Arte e Cultura

A modernidade medieval de mestre Seleiro

Ser expedito é agir velozmente, porém sem perder a precisão. Santo Expedito era um militar ágil e habilidoso, hoje padroeiro das causas urgentes, protetor dos que não podem abrir mão da pressa nas graças. Espedito Seleiro, o mestre do couro de Nova Olinda, encarna com S a desenvoltura e a precisão do santo. Espedito homem é tradição, contemplação e modernidade. Em algumas horas de conversa com a Cariri Revista, o artesão contemporâneo, habitante do sertão, contou as suas histórias de coureiro, artista e designer de estilo em peças apresentadas no São Paulo Fashion Week para a grife Cavalera.
Por Redação Cariri • 29 de abril de 2019

Por Raquel Paris.

No começo, em 59, quando era só ele e a mulher Francisca, grávida do primeiro filho, era diferente. Muita dureza, dinheiro, nenhum. Nem ferramenta para o ofício tinha. De importante só a feira e a missa no domingo. “Como eu já vinha quebrado, sem dinheiro, resolvi botar a oficina aqui. E oficina, você sabe, a gente começa só com a cara. Pega uma ponta de ferro e faz uma sovela, pega uma faca de mesa e amola, bem amoladinha. Foi assim que eu comecei, nem máquina tinha, costurava tudo na mão. Só eu e minha mulher, enquanto eu fazia sela, ela costurava, e assim a gente ia até quando desse sono” conta o mestre.

Espedito Seleiro no ateliê é tão essencial quanto as peças que vende. Se ele não está, o cliente manda chamar. E não adianta ter pressa. Aperto de mão, foto, muita conversa. A camisa desabotoada, bermuda e chinela de dedo. Cada sandália, bota, bolsa, é feita sem precisar medir, e leva dias sendo confeccionada. Trabalho feito totalmente à mão, olhos atentos e muitas horas envergado sobre a máquina de costura. As peças únicas, originalíssimas, contêm a sabedoria de um ofício passado de geração em geração. O pai, Francisco Se- leiro, e antes dele o avô, Manoel Seleiro, passaram para Espedito a alcunha e o saber milenar de tratar, tingir, cortar, modelar e costurar o couro. Um ofício tão antigo quanto a arte de montar e adestrar um cavalo.

Detentor dessa sabedoria, transformou-a em design arrojado, de finos pontos, tão pequenos e per- feitos que é impossível copiar. Além da arte, quando faleceu, seu pai legou-lhe duas importâncias: a primeira foram as peças para sua oficina. A máquina de costura, alguns utensílios para modelar o couro e os moldes de selas e vestimentas dos vaqueiros — alforjes, gibão, perneira, chapéu, bornal, sela e arreios. O segundo legado, esse ainda mais importante, foram seus seis irmãos mais novos que ele teria que cuidar dali por diante. Ensinou-lhes o ofício e os tem até hoje trabalhando no ateliê.

Foi numa tarde de 1980 que Alemberg Quindins, seu amigo e hoje presidente da Fundação Casa Grande, também em Nova Olinda, lhe disse: “Espedito eu quero que você faça uma sandália diferente das sandálias que você já fez e tem por aí afora, a bicha pode ser feia, pode ser o que for.” Seu Espedito comenta que “Alemberg é cheio de presepada… “Aí eu pensei num modelo que meu pai fazia e dizia que era pro próprio Lampião. Ele contava isso pros amigos. Eu estava com os modelos guardados, ainda… E fiz um diferente pra Alemberg…” Nessa época o mestre vivia no sufoco.

Era obrigado a ir para a feira vender, e cada um pagava como queria. Um dia dona Violeta Arraes viu e perguntou quem tinha feito a sandália. Violeta Arraes Gervaiseau, que foi reitora da Universidade Regional do Cariri, secretária de cultura do Estado do Ceará, irmã do político Miguel Arraes, era uma intelectual dos círculos eruditos de artistas do Brasil e da Europa. “Quando eu dava fé ela chegava com os artistas amigos dela, só aquele povo importante”, lembra o mestre.

Em 2006 o trabalho ganhou expressão nacional e internacional, quando a marca Cavalera o descobriu e o convidou para integrar a coleção de verão, com seus sapatos, sandálias, botas e bolsas. “Um dia eu tava trabalhando quando um carro estacionou aqui na frente e eu só ouvi alguém dizendo: pode descer. É aqui mesmo que o homem mora”, relata seu Espedito. “Eram seis estilistas da Cavalera dizendo que queriam fazer negócio comigo, me encomendar 40 peças, mas que eu só tinha um mês de prazo. Aí a menina começou a fazer um desenho de um sapato. Eu disse a ela que me desculpasse mas que só fazia sapato de modelo meu. Se eles quisessem eu desenhava uns modelos, fazia e mandava pra eles ver. Se gostasse tudo bem, se não, eu vendia aqui mesmo”. Gostaram tanto que compraram todas as peças enviadas e encomendaram mais para fazer parte da coleção.

