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Uma forma livre de viver a arte

O grupo nasceu em Brasília, mas se considera “do mundo”. Viajando pelo país, busca o interior como inspiração. Modernos saltimbancos de uma mesma família, eles cantam, dançam, representam e encantam: é assim o Carroça de Mamulengos, que tem em Maria Gomide a certeza de continuidade, resistência e eternos devaneios.

Por Raquel Arraes
Fotos: Rafael Vilarouca

Essa história começa em 1975. Brasília já gerava em seu interior a força que iria explodir em uma revolução cultural anos depois. Na época, o jovem Carlos Gomide já fazia a sua própria revolução. Convencido de que a arte é a única forma de existir no mundo, ele entra para o grupo de teatro Carroça.

Já nesse período, a percepção de que o aprofundamento nas raízes culturais brasileiras era o único caminho viável para a construção de uma arte autêntica leva Carlos a palmilhar cada canto do país em busca de mestres da cultura que compartilhassem com ele os seus saberes.

Um dia, o grupo Carroça é desfeito. Carlos, já casado com Schirley França, herda o nome da companhia e passa a desenvolver uma arte muito singular, a do teatro de bonecos, que no Nordeste, mais especificamente em Pernambuco, ganha a denominação de mamulengo.

Com corpo de madeira e cabeça reproduzida com cabaça, os mamulengos podem ter formas e tamanhos diversos. Imitando pessoas e animais, eles às vezes cabem em uma mão e, outras vezes, possuem o dobro da altura de um homem.

Foi através do encontro de Carlos Gomide com o mestre popular paraibano Antônio Alves Pequeno, ou Antônio do Babau, que o Carroça incorporou a poética, a linguagem e o nome mamulengo. E assim, a Cia. Carroça de Mamulengos parte em uma missão audaciosa: revirar o Brasil vivendo única e exclusivamente de sua arte.

Hoje a herdeira Maria Gomide, filha mais velha do casal de fundadores, reflete: “Como é que começa uma tradição? Isso é até uma pergunta para refletirmos se podemos nos considerar tradicionais. Porque a gente simplesmente faz. O meu pai sempre trabalhou viajando. Desde o inicio, desde muito novo, desde que saiu de casa, ele sempre esteve viajando de um lugar para o outro a trabalho. E a arte possibilitou que ele fosse mais errante ainda. Ele encontrou na arte uma forma livre de existir e eu acho que essa é a maior herança que nossos pais deram para nós, filhos”.

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ERRÂNCIA EM FAMÍLIA

“Eu não sei o ano em que nasci, presumo qual seja o mês e tenho quase certeza do dia”. É assim que Maria Gomide,
a primogênita entre oito irmãos, começa a narrar a sua história. As incertezas do nascimento, porém, não perpassam nenhuma vez o semblante da garota. Olhos verdes que fitam certeiros, Maria é desconcertadamente segura para a sua idade.

“Acho que devo ter entre 26 e 27 anos. Na verdade, nenhum dos meus irmãos sabe exatamente o dia em que nasceu. Meus pais passavam anos para registrar um filho e acabavam esquecendo a data. O que eu sei é que nasci no último dia de um festival de teatro, em Natal, no Rio Grande do Norte”.

Em seus presumíveis 27 anos, Maria entrou no palco a primeira vez quando era um bebê, e de lá nunca saiu. Para ela, a luta pela sobrevivência sempre foi uma arte. “Alguns me acharam mais velha do que eu sou. Eu penso que isso se deve ao fato de estar sempre metida em tudo que meus pais fizeram. Com cinco anos, lembro de conversar com estudantes universitários, repetindo as frases do meu pai. Repetia por repetir, não entendia o que muitas significavam, mas sabia quando usar aquelas de mais efeito!”.

Nem bem se sustentou em cima das próprias pernas, a garota foi contemplada com mais duas, só que essas de madeira. Na infância a brincadeira com bonecos era coisa séria. “Eu não brincava de bonecas. Eu brincava com bonecas”, considera ela, que desde cedo aprendeu que o prato do dia seguinte seria ganho no dia anterior. E que vida de artista itinerante é antes de tudo uma profissão de fé.

