Arte e Cultura

A Batalha do Soldadinho

Um colorido exército de 10 mil espécies de aves agitam as asas pelo mundo, mas cerca de 12% delas estão ameaçadas de extinção. Nessa triste estatística o Brasil ranqueia o primeiríssimo lugar, com 114 espécies correndo o risco de desaparecimento.
Por Redação Cariri • 4 de novembro de 2019
Foto destaque: Rafael Vilarouca.

Por Raquel Paris.

Só no Ceará são 14 espécies ameaçadas, segundo a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis). Uma, em especial, preocupa os pesquisadores. Por sua fragilidade, sua população reduzida (somente 177 casais) e pelo fato de só ocorrer em uma pequena faixa da encosta da Chapada do Araripe, o Soldadinho-do-Araripe é alvo de estudos e cuidados. A ave símbolo da Chapada míngua e sufoca no esplendor das terras cariris.

Ela foi descoberta em 1996 pelo então estudante de biologia Weber Girão, numa expedição em companhia do professor Galileu Coelho, da universidade Federal de Pernambuco. Mal foi encontrada, já entrou na lista de aves em extinção. O habitat da espécie é restrito. Somente Crato, Missão Velha e Barbalha registram a presença alegre do soldadinho.

E foi em Barbalha, no distrito de Arajara, que fomos encontrar Sandoval Ribeiro, o morador que acompanhou de perto o “nascimento científico” da ave. Na casa avarandada, o quadro pendurado na porta de entrada revela a paixão do dono pelo passarinho que todos tentam proteger. Seu Sandoval abre a casa e o largo sorriso para quem, à sua semelhança, anda de apaixonamento pelo Soldadinho-do-Araripe.

Foi ele quem, anos atrás, em 1996, recebeu os ornitólogos Weber Girão e Galileu Coelho, para que os pesquisadores pudessem, pela primeira vez, observar um macho da espécie. “A gente via esse passarinho por aqui, mas não dava muita importância”, lembra seu Sandoval, que costuma abrigar estudantes e professores em sua casa, sem nada cobrar. Sertanejo típico — afável e acolhedor — ele é um militante convicto da causa do soldadinho.

Quando o ornitólogo Weber Girão chegou em Arajara, já encontrou seu Sandoval experiente no trabalho de apontar ótimos pontos de observação de aves. “Quando por fim avistamos e ouvimos o canto, percebemos que tínhamos nos deparado com uma espécie nova, que tínhamos encontrado uma preciosidade”, relembra Weber.

O passo seguinte foi fazer a descrição da ave, ou seja, dar um nome cientifico, mapear seu habitat, suas características, alimentação e acasalamento. Em 1998, a Ararajuba — como os moradores locais chamavam o pequeno pássaro de cabeça vermelha — ganhou um nome novo e pomposo. O registro de batismo está na Revista Brasileira de Ornitologia: Antilophia bokermanni, nome científico que homenageia o estudioso brasileiro Werner Bokermann.

Apenas dois anos depois do batismo cientifico, em 2000, o Soldadinho-do-Araripe já constava da “Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas”, feita pela união Internacional para Conservação da Natureza, a IUCN. Obedecendo a critérios precisos, a Lista Vermelha possui nove categorias, que vão desde “sem avaliação” até “extinto”. O Soldadinho-do-Araripe aparece na sétima categoria, como uma ave “criticamente em perigo”, a um passo de se tornar completamente extinta.

Em 2003, foi a vez do Ministério do Meio Ambiente listar o soldadinho como ave criticamente em perigo através da “Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção”. Segundo o pesquisador Weber Girão, existe no Ceará uma segunda espécie de ave criticamente em perigo de extinção, o periquito cara-suja. “Mas o periquito ainda pode existir em outros estados brasileiros, já o Soldadinho-do-Araripe, não. Ele só é encontrado nessa faixa de Chapada que vai de Crato a Missão Velha”.

Um ilustre sobrevivente

Há 15 mil anos, uma imensa floresta tropical cobria uma grande faixa de terra que ia do Norte ao Sudeste do Brasil, quando aconteceu a maior mudança climática e ambiental registrada na região. Da imensa floresta, restaram ilhas de vegetação: a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica e partes de mata que ocupam a Floresta Nacional do Araripe. Foi nessa porção de biodiversidade, que cobre a Chapada do Araripe, que o Soldadinho-do-Araripe se reproduziu e sobreviveu.

