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Uma Kombi e um mundo de cordel

por Roger Pires para edição 05 (Set-Out 2011)

A Kombi reformada não é o que chama mais atenção na história de Antônio Higino. Após a participação no programa Caldeirão do Huck, o comerciante já volta à rotina normal de trabalho, alterada apenas por algumas intervenções de curiosos que querem ver de perto o carro modificado pela equipe do quadro Lata Velha, um dos sucessos da Rede Globo. “Esse é aquele senhor da Kombi?”, pergunta alguém que passa pela rua. É ele sim. Mas independente do carro, Higino sempre será o senhor da Cordeoteca do Crato.

“Eu vou buscar os cordéis que deixei na semana passada e coloco mais oito”. É assim que ele explica como funcionam os pontos de leitura de cordéis na cidade caririense. Caixinhas pregadas nas paredes abrigam os cordéis deixados por Higino, à disposição das pessoas que frequentam os oito locais agraciados. Entre clínicas, hospitais e órgão públicos, as obras de literatura popular circulam e são lidas. “Eu chegava nas clínicas e via revistas de fofoca.

Achamos que o cordel poderia amenizar o clima de espera. É como uma terapia”. Achamos, e não “eu acho”. Higino recorre ao plural para falar das ações, das ideias e dos projetos futuros. Sinal de humildade e reconhecimento ao trabalho dos parceiros identificados por ele como “conselheiros”. Os radialistas William Brito e Seu Zezé e a cordelista Josenir Lacerda ajudam a divulgar e apóiam o trabalho do nosso personagem. “O trabalho de Higino é de suma importância. Ele divulga a literatura de cordel, incentiva a leitura. Às vezes uma pessoa pega um cordel e já usa um tempo que era ocioso pra despertar para leitura”, comenta Josenir.

Além de abastecer os pontos de leitura semanalmente, Higino leva em sua Kombi uma locadora de cordéis. Um catálogo com todas as capas está disponível aos interessados e o empréstimo é gratuito. O único compromisso é a devolução. “A locadora funciona a partir do interesse das pessoas. É só falar comigo e escolher o cordel”, explica ele.

O trabalho que Higino faz não necessita de muitos recursos financeiros. A motivação que ele tem e a vontade de propagar a cultura conseguem manter o projeto, mas ele tenta ampliar a atividade. “Inscrevemos um projeto no Ministério da Cultura para conseguir financiamento e levar os cordéis para as escolas, mas não passou, não sei bem o motivo”, comenta em tom de frustração.

Com a Kombi reformada, Higino tem mais mobilidade no dia-a-dia (Foto: Rafael Vilarouca)

Com a Kombi reformada, Higino tem mais mobilidade no dia-a-dia (Foto: Rafael Vilarouca)

O LASCADO TEM VEZ

Esse pensamento sempre coletivo foi o que gerou o slogan de sua mercearia, a Aplausos, onde o lascado tem vez. Quando morou em Salvador, na Bahia, seu Higino vivia um momento financeiramente complicado. Numa mercearia, tentou comprar a metade de um frango. O proprietário disse que só vendia o frango inteiro. Depois disso, Higino prometeu criar um dia um comércio que vendesse produtos fracionados. E o fez. “Querosene, por exemplo, eu ponho numa garrafinha menor e vendo”.

A situação melhorou, mas o trabalho continua sendo uma prioridade. Pouco tempo depois de participar do programa de TV e ganhar uma premiação, Higino labuta bastante e mantém o jeito simples. Os pontos de leitura de cordel são bem próximos às mercearias que ele abastece com produtos. A cada parada, leva os cordéis, confere se estão os oito anteriores e coloca oito novos. Logo após, passa na mercearia, presta contas dos produtos da semana passada e pergunta o que o comerciante vai querer desta vez.

(Foto: Rafael Vilarouca)

(Foto: Rafael Vilarouca)

Tudo o que seu Higino faz é com muita seriedade. Difícil arranjar sorrisos ou piadas do cidadão de Farias Brito. Não é tristeza. Ele apenas luta contra o tempo e outros obstáculos para colocar em prática os sonhos que à beira dos 57 anos ainda não conseguiu realizar. Sobre as mudanças decorrentes da participação no Lata Velha, ele simplifica. “Eu fiquei mais conhecido e recebi mais doações para a cordeoteca. O carro ficou bem melhor para trabalhar… Mas eu quero usar isso para a realização dos meus projetos”.

Pelo seu reconhecido trabalho de incentivo à leitura de cordéis, Higino tomará posse de uma cadeira na Academia dos Cordelistas do Crato no 3º seminário do Verso Popular, que acontece em fevereiro, no SESC do Crato. Fundada em 1991 pelo radialista Eloi Teles de Morais, a academia completa 21 anos em 2012 e tem mais de 500 títulos publicados e mais de um milhão de folhetos.

Higino recolhe cordéis e logo em seguida irá colocar mais oito (Foto: Rafael Vilarouca)

Higino recolhe cordéis e logo em seguida irá colocar mais oito (Foto: Rafael Vilarouca)

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“O Cariri todo atesta

tradição, cultura e arte

e quem faz a sua parte

num toque, transforma em festa

Higino se manifesta

e assume nobre papel

pois da vida é bacharel

da Leitura faz seu hino

na kombi de Antônio Higino

tem um mundo de cordel”

(cordel de Josenir Lacerda)

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