Reportagem

A Rua São Pedro é do povo, como o céu é do avião

Um passeio cheio de som e cor pela rua mais movimentada de Juazeiro do Norte, onde se apertam lojistas, camelôs, ambulantes, vendedores de miudezas, carrinhos de água-de-coco e gente, muita gente. Com suas memórias, a Rua São Pedro é a artéria comercial mais pulsante da cidade.
Por Márcio Silvestre • 3 de maio de 2019
Foto: Rafael Vilarouca

Por Raquel paris

No início era São Paulo, São Pedro e Padre Cícero, e a cidade nasceu dali. As três em paralelo rendem quilômetros e traçam, nem sempre de forma retilínea, as reentrâncias da cidade de Juazeiro do Norte. Perder ninguém se perde, “vai em frente toda vida”, mas em cidade que cresce um quarteirão todo dia, quando menos se espera a rua dá em outra e engole os desavisados.

Primeirona ela não foi, que já tinha a Padre Cícero – e Juazeiro do Norte não pode negar suas origens. Mas a Rua São Pedro, de tanto pelejar, ganhou fama e se pavoneou. Lojas, vitrines, placas imensas, coloridas, multicoloridas e gente, muita gente, pra não deixar dúvida de que ali é o “centro comercial da cidade”.

Foto: Rafael Vilarouca

No rebuliço de carro, gente, caminhão, gente, bicicleta, gente, a São Pedro é um desacato. Camelôs, ambulantes, vendedores de miudezas, lojistas que têm uma única estratégia de venda: o grito. E nem se queira que seja só à base do gogó. Munidos de microfones e caixas amplificadoras, vendedores mandam às favas as leis municipais e gritam a plenos pulmões as promoções do dia, que na São Pedro são infinitas. Às vezes o consumidor se vê retirado de seu trajeto e, de repente, projetado para dentro de uma das milhares de lojas por um vendedor mais engraçadinho. Acontece.

De longe, crescendo, serpenteando, a imensa fila dupla de carros, ônibus e caminhões vai se formando.Vai que vai se transformando, e num susto um corredor se configura. O pedestre que já não tem espaço na calçada ínfima, peleja pra não escapulir e se vê jogado em meio ao trânsito, que tem pressa e ruge. Pode acontecer.

Vendedores da Rua São Pedro. Foto: Rafael Vilarouca

O calor, claro, é um capítulo à parte. Ao colocar o pé no asfalto quente, sabe-se de imediato que nem o filtro solar vai durar por muito tempo, nem a disposição para enfrentar a multidão de pessoas que se tem pela frente. Com o instinto de quem precisa e deve ganhar um dinheirinho, uma profusão de vendedores de água- de-coco multiplica-se por toda a extensão da São Pedro. Os carrinhos devidamente estilizados em formato de coco prometem aplacar o calor que escorre em formato de suor e afoba a todos indiscriminadamente. Sorte grande é encontrar água-de-coco pura, mas isso já é pedir demais.

Por outro lado, o que não falta é gente para revelar o passado da rua. Há quarenta anos vivendo da São Pedro, seu José Mendes da Silva, 75 anos, trabalha fazendo a fezinha de quem não esquece de apelar ao Padim e ao jogo do bicho. Ele aponta para o paralelepípedo que desponta sob o asfalto quente e revela. “Aqui antes era tudo areia. Depois botaram calçamento, paralelepípedo e só depois asfaltaram”. Ele se lembra bem quando o Mercado Municipal pegou fogo, em 1975. “Aí eu vi gente baratinada nessa rua. Era todo mundo carregando balde d’água pra apagar o fogo. Uma loucura”.

Seu José revela também que quando a São Pedro era feita de casinha miúda, “bodeguinha mesmo”, lugar de gente se encontrar e fazer volume era o Bar Iracema. “Tinha de tudo. Tudo. Bebida, café, merenda, sinuca. Nelson Gonçalves tomou muita cachaça e tocou muito violão no Iracema”. Do Bar Iracema, nem a fachada. Agora uma moça sorridente portando apenas uma langerie enfeita o prédio que fazia a festa da São Pedro antiga.

José Mendes da Silva. Foto: Rafael Vilarouca

Dessa outra São Pedro, que ficou enterrada em- baixo de camadas de asfalto, seu Raimundo Nonato, camelô, não esquece da feira-livre que se estendia por três quarteirões. “A feira acontecia todo sábado. O pessoal vinha pra cá e armava as barracas. Essa rua ficava entupida. O povo vendia verdura, goma, fruta, galinha, panela. Era de um tudo”.

A década de 60 trouxe a luz elétrica e o asfalto. Trouxe também as primeiras lojas com vitrines, portas largas, prédios e placas de neon que vigiam noite e dia quem trafega por ali. A São Pedro, que não passava de três quarteirões, foi substituindo mata por casa, casa por lojas e hoje conta com dois quilômetros de extensão.

“Nessa parte aqui da São Pedro, da Prefeitura pra cá, eu conto nos dedos quantos comerciantes de Juazeiro ainda tem trabalhando”, sentencia Francisco Carlos, estabelecido há 30 anos na São Pedro. “Não é mais que cinco, tenha certeza”. Francisco, que iniciou com uma loja de vendas de vinil e viu tudo ser substituído pelo MP3, recorreu aos santos para melhorar os negócios e agora está cercado por todo o imaginário católico. “Eu comecei a vender santos tem pouco tem- po. A venda é boa, fica melhor na romaria”.

Foto: Rafael Vilarouca

Ele reclama do aumento dos aluguéis, que espantou os comerciantes locais, ficando a rua entregue a especuladores estrangeiros. “Os aluguéis variam em torno de cinco, seis, oito mil reais e chegam a dez e até quinze mil”. Insatisfeito com o tão propalado progresso da cidade, dispara: “O pequeno antes tinha condições de crescer, hoje não. Pequeno é pequeno. Grande é grande, e acabou”.

São sete horas da noite e os vendedores começam a se despedir. O ruído de muitas grades sendo abaixadas é a trilha sonora da rua, nesse despedir cansado. As luzes dos postes iluminam mal as calçadas, agora passagem vazia de quem pega a condução para voltar pra casa. Um cachorro fuça o lixo e a São Pedro esvazia de todo. Agora desprovida de gente e confusão, se mostra como realmente é: caminho feito de pedra e memória somente.

 

 

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".