“A praça sempre foi o lugar de nosso sustento. Após o espetáculo, rodávamos o chapéu. Quando chegávamos em casa, muitas vezes era eu que contava o dinheiro ganho naquele dia. Foi assim que aprendi matemática”. Maria não teve educação formal e nunca foi à escola — o que é de espantar, dado o vocabulário rebuscado e a profundidade de suas reflexões.

Os pais tomaram pra si a responsabilidade da formação de todos os filhos. “Era normal que meu pai, toda vez que lia um livro, nos reunisse para dividir conosco o que havia aprendido”. E a família foi crescendo. A cada dois anos nascia mais um menino: Antônio, Francisco, João, os gêmeos Pedro e Mateus, Luzia e Isabel, também gêmeas.

“Então o Carroça é uma companhia de teatro, mas também é uma família, e à medida que essa família cresce, vai tendo que encaixar no espetáculo esse novo integrante, tem que dar de conta das necessidades de mais um filho. Eu também me sinto um pouco mãe, principalmente dos mais novos, porque ajudei na criação deles”, comenta Maria.

É raro o nome do pai não vir à baila quando conversamos com ela. Carlos Gomide foi seu grande mentor, e balizou seus passos durante toda a vida. “Desde pequena, escuto meu pai dizer: é essa que vai dar continuidade à minha arte”. Enquanto Carlos aparece como mestre, Schirley é apresentada como a grande moderadora de amor e afeto.

“Dizer o quê, né? Minha mãe sempre teve o dom de transformar qualquer lugar em um lar. Não importava se estávamos em um quarto dos fundos, em uma garagem. Minha mãe, com seus caprichos, com um tapete, ia dando um toque só seu e acabava tornando aquele lugar aconchegante. Sempre estávamos arrumadinhos, com fita no cabelo. Ela sempre conseguiu agradar e acalmar a todos”.

LÚDICOS, ÚNICOS E NA CONTRAMÃO

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A possibilidade livre de existir é o que mais encanta a respeito do Carroça de Mamulengos. Vivendo de arte, de costa para as urgências da modernidade, eles estão na contra-mão. Não só de um saber estabelecido que definiu a escrita como a única forma legítima de conhecimento. O Carroça está na contra-mão da própria arte moderna ao não topar suas facilitações, seus enlevos com políticas culturais que transformam o artista em um produtor de cultura em série.

“O Carroça é uma companhia completamente na contramão. Se hoje em dia a gente alcançou algum reconhecimento foi afirmando que estamos na contramão. Não temos nada contra os diplomas, nem as academias, muito pelo contrário, mas levantamos a bandeira da oralidade. Defendemos o conhecimento que pode ser transmitido através da oralidade, pelo que aprendemos vivendo”, situa Maria Gomide.

Inspirado em diversas tradições nordestinas, o Carroça traz para o público a poética e a linguagem do mamulengo — linguagem esta que mescla na brincadeira dos bonecos os ritmos das festas religiosas, os folguedos e os cantos dos trabalhadores na lida da agricultura, constituindo-se uma manifestação originalíssima que tem a oralidade como elemento-chave em sua preservação.

Normalmente apresentado em praças públicas, o teatro de bonecos é uma manifestação cultural proveniente da Europa. Os registros de seu nascimento datam de pelo menos 3.000 anos. O Brasil possui brincantes de bonecos desde a era colonial. No Nordeste, para cada Estado há um nome específico. Em Pernambuco, mamulengo; na Paraíba, babau; no Rio Grande do Norte, joão redondo.

Por muito tempo, o espetáculo do Carroça foi constituído de bonecos que imitavam o burrinho, o bode, os palhaços, bonecas gigantes e seres fantásticos como o Jaraguá. As músicas apresentavam cada um dos personagens com o respaldo da poética popular, através de canções singelas que facilmente poderiam ser confundidas com infantis.

“O Carroça não é uma companhia para-folclórica, não fazemos espetáculo para criança, fazemos espetáculo para pessoas. Porque o que buscamos são nossas raízes. Sempre tivemos um olhar voltado para o interior. Mesmo quando moramos em cidades como o Rio, o que buscamos é o que tem de interior no Rio”, pontua Maria.

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QUANDO OS CAMINHOS SE ALARGAM

A história do Carroça se entrelaça com o Cariri em 2000, quando a família aporta em Juazeiro do Norte. “Meu pai
sempre quis vir para cá, mas aparecia um outro lugar, uma nova cidade em nosso caminho. Até que um dia decidimos que havia chegado a hora de rumar para o Cariri”, relembra Maria Gomide.

