” da pesquisa iniciada, onde eu não olhava para aquelas pessoas como loucos. Eu era acrescentado pela lucidez dele. Pois eu acho que a loucura é institucional, quando uma pessoa não se encaixa na sociedade acaba sendo condenada. Me interessa espaços onde a gente possa romper com essas catalogações. A arte pra mim ainda é esse espaço, extremamente necessário, ainda mais num momento como esse que vivemos de um retrocesso muito profundo e de um comportamento que é galgado e intrínseco na formação do Brasil. Mais que nunca a arte é um lugar presencial. Por isso meu retorno ao teatro e às oficinas nesse momento. Por que eu acho que é aqui, no olho no olho, que a gente se transforma. Que eu posso te transformar e ser transformado. Essa relação de troca proporcionada pelo teatro.

João Miguel representa o Artista Arthur Bispo do Rosário (Foto: Márcio Silvestre)

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Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".