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Uma escolha que vai além do prato

Por Andressa Figueiredo  | Editado por Alana Maria

Você já pensou em cortar todos os tipos de carne da sua alimentação? Para alguns pode parecer uma ideia distante, mas o número de vegetarianos cresce no país. Em média, 8% a 9% da população brasileira fez essa escolha e 28% estão tentando comer menos carne, segundo um estudo da Target Group Index, realizado pelo IBOPE em 2013. O percentual se refere a 15,2 milhões de brasileiros que eliminaram a carne e seus derivados do cardápio diário.

Questões éticas, filosóficas, nutricionais e políticas estão envolvidas na decisão de ser ou não vegetariano. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, se a população mundial adotasse uma dieta vegetariana, a emissão de gases poluentes consequentes da produção reduziriam em otimistas 60%. Também haveria redução de 1,5 milhão de litros de água na produção dos alimentos, como aponta o National Geographic.

Não fossem os benefícios sociais de uma dieta menos carnívora ao meio ambiente, há também motivos suficientes quando o assunto é crueldade animal seja no abate indiscriminado em pequenos açougues, na criação em larga escala ou na própria exploração animal na indústria do leite, por exemplo. Organizações de defesa estimam que, por ano, 70 bilhões de animais terrestres sejam mortos com destino à alimentação.

 

RELATO DE UM CARIRI VEGETARIANO

São 10h40 de uma manhã de sol farto em Juazeiro do Norte. Por entre o intenso burburinho e corredores apertados do mercado público do Pirajá, a professora universitária, Camila Prado procura pelos alimentos que irão compor seu cardápio semanal. Ela conta que devido a correria do dia-a-dia costuma comprar em supermercados, mas a variedade de cores e aromas do Mercado do Pirajá chamam sua atenção. “Além, é claro, do sorriso sempre simpático dos vendedores que mantêm suas banquinhas no local”, ri.

Em pouco tempo, as três bolsas de feira – sim, bolsas, pois ela dispensa as sacolas plásticas e o meio ambiente agradece – já estão abarrotadas com tudo que necessita. Cebola, tomate, alface, abacaxi, feijão verde, couve-flor, cenoura, beterraba, berinjela, limão, maçã, uva, pepino, carne… Opa, carne não! Em sua casa esse tipo de alimento não entra.

 

Camila, vegetariana, prefere produtos orgânicos vindos da agricultura familiar (Fotos: Andressa Figueiredo)

 

Vegetariana há treze anos, Camila coleciona motivos para sê-lo. Os benefícios para a saúde e a batalha contra os maus-tratos aos animais são suas principais razões. “Os bichos são criados para serem carne. As galinhas são aprisionadas em jaulas com uma luz incansável o tempo todo sobre elas para botarem ovos. E muito hormônio é injetado nas vacas. Não quero financiar esse modo de produção que trata o animal como uma coisa”, afirma. Fatores ambientais, como o desmatamento para criação de pastos e produção exacerbada de soja e outros transgênicos, reforçaram sua decisão.

Não foi a primeira vez que parou de comer carne, já havia ficado três anos em outra ocasião e voltou por convenção social. “Achava muito chato ficar dizendo ‘não, eu não como isso’ e acabei voltando. Essa parte é complicada. Mais até do que ter vontade de comer carne”, admite.

Tentou ser vegana. Entretanto, a rigorosidade de uma dieta isenta de todo e qualquer produto de origem animal só foi viável por seis meses. “Acho bem bacana o veganismo, mais que o vegetarianismo, só que é difícil. Para comer fora, por exemplo, baião e macaxeira: o baião tem creme de leite e queijo coalho, a macaxeira tem manteiga. No supermercado tem que olhar rótulo de tudo”, lamenta.

 

Variedade é lema no Mercado do Pirajá, em Juazeiro do Norte (Fotos: Andressa Figueiredo)

 

No Cariri, as opções são ainda limitadas. Geralmente vegetarianos precisam tomar bastante cuidado na hora de escolher suas refeições. “Eles não nos levam a sério ou não se importam. Você pergunta se tem carne e dizem que não. Quando morde, encontra presunto”, Camila relata a situação desagradável. Outra vez foi enganada pela proprietária de uma pensão onde morou. “Ela fez feijoada e botou o feijão para mim. Provei e pensei ‘isso tem carne’, perguntei e ela garantiu que não, que era só alho e outros temperos. Comi e depois passei mal”. O fato, Camila explica, é que após um período sem a proteína animal, o corpo estranha quando acontece novamente a ingestão. “É algo pesado”.

Natural de Petrópolis, fez no Rio de Janeiro um curso rápido de culinária vegana assim que decidiu banir a carne de seu cardápio. Começou a praticar. Fez pesquisas e comprou livros de receitas. Hoje se vira bem. Em casa cultiva rúcula, tomate, hortelã, pimenta, cebolinha e outros itens do gênero. Mora há 9 anos nas terras caririenses, mas desconhece o sabor dos pratos típicos da região. “Já cheguei vegetariana e não provei mungunzá, buchada, panelada e essas outras coisas que são daqui”.

 

Vegetarianismo - Camila Prado - Andressa Figueiredo - Alana Maria - CARIRI REVISTA

“É até engraçado, você tira cinco, seis coisas da sua dieta e já acham que está mudando tudo completamente, mas não”, afirma a professora, que prefere o prato bem colorido (Fotos: Andressa Figueiredo)

 

Então, o que um vegetariano come? Tudo.

“É até engraçado, você tira cinco, seis coisas da sua dieta e já acham que está mudando tudo completamente, mas não. Só não como carne: peixe, frango, boi, porco e frutos do mar. É pouca coisa perto da imensa variedade de verduras, legumes, frutas e sementes”.

Castanha, nozes, amêndoas, cogumelos e grãos incrementam sua dieta e garantem muitos dos nutrientes de que precisa. Vontade de comer carne raramente tem. A preocupação com os animais sempre fala mais alto. “Os vegetais também são vivos, mas a grande diferença é que os animais têm um sistema nervoso que os fazem sentir as coisas. Não sou militante e não acho moralmente incorreto você comer carne. Mas poderíamos encontrar outras maneiras. A gente acha que dá mais trabalho, mas não dá. Rapidinho faz uma salada. É gostoso, é nutritivo e ver o colorido das frutas e verduras ajuda. No mercado, a parte mais horrorosa, qual é? É a da carne. É brutal”, defende a professora, reconhecendo a forte ligação cultural que os brasileiros mantêm com a carne.

Em sua cozinha, legumes e verduras são picadas e misturadas ao trigo (para quibe) e limão dando origem ao tabule – deliciosa e nutritiva salada árabe que agrada os olhos pelo colorido. O sabor é um carinho para o paladar. Quem pensa que vegetariano vive só de alface e soja, está muito enganado.

Muda cresce em sua horta doméstica (Foto: Andressa Figueiredo)

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