Arte e Cultura, Revista 0

Um tríptico para o Padre Cícero

Por Gilmar de Carvalho, escritor, pesquisador e jornalista. Especial para a CARIRI

EROS, A VIDA

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Os apitos eróticos de José Celestino (1955) se inscrevem em uma tradição artística de clandestinidade. Quem procurar por eles, no Mestre Noza, à Rua São Luís (sem número), no centro de Juazeiro, vai encontrá-los dentro de uma gaveta, enrolados em papel de embrulho, na sala da direção, mostrados por vendedores atenciosos, desconfiados e cúmplices. É como se estivéssemos comprando algo ilegal ou imoral.

Zé Celestino faz uma versão tridimensional do “kama-sutra”. Vale ressaltar que, em primeiro lugar, vem o apito. O pedaço de umburana é escavado para a colocação do mecanismo de isopor, o qual vai direcionar o vento, na hora do assopro. Se não funcionar, a peça estará descartada.

Depois do apito feito, testado e aprovado, começa a escultura de cunho erótico. Incrível a minúcia com que trabalha, com tanta riquezas de detalhes. Impressiona ver os corpos em movimento, em espaços tão ínfimos. Zé Celestino desmente as versões correntes de que era frequentador do cinema pornô ou de que dona Alice, sua esposa adquiria revistas masculinas (de nu feminino) para que ele se inspirasse. Diz que tem imaginação de sobra e os apitos estão aí para provar o que ele diz.

O professor Ismael Pordeus Jr tem mais de cem desses apitos e quase desistiu de querer fazer uma exposição deles no Brasil. A desculpa dos gestores é a visita frequente das crianças e adolescentes e o medo de que, os pais cuidadosos e diligentes, denunciem as instituições pela difusão de conteúdo inadequado para menores. A meta é um centro cultural no exterior, mas esse é outro assunto.

Zé Celestino gosta do que faz. Aprendeu com o avô a fazer os “arremedos”, apitos simples, os eróticos, começaram em 1978. Hoje, ele é uma referência. Dá gosto vê-lo em atividade, na casa/atelier, no bairro Triângulo. Dona Alice lixa as peças, passa cera e as encomendas se avolumam, apesar ou por causa da clandestinidade.

O que é humano não o choca e ele faz os apitos com naturalidade, sem a sonsice dos que fazem de conta que transgridem e sem a ingenuidade dos que rejeitam qualquer manifestação de fundamentalismo ou de ortodoxia. Aí estão sexo vaginal, oral, masturbações, surubas, um léxico das possibilidades de performance nas alcovas.

Zé Celestino ressalta: “Faço esses apitos como poderia estar fazendo uma banda cabaçal, um reisado, um forró ou até mesmo uma peça sacra”. Aí a gente pode colocar a figura hierática do Padre Cícero, batina lisa, chapéu, bengala e livro de oração. É tudo a mesma coisa, é tudo trabalho, poderia complementar, insistindo na superação dos
limites entre sagrado e profano, cada vez mais imprecisos ou borrados nesses tempos confusos e desafiadores que vivemos.

Para quem queria, como o Padre Cícero, que toda casa tivesse um altar e fosse uma oficina, tudo bem. Afinal de contas, eros é a pulsão da vida, que deve triunfar nesses tempos de guerra, morbidez e censuras de toda ordem.

O SANTO NA FORNALHA

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Juazeiro do Norte tem um clã que trabalha o barro com criatividade e perfeição: a família Cândido. São artistas que vão além do artesanato padronizado, encontrado nos centros de revenda, para ludibriar turistas desavisados.

A partir do barro, são modeladas peças que se inscrevem como o que o Juazeiro tem de melhor, atualizando a modelagem do barro e fazendo com que permaneça, porque atende às exigências dos compradores de hoje, antenados com as novas tendências, a partir de um pé (ou os dois) na tradição e a cabeça solta na mais ousada
contemporaneidade.

A matriarca é dona Maria de Lourdes (1939). A filha Maria, se foi em 2010. Era, talvez, a mais delicada de todas. Corrinha gosta de trabalhar na madrugada e dorme de dia. Difícil falar com ela. Dora, Cícera, Francisca mantêm a aura de uma família que vive do barro. Os homens vão além do patriarca Américo, que traz a argila, pila, peneira e deixa tudo pronto para o trabalho. Elias faz representações de São Jorge que surpreendem.

No começo, trabalhavam as esculturas sobre uma base plana que ficavam sobre as mesas. Stênio Diniz deu a ideia das peças afixadas às paredes. Prevaleceu a sugestão dele, depois de alguns ajustes e nasceram os “temas”.

Mas o que são mesmo os temas? Uma crônica visual da vida da cidade. Aí estão folguedos, rezas, romarias, ofícios, tudo o que tem a ver com o mundo deles é modelado no barro, seco ao vento e levado ao forno, antes da pintura com cores fortes de tinta acrílica. Há muito tempo, usavam alvaiades e pigmentos que nem são mais fabricados.