“É por isso que ele é um pássaro único. Por estar encerrado em um habitat restrito, as características adquiridas se fixam de geração em geração muito rapidamente, gerando um animal extremamente sofisticado”, explica Weber. Para atrair a fêmea, o macho canta e expulsa os concorrentes de seu território. Ela gera apenas dois filhotes por ano, tendo o macho como parceiro para a manutenção das crias. Após um período de até três anos, o filhote adquire plumagem de adulto.

A necessidade das nascentes d’água para a sua sobrevivência é um capitulo a parte na luta pela conservação do soldadinho. Não é coincidência que a ave só exista nos municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha. Estas cidades abrigam a maioria das 284 fontes de água catalogadas no Vale do Cariri. Para resguardar os filhotes de predadores, a fêmea do soldadinho faz seu ninho sempre em um curso d’água tecido precariamente a menos de dois metros do solo.

“As pessoas acham que o Soldadinho-do-Araripe só é encontrado na Gruta do Farias, em Barbalha, mas isso é um equívoco. Ele existe em 70 das fontes da região”, detalha Weber Girão. A Gruta do Farias é uma caverna com 2 metros de altura e 3 metros de largura. Em seu interior fica a fonte do Farias, uma das maiores em vazão da região do Cariri. Foi nesta fonte que Weber e o professor Galileu avistaram o primeiro Soldadinho-do-Araripe. E a partir da descoberta, erroneamente se propagou a informação de que a ave só ocorria no local.

“Quando se diz isso, lançamos a ideia de que as outras nascentes não precisam ser conservadas, o que acaba criando um problema imenso”, reclama Weber. Um exemplo: a fonte que fica próxima ao Clube Recreativo Grangeiro, no Crato, foi totalmente encanada para levar água ao entorno, desrespeitando a lei federal que exige que se mantenha uma vazão de pelo menos 20% da água no leito da fonte. Ali, o soldadinho resiste contando unicamente com a sorte. A água que ele utiliza para fazer seu ninho é a que escorre das fissuras do cano enferrujado.

Sinais de Conservação

A preservação das águas e das matas para a permanência do soldadinho na região é fundamental, mas o trabalho não acaba aí. “Não adianta preservar uma fonte e desmatar em volta. Temos hoje um total de 177 casais espremidos em uma pequena faixa de território. Com o trabalho de conservação, a tendência é que esse número aumente. E para onde vão esses novos Soldadinhos-do-Araripe? Temos que dar a eles espaço para sobreviver”, enfatiza Weber Girão.

O professor explica que o macho mais forte sempre fica com o melhor território, que dispõe de água e comida, expulsando os mais fracos, que vão se instalando em porções cada vez mais à margem, e consequentemente, com menos recursos. Com a marcha de desmatamento em curso em toda Chapada do Araripe, esses indivíduos simplesmente ficam sem ter para onde ir. O recurso da reprodução em cativeiro também está descartado, pois o soldadinho só vive na natureza.“O que todos têm que entender é que temos plena capacidade de salvar o Soldadinho-do-Araripe, mas é preciso proteger o ecossistema se quisermos avistá-lo ainda por aqui”, ressalta Weber.

Proteger o soldadinho é muito mais do que resgatar uma ave de sua extinção completa. É também salvar memórias, histórias de vida, identidades culturais. “Essa região era famosa pelo doce de buriti. Todo mundo que vinha ao Cariri saía carregado de doce, mas hoje, se você for procurar, praticamente não se acha. Porque o buriti desapareceu de nossa mata. O nome Araripe é proveniente de arara. Em toda essa Chapada havia revoadas de araras. E hoje, onde elas estão? Com a aniquilação das espécies também se aniquila a memória, a cultura”, reflete Weber Girão.

Nessa luta pela vida tal qual a conhecemos, é preciso o engajamento das novas gerações. Com 12 anos, Elói Ribeiro, morador de Arajara e filho de Sandoval, já compreendeu o valor e importância do soldadinho para o Cariri. Meio envergonhado, exibe o quadro que pintou do pássaro em prova de seu carinho. Quando indagado sobre a tela, ele não vacila. “Pintei porque o soldadinho é bonito, tem cores vivas e está em extinção. Ele também é muito importante para o nosso ecossistema e seria muito bom se as pessoas o tratassem melhor”.

 

 

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