Arte e Cultura

A paisagem interior e o sertão dentro da gente

Relembramos hoje uma reportagem especial sobre o poeta Patativa do Assaré, texto publicado na segunda edição da CARIRI Revista.
Por Cláudia Albuquerque • 31 de agosto de 2020
Foto: Tiago Santana.

Por Cláudia Albuquerque.

O sertão? “O sertão é do tamanho do mundo (…). O sertão está em toda parte (…). O sertão é sem lugar”. Foi o que disse Guimarães Rosa na voz do seu Riobaldo. Persuadido de que os cenários podem ilustrar sentimentos, assim como os sentimentos às vezes traduzem paisagens, o escritor mineiro celebrou em sua obra um vínculo afetivo difícil de ser rompido: “O sertão é dentro da gente”.

Outra forma de exaltar a mesma aliança é repetindo: “Vivo dentro do sertão e o sertão dentro de mim”. A frase, retirada do poema “O Retrato do Sertão”, abre o livro “Patativa do Assaré: O Sertão Dentro de Mim” (Gilmar de Carvalho e Tiago Santana), que mapeia em fotos e textos a geografia interior de um cearense que também carregou o sertão no peito. No caso, o sertão do Cariri, mais para o oeste da Chapada do Araripe, já nas fronteiras dos Inhamuns, onde se assenta a Serra de Santana da pequena Assaré, cidade que Patativa ajudou a pôr no mapa. Cantando.

Sertão, arguém te cantô
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
vejo que os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta
Que o poeta canta, canta,
E ainda fica o qui cantá

No livro, em P&B, imagens de um velho com nome de pássaro em seu sertão íntimo. Chapéu de massa na cabeça, óculos Ray-Ban disfarçando a cegueira, cigarro de palha entre os dedos, bengala no amparo do corpo frágil, um vira-lata manso por perto, a cadeira na varanda, a rede armada, a janela. Foram nove décadas de vida, mas Antônio Gonçalves da Silva (1904-2002) virou Patativa do Assaré ainda muito jovem. Nasceu filho de pequenos agricultores, passou poucos meses na escola, perdeu uma vista aos quatro anos, trocou uma cabra pela viola aos 16, foi roceiro, improvisador, violeiro, marido de dona Belinha e pai de nove filhos.

Patativa do Assaré pelas lentes de Tiago Santana.

Também teve composições imortalizadas na voz de Luís Gonzaga (“Triste Partida”, 1964) e Fagner (“Vaca Estrela e Boi Fubá”, 1980). Recitou muita poesia na Rádio Araripe do Crato, primeira emissora do interior cearense, amplificando sua arte pelos rincões mais inóspitos. Pouco afeito à efemeridade dos cordéis, sempre quis lançar um livro. Conseguiu publicar oito, e ainda gravou discos. Foi o homem por trás dos versos: “Eu sou de uma terra que o povo padece/ Mas nunca esmorece e procura vencer./ Da terra adorada, que a bela cabôca/De riso na boca na boca zomba do sofrê/Não nego meu sangue, não nego meu nome./Olho para a fome, pergunto: o que há?/Eu sou brasileiro, fio do Nordeste./ Sou cabra da peste, sou do Ceará”.

Maior poeta popular do Brasil, dizem alguns. “Um gênio”, acredita o pesquisador Gilmar de Carvalho. “Não teria outra palavra para defini-lo. Alguém a quem admiro pela força, pela sensibilidade e pela competência do discurso poético, que se faz político sem descambar para o panfleto ou para a militância estéril. Patativa amplificou sua voz, falou por todos nós. Foi nosso porta-voz, nosso intérprete. Lutou contra as injustiças sociais. E nos impressiona ao viver a poesia e fazer dela uma arma e um acalanto”.

O primeiro encontro entre o professor e o poeta, que se tornariam amigos fraternos, foi em 1993, numa das casas de Assaré em que viveu Patativa, ao lado da Igreja Matriz. Naquele ensolarado dia de outubro, após as horas de estrada que separam Fortaleza de Assaré, Gilmar se viu confrontado com o enigma. “Estava ali, diante dele. Era a esfinge que precisava ser decifrada. Aquele homem de metro e meio (…) era um monumento. Tínhamos a exata noção da sua grandeza ao vê-lo e ouvi-lo criar um poema que ficaria perdido, não fossem os atentos gravadores ou o peso da sua memória antológica”, recorda.

O fotógrafo Tiago Santana, por sua vez, que divide com Gilmar as páginas, intenções e intuitos de “Patativa do Assaré – O Sertão Dentro de Mim”, não possui a recordação de um encontro inaugural, pelo simples fato de ter convivido com o poeta desde criança. Tiago nasceu no Crato e viveu em Juazeiro do Norte, depois que seu pai, demitido por questões políticas, retirou a família de Fortaleza. “O Patativa esteve sempre presente na minha vida, amigo dos meus pais, sempre acompanhei os seus passos. Ele me ensinou a ver o sertão e a ver a grandeza dos lugares e das coisas simples. O sertão que carrego dentro de mim hoje é o sertão do Patativa”.

Foto: Tiago Santana

A esse sertão Tiago e Gilmar chegaram cada qual por seus atalhos, em períodos desiguais e com suportes diferentes, mas ao fim da jornada as fotos de um e os textos de outro resultaram numa obra deslumbrante e encantatória sobre um poeta popular que ultrapassou com o seu talento todos os rótulos que lhe foram dados – inclusive este, de poeta popular. “É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada”, brincou Patativa, que usava o dialeto matuto como recurso estético e laço de identidade, mas que também sabia compor em oitavas camonianas e arranjar sonetos alexandrinos de métricas bem acabadas.

Biógrafo e estudioso de Patativa, com várias obras lançadas sobre seu objeto de investigação, Gilmar de Carvalho escreveu, desta vez, um livro de amor, com uma leve costura saturada de afeto. Nos textos primorosos, recordações pessoais das longas conversas com o poeta, sua sociabilidade sertaneja, sua casa sempre aberta a todos, seus improvisos, suas influências, suas deambulações de violeiro antes de ancorar como poeta. “Durante anos a fio, nos finais de semana, Patativa fazia longas viagens em lombo de cavalo para se apresentar nos sítios e fazendas cujos donos o contratavam. Vestia paletó xadrez, gravata e segurava a viola como se fosse uma garrucha”, recorda Gilmar no livro, cujos 23 capítulos começam cada qual com uma letra do alfabeto, tal qual na modalidade de cantoria conhecida como ABC.

No livro, essas letras foram feitas em xilogravura pelo artista João Pedro do Juazeiro, um dos grandes nomes dessa arte antiga, que também assina as belas cenas em xilo da vida no campo. Xico Sá, jornalista radicado em São Paulo mas nascido no Crato, faz um texto de apresentação no qual recorda o dia em que, menino ainda, avistou Patativa na Feira do Crato. E conclui: “Guimarães Rosa na prosa e Patativa do Assaré em versos são os dois grandes tradutores dos sertões brasileiros”. Dos sertões e dos sentimentos, diria o poeta: “Saudade dentro do peito/ É qual fogo de monturo/ Por fora tudo perfeito/ Por dentro fazendo furo”.

Patativa morreu, mas seu canto ressoa. Em teses, monografias, dissertações, entrevistas e matérias de jornal. A palavra aprisionada em papel, mas também em vinil, CD, DVD e meios eletrônicos. Para todos os que quiserem procurar o velho de Assaré, pois como diria o também poeta Manoel de Barros: “Aonde eu não estou as palavras me acham”.

 

 

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