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Vem ver! O teatro chegou

Um projeto de democratização da arte e cultura do Sesc Cariri leva espetáculos de grupos locais e nacionais de teatro, dança e circo para pequenas cidades sem contato com a experiência artística.

Ano após ano, esperamos ansiosamente pelo anúncio da programação que fará a cultura caririense efervescer em cinco dias intensos. Estou falando da Mostra Sesc Cariri de Culturas, um evento camaleônico fomentado pelo Sistema Social do Comércio Nacional e executado por sua regional no Cariri. Nesses dias de sol, um projeto, o Circuito Patativa do Assaré, destaca-se pela grande ideia de difundir as artes cênicas em cidades que frequentemente não têm qualquer contato com elas. Este ano, o Circuito ganha nova formulação, desta vez menos burocrática e mais desfragmentada, unificando dança, teatro e circo em um programa abrangente que dura o ano inteiro: o ArteEncena.

Uma ideia simples, mas ousada, e que poucos conseguem de fato efetivar. A proposta de fomentar, incluir, potencializar e difundir as artes cênicas, descentralizando-as do eixo Crajubar — algo que o Circuito Patativa do Assaré começou durante a Mostra Sesc e agora o ArteEncena levará a cabo —, pretende ser muito mais do que a armação de palco em uma cidade do interior. Sua concepção e seu argumento é um elogio à própria diretriz do programa cultural do Sesc: diz respeito a sensibilidade para com o público, valorização do artista, cultivo do diálogo e reflexão crítica a partir do entretenimento qualificado e democratizado.

Pelo menos 14 cidades da região do Cariri participam como parceiras do projeto e recebem, na porta de casa, espetáculos, oficinas e demais atividades culturais gratuitas nos eixos dança, teatro e circo durante todo o ano. Diversificado e contínuo, o ArteEncena se inspira no já consolidado projeto nacional Palco Giratório para realizar sua própria versão, dentro de seus limites e seguindo fiéis às características caririenses de ser.

A polifonia cultural trabalhada pelo ArteEncena chama a atenção. Abriga e promove grupos teatrais, circenses e de dança regionais e nacionais, proporcionando o encontro de artistas de São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Bahia e demais estados brasileiros. Dele participam jovens, crianças e adultos de cidades como Altaneira, Abaiara, Aurora, Barro, Caririaçu, Milagres, Missão Velha, Penaforte e Porteiras. “O objetivo é descentralizar a arte e a cultura, difundindo-a para cidades que, sem ela, não teriam chances de vivenciar essas experiências dessa qualidade e, a partir disso, construir pontes de intercâmbio e diálogos artísticos entre as instituições, artistas e públicos”, diz Françói Alcântara, técnica programadora e produtora cultural do Sesc no projeto.

 

Espetáculo infantil em Nova Olinda durante a edição 2017 da Mostra Sesc Cariri de Culturas (Foto: Jr Panela)

 

Os artistas da casa também têm sua oportunidade e são inseridos nesse roteiro de apresentações. Para Jean Nogueira, ator e diretor teatral do grupo Livre Mente, o ArteEncena e o Sesc impactam diretamente na valorização do teatro. Grupo com 32 anos de carreira, o Livre Mente já se apresentou em mais de 120 municípios por projetos do Sesc Cariri e Sesc Ceará. “É sempre uma alegria e uma aventura nos apresentamos nessas cidades, porque o público responde com autenticidade e isso é muito gratificante”, declara o representante do grupo à frente de Esperando comadre Daiana, A comédia da fome e A trilogia nordestina.

Não é de se espantar que muitos cidadãos destas cidades afirmem ter visto seu primeiro espetáculo teatral da vida em uma apresentação organizada pelo projeto em parceria com a Secretaria de Cultura daquele município. Sabe-se da necessidade de construção e fortalecimento de políticas públicas voltadas para a cultura. Além disso, é importante destacar o papel que o como o terceiro setor tem neste processo. “As cidades têm seus problemas particulares e muitas delas não têm estrutura necessária para acolher determinados eventos que adoraríamos realizar, mas também existe uma imensa fragilidade do que se entende por cultura. Então nossa missão como Sesc é realizar esta função social”, Françói explica.

A cada mês são realizadas de três a cinco apresentações nas cidades, de acordo com a demanda do município e a programação própria da instituição Sesc. Françói Alcântara explica que a escolha dos grupos e espetáculos é feita a partir de suas especificidades, tendo em vista as potencialidades e deficiências de cada local. “Se o espetáculo precisa de um certo nível de intimismo, não posso acomodá-lo em praça pública. O local mais adequado seria o interior de um teatro. Se estamos dentro da programação de festa do município, por exemplo, e o tempo disponível é 20 minutos, colocarei uma esquete de comédia dramática, onde o tempo da piada é mais rápido, e não um drama que requer 40 minutos para conquistar o público”, elucida.

“Somos responsáveis por dizer a um público de 350 pessoas (estimativa por apresentação) que aquilo o que estão assistindo é teatro”, a produtora afirma, explanando a dimensão da responsabilidade. Ela mesma, atriz de formação, diz ter sido formada a partir do trabalho do Sesc nas artes, que a deu possibilidades culturais para além do forrozão que reina em cada esquina das cidades. Há algo mais adiante, mais profundo. “Hoje, estar com a incumbência de continuar essa missão faz de mim uma pessoa realizada. E ver os sorrisos despertos na plateia alimenta o amor pelo trabalho”, declara.

Durante os cinco dias de Mostra Sesc, estima-se que duas mil pessoas assistam às apresentações do Circuito Patativa, que chega à 12 cidades, o que nos dá uma noção mínima de público participante do ArteEncena durante o ano todo. A interferência da arte em uma pequena cidade causa alarde e, do pequeno ao mais velho, todos se remexem curiosos para assistir ao espetáculo. É um acontecimento único, tal qual a chegada de um circo, movido pelo poder da curiosidade. Acredita-se que desse contato novas possibilidades possam surgir, inventando novos futuros e desejos para aqueles que foram comovidos pela teatralidade.

 

Espetáculo em Barbalha (Foto: Davi Pinheiro)

 


Reportagem realizada em 2016 e publicada na edição 30 da CARIRI Revista.

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