Eles passam a morar no João Cabral, um dos bairros mais humildes de Juazeiro. Lá, criam a Associação dos Artistas da Terra da Mãe de Deus. A Associação reunia grupos populares com o intuito de gerar conscientização sobre o papel e a importância do artista popular.

Durante sete anos, Juazeiro foi o lar do Carroça, até o grupo se mudar para o Rio de Janeiro. Dessa permanência, nasceu um amor sólido pela região e um desejo de eterno retorno. “O Cariri é tão heterogêneo, mais parece que Deus e o diabo habitam juntos essa terra”, reflete Maria.

Há três anos, um evento veio para dar um novo rumo à família. Carlos e Schirley se separaram e a companhia teve que reavaliar os seus caminhos. “Foi nesse momento de desagregação que tivemos força de nos unir ainda mais. Meu pai seguiu com meu irmão Antônio, e nos vimos com o desafio de dar um novo rumo ao Carroça. Foi o que fizemos”.

Com rompimento dos pais e os filhos já adultos, novas veredas se descortinaram. “Quando saí do Cariri, há cinco anos, saí com um objetivo: conseguir o apoio da Petrobrás. Nossos pais já apontaram a direção, mas é um desafio diário afirmar esse caminho sem perder o norte. Porque o caminho é estreito e, às vezes, eu acho que a gente vence pela teimosia”, afirma Maria.

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Além de atriz, cantora e mestre-cena no palco, nos bastidores Maria produz, dirige e gerencia a companhia. “Quando meu pai passou o bastão para nós, os filhos, me vi como a irmã mais velha que deveria arregaçar as mangas e dar o exemplo. Minha vida é dedicada integralmente ao Carroça. Não falo e não penso em outra coisa”.

Atualmente, o Carroça de Mamulengos recebe um patrocínio da Petrobrás. Com um novo espetáculo na rua, o “Felinda”, esse novo Carroça surge aguerrido, pulsante de expectativas, ansioso pelo futuro que o aguarda. Assim, pareceu lógico retornar ao Cariri para mostrar o que andaram fazendo depois de tanto tempo na estrada. “Sempre que retornamos, sentimos o dever de apresentar algo novo. Um instrumento novo, um número, uma música para provar que a saída foi necessária”.

Depois de dois anos de montagem, “Felinda” veio para unir a família inteira. “Nesse espetáculo, todo mundo é essencial, todo mundo é fundamental, ninguém pode faltar. No espetáculo anterior, ‘Estórias de Teatro e Circo’, a gente podia substituir alguém. No ‘Felinda’, não. Ele só acontece se estiver todo mundo. E isso foi muito importante: no momento em que tudo apontava para o Carroça se fragmentar, a gente conseguiu montar um espetáculo em que cada um tem o seu lugar. Foi a oportunidade de falar assim: O Carroça somos todos nós”, defende Maria Gomide.

O sertão é o mundo. Decifrá-lo em suas veredas, só para quem tem coragem, valentia no coração. Ar rarefeito ao meio dia, sol tingindo tudo de luz branca — criança, velho, mulher, bicho. Sertão é fortaleza inexpugnável de sensações, e qualquer tentativa de descrição cai em clichê e vazio. Em suas muitas terras, a retirância faz destino. Sair ninguém quer, mas é preciso viver. E para viver o sertão é necessário palmilhá-lo pelos passos perdidos de suas gentes, como faz agora a garota de olhos verdes. Nesse horizonte que não se acaba, olha para dentro, em busca da semente primeira que germina em cada um de nós. Logo ela, que conhece tantas terras. Logo ela, que já nasceu andarilha. Para Maria Gomide, nesse caminho de muitas veredas, o mundo todo é todo sertão.

“Defendemos essa possibilidade livre de existir na vida, não somente porque acreditamos que a arte é um caminho de libertação, mas também porque não fazemos arte por encomenda. A nossa arte revela um desejo profundo das nossas almas, e eu acho que isso é ancestral. Tenho a impressão de que o Carroça já está junto há muitos séculos, estamos novamente no Brasil. Eu creio que a gente segue uma missão. Somos uma companhia de teatro secular”, encerra Maria.

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