Cariri Sustentável

10º geossítio do Geopark Araripe está em fase final de implantação

Serão três novos espaços no Cariri: Santa Fé, Caldeirão e Levadas
Por Bruna Vieira • 25 de abril de 2019

(Geossítio Santa Fé é o mais avançado em relação ao reconhecimento da Unesco. O local guarda símbolos arqueológicos da história do Cariri. Foto: Geopark Araripe.)

 

O 10º geossítio do Geopark Araripe está em fase final de implantação. Em breve o Cariri contará com três novos espaços: Santa Fé, Caldeirão e Levadas, todos em Crato. Além de mais ambientes de preservação ecológica e que guardam a memória da região, a visitação nesses locais impulsiona a economia, com crescimento da demanda de guiamento turístico. O mais avançado é o sítio arqueológico que carrega pinturas rupestres, possivelmente deixadas pelos povos kariris.

Há dois anos o Geopark Araripe discute a ampliação do número de geossítios com reconhecimento da Unesco. Segundo o diretor executivo do projeto, Nilvado Soares, esse trabalho já deveria estar pronto, mas, a morosidade se explica pela equipe reduzida e problemas internos. Por outro lado, o Cariri já pode se preparar para a abertura do geossítio Santa Fé. Com estudos concluídos, falta apenas a sinalização.

“Todo o inventário geológico, histórico e cultural. A documentação também foi feita, com encaminhamentos e submissão para a rede global, com mapas, localização de trilha, tudo georreferenciado. Falta sinalizar com totem, mas, já temos o material. Estamos aguardando complementos da Casa Grande, fornecendo a pintura para a identidade do geossítio, porque vai trabalhar mais a questão arqueológica, símbolos”, destacou Nivaldo.

Cada geossítio tem uma placa e na base uma representação, uma espécie de desenho que o identifica e diferencia dos demais. Santa Fé pode até ser aberto antes do reconhecimento da Unesco, no entanto, são necessários complementos operacionais. “Não é uma área pública, é preciso combinar com os proprietários, ligados ao Hotel Iu-á, para montar uma estrutura de recepção ao visitante. Os geossítios são reconhecidos em função das estruturas que estão lá, mas, a terra continua sendo do dono. Tem que encontrar maneiras para que as pessoas possam acessar, orientar a visitação”, esclareceu o diretor.

O paredão do geossítio Santa Fé servia de abrigo às civilizações primitivas. Foto: Geopark Araripe.

 

Gestão

O Geopark Araripe é ligado à Universidade Regional do Cariri, mantido pelo Governo do Estado, todavia, o acesso aos geossítios depende do grau de vulnerabilidade dos ambientes e da posse do local. Os guias de turismo auxiliam para que os registros históricos não sejam comprometidos. O ponto de fragilidade do projeto é que a entrada nas áreas depende da permissão dos proprietários, conseguida através de diálogo. O geossítio Pedra Cariri é o único totalmente gerido pelo Geopark Araripe.

No caso do geossítio Batateiras, localizado em uma Unidade de Conservação (UC) Estadual administrada pela Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema), a entrada é controlada, porém, sem restrições de acesso. Já na Floresta Petrificada, não há muito interesse dos proprietários em ampliar as visitações. O sítio Riacho do Meio é de gestão da Prefeitura de Barbalha. No novo geossítio, Santa Fé, o Geopark Araripe pretende dar um bom nível de gestão, uma vez que, os donos do lugar demonstram interesse no reconhecimento.

O corpo técnico de projetos atua em cinco setores: Desenvolvimento Territorial Sustentável e Geoturismo, Geoducação, Geocultura, Geoconservação e Comunicação. A demanda de pontos interessantes é grande. Cerca de 59 locais visitados pela equipe do Geopark se enquadra como geossítio. O projeto trabalha apenas com nove, para garantir uma boa assistência nesses ambientes. Segundo Nivaldo, embora não descarte a possibilidade, além dos três em questão, não será possível evoluir nos novos processos em 2019 e 2020.

 

Santa Fé

Cada um dos três novos geossítios trabalhados possui uma história que os tornam aptos ao reconhecimento da Unesco. “Santa Fé é uma área de meia encosta da Chapada do Araripe, tem um paredão de arenito com registros de pinturas deixadas por civilização de tempos remotos. Fala de uma população que viveu há milhares de anos e se abrigavam no local. Há quem diga que de lá eles observavam todo o entorno, um mirante contra os invasores em uma região muito disputada. Não era de acesso tão bom. A parede faz uma meia lua cobrindo a gravura, uma espécie de abrigo. Só pelo registro arqueológico já se torna um geossítio de muito reconhecimento”, revelou Nivaldo.

Há cerca de 5 km do Centro do Crato e há 500 metros da sede do Distrito Santa Fé, o caminho se abre ao novo geossítio. “Veículo não entra, só pedestre. Na trilha chega-se bem próximo ao paredão, sempre subindo, tem uma boa inclinação. Passou por processo de desmatamento e teve uma recuperação muito boa. A cobertura vegetal faz com que as pessoas observem na ida esse ambiente como um todo, não apenas as inscrições, como também a vegetação, aves, animais, som”, descreveu.

A paleontologia trata de animais fossilizados em processo de soterramento com água e clima favoráveis para transformá-los em pedra. Já a arqueologia são marcas deixadas por populações que viveram mais recentemente nesses ambientes. O novo geossítio dará suporte para pesquisas de arqueologia. Descoberto pela arqueóloga Rosiane Limaverde, após sua morte, os estudos tiveram continuidade com Heloísa Bitú. São riscados e pinturas com cores diferentes, possivelmente deixadas pelos índios kariris.

