Retrospectiva

A mãe de mil filhos

Marco histórico: Mãe Gulora foi parteira de 1.860 filhos e filhas de Altaneira
Por Redação Cariri • 10 de maio de 2019

Por Alana Maria.

 

“Não precisa ser letrada/ Nem mesmo ser diplomada/ Para um parto fazer/ A Medicina te aceita/ Mesmo sabendo a receita/ Como nascer um bebê”, cantaram os filhos de mãe Gulora em homenagem ao que seria seu centenário, caso estivesse viva em 2014, nas terras de Altaneira, a 67 km de Juazeiro do Norte. Toda uma geração da cidade foi pega pelas mãos calejadas de Maria Glória da Conceição, a Gulora. Em vida, seu ofício de parteira foi negligenciado pela autoridade pública, mas admirado pelas comadres e compadres que corriam em busca de sua ajuda: “Corre, chama Gulora, que o menino vai nascer!”. E ela ia, a hora que fosse. Hoje, a parteira batiza a maternidade do Hospital Municipal, ilustra empreendimentos locais, foi tema de pesquisa acadêmica e também personagem em exposição.

“Oh mãe Gulora/ conte a história/ Das noitadas fora de hora/ Que faziam tu correr”. O canto, de autoria de Maria Luiza de Oliveira, foi composto originalmente em 1991. Numa época em que tudo acontecia cedo demais, desde casar a morrer, Maria Glória largou a boneca de brincar aos 12 anos para socorrer uma senhora que estava “botando menino no mundo”. Não parou mais. Dizem que foi dom divino, que, sem aprender com ninguém, a menina sabia direito onde tocar e o que fazer. Não se puxa, não se apressa e não se arranca menino, ela entendeu. Só se pega. “Mãe só não fazia parto cesárea, porque não tinha as ferramentas”, conta a filha biológica, Maria Isabel, que é rezadeira. “Mas até desatravessar menino dado por sem jeito e buscar o ‘parto’, ela fazia”. Ao “parto”, ela se refere à placenta, que deve ser retirada para não causar infecção ou hemorragia.

Mãe Gulora com Manuela e Heloisa (Foto: Arquivo Pessoal).

Registro dos álbuns de família: Mãe Gulora com Manuela e Heloisa (Foto: Arquivo Pessoal).

Histórias não faltam. Em uma madrugada de 1973, a professora Hilda Cidrão se aperreou de dor e o marido correu em busca de Gulora, que foi a parteira de seu primogênito. Hilda declara com um sorriso calmo e saudoso: “Na hora da dor, ela falava para a gente se concentrar em Deus, pedindo força. Era tão carinhosa, ativa, esperta!”. E completa: “Não deixava a gente desanimar de maneira alguma”. Noite movimentada, na mesma madrugada em que aparou nas mãos um novo membro da família Cidrão, Gulora ainda amparou duas outras famílias.

É de conhecimento popular que Gulora é “mãe” de quase todos os altaneirenses nascidos de 1944 até 1995 – ano em que parou de “pegar menino”. Em 2004, por iniciativa do advogado Raimundo Soares, um levantamento dos “filhos” de Gulora reuniu a Rádio Comunitária e a população do município, incluindo o distrito de São Romão e os sítios vizinhos. O resultado da pesquisa contabilizou 1.860 filhos e filhas, do rico fazendeiro de gado à senhora que tira a renda da máquina de costura. Para se ter uma ideia, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/Censo 2000), a população de Altaneira em 2000 era de 5.687 habitantes – portanto, cerca de 32,7% dos moradores chegaram ao mundo pelas mãos da grande mãe-parteira.

 Nascida em 1914, lá pelas bandas de Alagoas, Maria Glória tinha 14 anos quando casou pela primeira vez. Teve dois filhos desse matrimônio. Do segundo vieram nove. Em 1944, a família chegou à Vila de Santa Teresa, mais tarde declarada município de Altaneira. Nem tudo foi bonito. “Nos largamos no meio desse mundo pelo sertão, sem conhecer ninguém. Ela se obrigou a pegar uma cuia, com um balaio na cabeça e alguns pratinhos de barro…”, lembra a filha Maria Isabel. Citando uma por uma as famílias que ali já viviam, ela ainda recorda os tempos de miséria que enfrentaram, alimentando-se de lascas de palma assada ou alga cozida da lagoa. “Nós já sofremos nesse lugar, minha filha”.

Da esquerda para a direita: Ana Lúcia (neta), Maria Isabel (filha) e Isabel Rodrigues (bisneta)

SAUDADE: da esquerda para a direita: Ana Lúcia (neta), Maria Isabel (filha) e Isabel Rodrigues (bisneta). (Foto: Hélio Filho)

E quando a vila foi se formando, espalhou-se pelos arredores a fama da parteira Gulora. Na época, sem hospital ou qualquer tipo de assistência médica por perto, a solução era se apoiar exclusivamente na sabedoria das parteiras. Pelo sangue da mulher, a paciência e a força para ajudar a vida a vingar. Pelo choro da criança, a felicidade e o alívio de uma missão cumprida, de um dom compartilhado. Gulora também era rezadeira e se agarrava com fé em Padre Cícero. Sempre com o rosário por perto, uma de suas receitas para a recuperação pós-parto era banhar o recém-nascido à luz de velas e guardar a água usada embaixo da cama da mãe, para que a criança crescesse boa e honesta.

O que se ouve pelas rodas de conversa nas calçadas de Altaneira é que mãe Gulora era casca grossa, uma “velha bruta”, mas tinha a sensitividade de um ser milagroso. Sentia o coração do bebê ainda dentro do útero. Sabia o que acontecia no interior da mulher em trabalho de parto tanto quanto um médico com anos e anos de estudos. E, sem arrogância, admitia a derrota quando não havia esperança: “Pode tirar fora (ir para o hospital), que eu não dou jeito”, dizia. Apesar de não ser a única parteira da cidade, era a mais procurada.

Mãe Gulora adorava uma boa festa, churrasco e café preto, assim como fumar tabaco no cachimbo, sentada na cadeira de balanço na calçada de casa, rasgando histórias a quem quisesse ouvir. Ela faleceu em 12 de fevereiro de 2009, aos 96 anos. Enfrentou, ao longo de dois anos, uma diabetes e uma trombose cerebral que a deixou cega de um dos olhos. Rodeada até a derradeira hora de seus 11 filhos biológicos e de tantos outros que ajudou a botar no mundo, dos familiares e dos amigos, Gulora partiu deixando um vácuo imensurável na história de toda uma cidade. “Ela morreu, mas sua voz ficou no mundo”, acredita Maria Isabel. E todos os altaneirenses.

TRADIÇÃO QUE RESISTE:

Estima-se que o Brasil tenha 60.000 parteiras tradicionais, entretanto, o Ministério da Saúde não consegue confirmar o dado real por falta de cadastramento nos estados e municípios. Um dos poucos que o fizeram foi Pernambuco, que em 2011 constatou a existência de 871 parteiras tradicionais. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), nenhum outro país faz tantas cesarianas como o Brasil, e isso não é boa notícia: 84% dos partos acontecem no sistema privado e outros 40% no SUS. A OMS recomenda a realização do parto natural humanizado com acompanhamento médico, reservando-se o ato cirúrgico apenas para casos de necessidade.

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