Revista 1

Vida nua e crua

Há alguns anos, a chamada “alimentação viva”, ou crudivorista, decidiu aposentar o fogão, celebrar os crus e estabelecer novos hábitos à mesa. Há quem rejeite, mas muitos alegam benefícios incontestes à saúde.

Eles bebem suco da luz do sol e leite de gergelim, lancham pão de sementes germinadas no ar, almoçam macarronada de centeio com abóbora crua e, de sobremesa, saboreiam creme de abacaxi com cobertura de… flores? Pode parecer bizarro, mas não estamos falando de nenhuma dieta maluca – do tipo “perca já aqueles quilinhos a mais” – ou de alguma nova sensação promovida por revistas de beleza. Na verdade, a culinária crudivorista não tem nada a ver com vaidade. Ela se baseia na conservação da vitalidade dos alimentos naturais e orgânicos para beneficiar a saúde. Para isso, larga mão do fogão e da geladeira – sentenciados de “matar” os alimentos. Nesse prato, só comida viva!

Além de uma doutrina alimentar que busca ao máximo o respeito com o meio ambiente, o crudivorismo também se baseia na ciência, que aciona o trabalho das enzimas como argumento. Acontece que as enzimas são as grandes responsáveis por levar nutrientes às células e, sem essa atividade, simplesmente não haveria vida. Ao longo dos anos, de forma natural, nosso corpo vai diminuindo sua reserva de enzimas. Para alguns pesquisadores, como o nutricionista Edward Howell, essa perca nos torna mais vulneráveis a doenças. Os alimentos crus, que não podem ultrapassar 40°C, por sua vez, são grandes fontes de enzimas, que facilitam tanto a digestão, quanto servem para evitar o desgaste de nossa reversa particular.

Mandala alimentar: trabalhando melhor as formas e cores das frutas.

Mandala alimentar: trabalhando melhor as formas e cores das frutas (Fotos: Rafael Vilarouca).

Defensores da “alimentação viva”, como a Associação Terrapia, referência nacional na área, apontam o que podem ser vestígios desse tipo de nutrição ao longo da História: desde antes da descoberta do fogo, passando por possíveis estudos de Hipócrates (400 AC) e experimentos dos povos Essênios, no Antigo Egito, na importância do alimento cru, como da Dra. Ann Wigmore, autora de 15 livros responsáveis por popularizar o movimento crudivorista na década de 1980, nos Estados Unidos.

CRUZINHANDO

Ela veio de uma família de amantes de churrasco, mas agora em seu cardápio só entram sementes germinadas, frutas, flores, verduras e legumes – sempre frescos, orgânicos, crus ou desidratados. Foi por acaso, há oito anos, que a carioca Luana Lanzana, 31, conheceu a dieta crudívora. Desde então, abriu mão de cozidos, assados, fritos e também da maioria dos alimentos de origem animal para abraçar o que ela considera qualidade de vida e um relacionamento mais consciente e equilibrado com a natureza.

Acadêmica de Educação Física, Luana mora no Cariri desde 2013, com sua companheira Anna. As duas são clientes assíduas da Feira Agroecológica do Crato, onde, toda sexta-feira, compram legumes e verduras de pequenos agricultores da região. Em casa, por não terem fogão e nem geladeira, nada se guarda ou se desperdiça. E como todos os alimentos são mantidos in natura, o que estraga com o tempo vai para a compostagem e vira adubo para a horta caseira. Apesar de achar esse tipo de alimentação mais cara e mais trabalhosa, Luana considera o resultado digno do esforço.

Essa fé não vem à toa: ela constatou na pele os benefícios da alimentação. Com uma taxa de glicose que chegava a 385 mg/dl (o normal varia entre 70 e 110 mg/dl), ela resolveu introduzir o “suco da luz do sol” em sua dieta básica, ainda em fase de adaptação ao crudivorismo. Após 40 dias alimentando-se apenas de crus, de naturais e do suco de nome curioso, refez o exame: a taxa baixara para 85 mg/dl e, desde então, não tem grande alteração. Mesmo sem saber explicar por A + B como isso aconteceu, Luana atribui a conquista ao bendito suco, que é feito de maçã, folhas verdes, sementes germinadas – sem uma gota de água! – e tem ph alcalino, com propriedades curativas.

Luana: os crudivoristas buscam harmonia

“Para mim a melhor expressão para definir a alimentação viva é ‘religar com a natureza”, diz Luana, explicando que após aderir à culinária crudivorista, passou a ter mais sensibilidade e contato com o meio ambiente. “A melhor metáfora para isso seria o filme Avatar”, exemplifica, citando o longa de James Cameron, lançado em 2009, que arrebatou bilhões com um enredo que trabalha a profunda relação de nativos com a mãe-terra e o conflito humano de corrompê-la.

Mas nem tudo são flores. Como explica a nutricionista clínica Alandya Beserra, ao mesmo tempo em que esse tipo de dieta é rica em vitamina A, fibras, antioxidantes e tem baixo teor de sódio, gorduras trans e saturadas, apresenta deficiência em nutrientes como a vitamina B12, Ferro, Zinco e Ômega-3 – o que pode ser fator para doenças cardíacas.

“A modificação enzimática acontece durante a cocção (cozimento) e alguns alimentos diminuem suas características nutritivas naturais, porém, existem muitos estudos que apontam o contrário”, pontua Alandya, citando a pesquisa de Carolina Bonfanti Fiori, publicada em 2010. Esse estudo mostra que há significativo aumento de nutrientes em determinados alimentos aquecidos a 100ºC, ao mesmo tempo em que outros, quando aquecidos até 75°C, apresentam modificação nas taxas de proteínas.

Apesar de manter uma dieta 80% crua e 20% cozida – com direito a leite de vaca e chocolate durante a TPM – nos últimos meses, Luana tem comido “todo tipo de porcaria: carne, salgadinho, pizza, refrigerante…”, enumera. Mas ela tem uma boa desculpa para isso. Logo iniciará um estudo sobre o que acontece com o corpo durante a transição da alimentação cozida para a crua. A princípio, ela mesma será o objeto da pesquisa, por isso a volta ao cozido. Antecipando a teoria, lembra de quando passou pela transição pela primeira vez: “Geralmente é tão forte que se assemelha à desintoxicação de drogas”, afirma. Apesar da companhia de sua namorada, que também é adepta da “alimentação viva”, Luana recebeu a recomendação de, nessa fase difícil de readaptação alimentar, ficar em retiro junto a outros crudivoristas mais experientes no interior do Rio de Janeiro.

Bananas no forno solar viram doce.

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SUCO DE LUZ DO SOL

Ingredientes:

03 maças picadas

04 folhas de couve e hortelã

02 punhados de sementes germinadas (pode ser linhaça, alpiste, girassol  ou trigo)

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Preparo:

Sem acrescentar água, e aos poucos, bata as fatias das maçãs e as folhas no liquidificador. Use pepino de socador para extrair o líquido dos alimentos. Bata um pouco mais. Coloque os grãos germinados e o restante das folhas. Bata até estar líquido. Use as mãos e um pano limpo para coar o suco. Beba assim que pronto.

 


Originalmente publicada na Edição 23 da CARIRI Revista. No site, publicada em 8 de janeiro de 2016.

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