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Vossa Excelência do sertão paraibano: Pedro Revoltoso

“Mas ponha-se um árbitro insubornável diante de um vigarista. E verificaremos isto: – falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna inexequível o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desaparecimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos”. Nelson Rodrigues, Manchete esportiva, 31/12/1955.

Nas manhãs de segunda-feira, a tônica dos programas esportivos, no rádio ou na tevê, passa pelos “erros da arbitragem”. No fim da tarde, depois do trabalho, é o assunto do boteco. “Foi pênalti?”. “Foi fora da área?”. “Ele merecia ser expulso?”. Acabe com as polêmicas e dê fim ao futebol.

Imaginem o Nelson sabendo que inventamos chip na bola, árbitros de linha de fundo e discutimos a inclusão de replay dos “lances duvidosos”. Mas nunca irá acabar. Todo fim de semana é a mesma coisa. Horas de discussão sob o mesmo lance. Hoje, há uma busca incessante por “justiça” no futebol. Não importa a emoção. Vide a fórmula dos pontos corridos, que premia o time mais regular, mas chateia boa parte do campeonato.

Sem o “mata-mata”, resta para o jornalista falar de arbitragem. Jogador não se mete mais em confusão. Luxemburgo não precisa convocar coletiva de imprensa para explicar casos de orgia na concentração do Corinthians, por exemplo. Tá faltando um tempero.

Pedro Revoltoso, árbitro do quadro da Liga Cajazeirense de Desporto (FOTO: Arquivo Pessoal)

Pedro Revoltoso, direita, árbitro do quadro da Liga Cajazeirense de Desporto (FOTO: Arquivo Pessoal).

Mas o que diriam os jornalistas se conhecessem Pedro Revoltoso?

Pedro Revoltoso foi um árbitro do município de Cajazeiras, Paraíba, a quem o cronista esportivo, Foguinho, falecido em 2014, classificava como “um dos árbitros mais venais da história do futebol”. Pedro, que faleceu em 2013, era um cidadão muito popular na cidade paraibana. Foi atleta amador e árbitro da Liga Cajazeirense de Desporto, e trabalhou durante sua vida como porteiro.

No ano de 1961, o Treze Sport Clube, time de Juazeiro, presidido e treinado por Antonio Coimbra, o popular Mascote, foi convidado para enfrentar a seleção local de Santa Helena, Paraíba. Conhecido como “Galo de Mascote”, o Treze costumava jogar em outras cidades, pois era o melhor time do interior do Ceará. Craques como Quixaba, Rodrigues, Doca e Darim, formavam a equipe mais vitoriosa da terra do Padre Cícero nos anos de 1950 e início de 1960.

No dia 12 de dezembro, aniversário do município de Santa Helena, aconteceu a partida amistosa. Mascote, convidado para almoçar com o prefeito da cidade, discutiam sobre a partida. Confiante, o chefe do município alertava:

– Mascote, meu time está com 36 jogos invictos e não é hoje que nós vamos perder.

– Não seu prefeito, nós estamos aqui para participar de sua festa. Mas por falar no jogo, quem será o juiz? – perguntou o presidente do Treze.

– Será Pedro Revoltoso – respondeu, sorrindo, o prefeito.

Treze Sport Clube (FOTO: Arquivo Pessoal)

Treze Sport Clube (FOTO: Arquivo Pessoal)

De tarde, a partida começou. O Treze, muito superior ao time local, foi logo abrindo o placar: 1 a 0.  Logo em seguida, o jogador de Santa Helena caiu na área e Pedro Revoltoso marcou um pênalti para o Santa Helena. 1 a 1. O Galo, novamente, foi lá e fez outro gol. Mesmo assim, o juiz marcou outro pênalti duvidoso. 2 a 2. O Treze foi lá e fez 3 a 2. Revoltoso marcou outro pênalti. O zagueiro do time da casa já se encaminhava para bater o pênalti, mas Pedro Revoltoso o impediu:

– Calma, deixe para você bater o outro pênalti que vou marcar. – já antecipando.

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