Logo depois a marca Cantão também convidou o artista a elaborar peças para a sua coleção. Quando os pedidos começaram a se tornar maiores que a produção, seu Espedito resolveu encerrar as parcerias. “Só a Cantão tem mais de 700 lojas, pra dar de conta tinha que ser uns 10 Espedito”, esclarece. Em 2007 Guel Arraes pediu-lhe que confeccionasse a vestimenta que Marcos Palmeira usaria em seu próximo filme, “O Homem que Desafiou o Diabo”. Fã confesso do artesão, o diretor foi um dos famosos que mais difundiu a sua arte.

A designer Juliana Loss, professora da Universidade Federal do Ceará, explica que essa arte é diferencia- da devido às leituras extremamente contemporâneas que o artesão faz do mundo à sua volta. “Espedito Seleiro está antenado com tudo o que o rodeia. É um artista antropofágico que absorve e retira o que há de melhor na moda contemporânea, conservando a autenticidade da cultura do couro”.

Os desenhos circulares que vemos na produção de Espedito são representações pictóricas que muito remetem aos expressivos volteios da iconografia andaluza, conforme interpretação de Juliana Loss. “É neste momento que percebemos toda a genialidade de Espedito. Ele prova que a tradição não perde sua autenticidade ao ser misturada com inspirações de culturas e povos diferentes. Muito pelo contrário, se atualiza e ganha uma linguagem mundial”, enfatiza.

A sandália que lhe deu fama, “Lampião”, inspirada no modelo de Virgulino e seus cabras, ganhou requintes e cores ao longo do tempo, inspiradas nas memórias afetivas do artista. Espedito conta que quando criança via bandos de ciganos passarem por Arneirós, cidade na região dos Inhamuns, onde nasceu. “A maioria dos ciganos andava esculhambada, mas o chefe não. Esse andava todo pronto e a montaria também. Eu ficava admirando aqueles desenhos e, baseado no que eu me lembrava, criei meus próprios modelos”.

Espedito confessa que não gostava de fazer produtos para o público feminino por uma boa razão. “Porque mulher é um bicho complicado. O modelo de homem que é essas botona que meu pai fazia, até hoje eu faço. Os homem compram, botam no pé e vão simbora. As mulher não. De 15 em 15 dias elas querem usar um modelo diferente. E eu digo: não vou fazer nada pra vocês não, são muito complicada. Você leva o tempo só fazendo modelo e no fim da semana, cadê o dinheiro? E não fazia a sandália. Mas aí eu fui castigado porque hoje só o que eu faço são coisas pras mulher, porque vende bem. A sandália a gente não tem produção pra dar conta”.

Seu Espedito ainda se sente o mesmo depois de todo esse sucesso? Afinal, até destaque do desfile da Cavalera, no 19° São Paulo Fashion Week, ele foi. Falta mais alguma coisa?

Suas palavras são de prazer, de harmonia e consciência do espaço que seu trabalho alcançou. “Eu me sinto como uma pessoa que tava morrendo afogada e foi puxada pra cima. Eu sentia como se tivesse uma coisa entalada dentro de mim. Eu sabia que tinha uma estrela, sabia que minhas coisas eram boas, bonitas e ficava pensando: meu Deus do céu, mas será que eu vou morrer e ninguém vai saber disso aqui? Era muita humilhação. Tentava vender minhas coisas, mas que- riam pagar umas mixaria porque sabe que o cabra tá precisado e é o jeito você aceitar. Hoje não. Não en- riquei porque não era pra enricar mesmo, mas minhas coisas tão aí no mundo. Todo mundo sabe onde é Nova Olinda, quem é Espedito Seleiro. Hoje eu sou um homem muito feliz e realizado. Graças a Deus.

O Mestre em casa, em Nova Olinda. Foto: Rafael Vilarouca

Nova Olinda

São 12 mil pessoas vivendo em Nova Olinda. Não tem fumaça, não tem poluição, não tem trânsito engarrafado, não tem roubo à mão armada, não tem sequestro… Nada disso tem em Nova Olinda. Tem a igreja matriz com a pracinha domingueira. As ruas calçadas de pedra, impossível de se perder. Tem cadeira na calçada, fanfarra de cinco pessoas fazendo barulho no coreto, meninada brincando despreocupada. Isso tudo tem em Nova Olinda. E tem em Nova Olinda, bem no meio da rua Monsenhor Alencar, n° 190, o ateliê e a casa de Espedito Veloso Carvalho, seu Espedito ou Espedito Seleiro, que da profissão tirou a alcunha, o sustento e a fama. É só entrar na cidade que lá está. Suspenso a uns dez metros do chão, o rosto de seu Espedito estampado num outdoor. É a primeira coisa que a gente vê.

 

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