Os temas estão em capas de livros, discos, em muitas exposições, são entregues como troféus, decoram apartamentos e casas desse país todo e são levados (todo cuidado é pouco) para o exterior.

Eles estão para Juazeiro assim como a xilogravura “ukio-ê” esteve para a China. Num futuro distante, dirão como viviam as pessoas da cidade, o que faziam, com que sonhavam e do que tinham medo.

Mas a família vai além e incorpora, sem maiores problemas, encomendas ao repertório variado com o qual trabalham. Fazem releituras de Eckout, de Iracema e modelaram uma vida do Patativa, que deve estar em Assaré.

Comove o relato de dona Maria de Lourdes. Ela não gosta de queimar o Padre Cícero: “Sei que é um bolão de barro, mas para mim é o Padre Cícero”.

Todas as peças deles são queimadas. O calor vai fazer com que a peça resista ao tempo, às intempéries e testemunhe sua devoção e sua filiação a um Padre Cícero que é responsável, em última instância, por tudo de maravilhoso que é feito na cidade que ele fundou.

DO JUAZEIRO PARA O IPU

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Dona Edite Dias Nogueira (1934/ 2005) contava uma história bonita de piedade e esperança. Casada com um funcionário da rede ferroviária, viu o marido entrar em crise, logo após a desativação das ferrovias. A crise o levou ao álcool e dona Edite teve de trabalhar ainda mais para manter com dignidade os oito filhos do casal.

Moravam no Ipu, onde ela nascera. A crise levou a família a viver no Hotel Iracema, de uma amiga, que logo o transferiu para dona Edite, com a aprovação do proprietário do ponto.

Ela trocou o nome para Hotel São Francisco, de quem também é devota. Um dos vizinhos, um homem de posses, “coronel” das antigas implicava com a família. Ironicamente, dona Edite conseguiu comprar a casa que foi dele, onde se instalou, à Praça Major Quixadá, com vista para a bela e abandonada Estação Ferroviária do Ipu.

A promessa foi feita, não a São Francisco, mas ao Padre Cícero. Alcançada a graça, ela dormiu no chão durante quinze meses, e marcou viagem para o Juazeiro.

Na cidade santa do Cariri cearense, as visitas de praxe: Matriz; túmulo do Padre Cícero, na igreja do Socorro e as lojas de artigos religiosos da cidade.

Dona Edite procurava um Padre Cícero grande, quase em tamanho natural. Era a forma de expressar seu agradecimento e de retribuir pela graça alcançada. Fez a “troca” porque imagem de santo não se compra, nem se vende.

Agora, estava na hora de voltar ao Ipu. Era muito chão. O ônibus ia até Crateús, depois de pegar a Estrada do Algodão, até Mineirolândia, subir a serra, passar por Pedra Branca, chegar à Cruzeta (Santa Cruz do Banabuiu), tomar o rumo de Independência e chegar ao Karatius, trocado pelo litoral do Piauí, no século XIX.

De Crateús, tomando o rumo do Sucesso (Tamboril), quebrando para Nova Russas, Ipueiras e finalmente o Ipu, cuja bica despejava o fio de água prateada, de onde Iracema saía para tomar banho na lagoa da Messejana (licenças poéticas de Alencar).

Dona Edite não se incomodava com o que teria de enfrentar de estrada empoeirada, esburacada, no ônibus quente, sem ar condicionado. A fé justificava o sacrifício.

Na hora da partida, na bagagem, um Padre Cícero, de um metro e vinte centímetros, bem embalado para enfrentar
o desconforto do compartimento de cargas, com a certeza de que chegaria inteiro ao Ipu.

Foi quando teve uma surpresa muito desagradável. O pessoal da agência não liberava o embarque da bagagem. Não adiantava reclamar, fazer ameaças ou suplicar. O que fazer? Como chegar ao Ipu de mãos abanando?

Padre Cícero haveria de dar um jeito na história. Mais difícil foi comprar a casa no Ipu e ele deu forças para que ela comprasse. A decisão estava nas mãos dele.

Foi quando ela teve a ideia de comprar uma passagem e levar o santo dentro do ônibus. Era uma ótima saída, mas ainda dependia dos humores do pessoal da empresa.

Se ele fosse no babageiro, seria uma “carga”, um penetra. No ônibus, pagaria passagem, seria um passageiro. Deu certo.

Dona Edite viajou do Juazeiro até o Ipu tendo o Padre Cícero como companheiro de viagem e vizinho de poltrona. A proteção se estendia ao ônibus todo. Ninguém poderia reclamar. Amarrado com cordas, embrulhado em papel e plástico, o “santo do povo” era uma tradução da fé que não conhece limites. Padre Cícero ficou como guardião do Hotel São Francisco, entronizada na sala de jantar, enquanto dona Edite esteve entre nós. Assim termina essa história, contada a quem quissesse ouvir.

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