 

Geossítio Santa Fé:

Área: 8,43 ha

Distância: 5 km do Crato

Altitude: 725 a 815 m

 

Inscrições rupestres no geossítio Santa Fé podem ser marcas deixadas pelos índios kariris. Foto: Geopark Araripe.

 

Caldeirão

De forma geral, o processo de reconhecimento não demora. O tempo maior é a documentação necessária para todos os acordos, com mapas, dados, imagens e estrutura de sinalização obrigatória. O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no distrito Monte Alverne se destaca como potencial para geossítio pela sua história e religiosidade. “O beato José Lourenço realizou a primeira experiência socialista do Brasil e houve o envolvimento com o Padre Cícero. Por si só, já desperta curiosidade, possui um público e peregrinações em datas comemorativas. Também tem uma vegetação muito interessante, que está desaparecendo, como a umburana, madeira mole muito utilizada no artesanato. Mestre Noza usa muito e tem uma fauna bastante atrativa. A população é pequena e está dispersa”, elencou Nivaldo.

Os trabalhos no local não avançaram muito, pois pertence à Prefeitura Municipal do Crato, que apesar de estar de acordo com o projeto, ainda não realizou a medição da área. “Ficou de nos dar o perímetro, ou seja, um mapa que diga que propriedade é essa, seus limites. Para que em cima disso a gente possa começar o inventário. Tem um grau de complexidade pela vegetação, história e geologia. Parece que há uma questão fundiária com um ex-proprietário. Só podemos dar encaminhamentos maiores quando essas questões forem resolvidas. Possivelmente, esse ano, se a prefeitura concluir a planta, a gente comece a fazer o estudo, talvez seja até mais fácil que Santa Fé.”, justificou.

Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no distrito Monte Alverne aguarda medição da área para elaboração do inventário. Foto: Arquivo Cariri Revista.

 

Levadas

Levadas é a própria memória da partilha das águas na região. Em 1854, quando ocorreram conflitos acerca da divisão entre diversos fazendeiros que usavam essas nascentes para irrigar suas culturas, principalmente, a cana-de-açúcar, produzida em larga escala no Crato e que dominava toda a encosta da Chapada. “O governador da província naquela época designou que uma Câmara de Vereadores fizesse a divisão das águas nas levadas. Cada proprietário tinha seu número de dias com água destinada à sua propriedade. Tem ainda a lenda da Pedra da Batateira que está ligada à água e, consequentemente, às levadas”, narrou Nivaldo.

“Outra coisa muito interessante é a água como produtora de energia. Me parece que a segunda hidrelétrica do Brasil a funcionar a partir da nascente da Batateira. Levadas é o mais trabalhoso, porque passa por diversas propriedades, tem que ter diálogo com muita gente. E a questão do acesso também, para estabelecer como área de visitação. Tem uma parte até boa que está praticamente pronta. O que atrasou mais é que o Geopark assumiu muitos compromissos com nossos parceiros e a gente não teve pernas para avançar. Temos uma equipe que, de certa forma, é pequena”, ponderou.

 

“Levadas tem muita coisa ligada à história da água, o ambiente é muito agradável e é muito legal fazer esse tipo de passeio todo o tempo no entorno da lateral da levada, a água correndo”. – Nivaldo Soares, diretor executivo do Geopark Araripe.

 

Geossítios Cariri:

  • Colina do Horto (Juazeiro do Norte): área pertence à Fundação Educativa Salesiana Padre Cícero;
  • Cachoeira de Missão Velha (Missão Velha): parte da área é privada e outra, de domínio de rodovia estadual/Governo do Ceará (pública);
  • Floresta Petrificada do Cariri (Missão Velha): propriedade privada e fechada (a entrada só é permitida com guiamento);
  • Batateiras (Crato): área do Parque Estadual Sítio Fundão (UC)/ Governo do Ceará (pública);
  • Pedra Cariri (Santana do Cariri): parte da área é privada e outra de domínio do Governo do Ceará (pública);
  • Parque dos Pterossauros (Santana do Cariri): propriedade da Urca, Governo do Ceará (pública);
  • Riacho do Meio (Barbalha): área da Prefeitura Municipal (pública);
  • Ponte de Pedra (Nova Olinda): área quase total de domínio de rodovia estadual/ Governo do Ceará (pública);
  • Pontal da Santa Cruz (Santana do Cariri): área da Prefeitura Municipal (pública).

 

Guias – fomento de empregos

O surgimento de novos geoparques aumenta a demanda pelos serviços de guia turístico, profissão que ganhou destaque na região a partir do projeto. “Antes não existia guia de turismo no Cariri. Existiam pessoas que conheciam algumas trilhas. Com a instalação do Geopark, houve a necessidade de ter guia com formação. É uma profissão regulamentada pelo Ministério do Turismo. A primeira turma se formou por uma parceria entre a Urca e o Senac, um curso longo, de 800 horas, que já está na quinta edição”, complementou.

Uma das vertentes do projeto Geopark é a geração de emprego e renda para a região. Para Nivaldo, a visita aos geossítios sem guia pode fazer com que o visitante deixe de conhecer aspectos importantes. “O Geopark não faz guiamentos, nós apoiamos. Existe uma associação de guias que faz roteiros de acordo com o desejo dos grupos, que lugares quer conhecer, o tempo que quer demorar neles, o que pretende comer ou comprar. É capaz de prestar um bom serviço porque tem domínio do território”, concluiu.

 

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".