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Um sonho bilíngue

Em 2017, completam-se 15 anos de Instituto Transformar, organização voluntária de apoio ao desenvolvimento da comunidade surda de Juazeiro do Norte, que comemora os avanços sociais sem esquecer os desafios ainda pela frente.

Thierry, 21, conheceu Ariane, 17, pela internet. Com tanto papo vai, papo vem, logo se apaixonaram. Ela, que morava em São Paulo, disse tchau à vida que levava lá e veio para Juazeiro do Norte concretizar o romance que vai dar em casamento. Na noite de sexta-feira, dia de reunião no Instituto Transformar (Intra), do qual participam, os noivos, tão jovens e decididos, conversavam despretensiosamente em um grupo de amigos. A conversa parecia estar boa: Ariane sorria, Thierry sinalizava para um amigo, mas o único som que percorria o pátio do Intra era o das crianças que brincavam correndo perto dali.

Boa parte da comunidade surda de Juazeiro do Norte se encontra frequentemente no Instituto Transformar para socializar, participar de atividades culturais ou receber os apoios pedagógicos oferecidos. Ambiente seguro e inclusivo, o Intra vem sendo, há 15 anos, a construção de um sonho bilíngue, onde o surdo deixa o espectro marginalizado de um ser incompreendido e incapaz de se comunicar e passa a ser um sujeito cujas potencialidades são reconhecidas, fluente na segunda língua oficial brasileira, a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Histórias marcadas por dificuldades, rejeição e ideias equivocadas do que é ser surdo: cada indivíduo lá presente parece estar interligado ao outro por saber que sua vivência também é, de alguma forma e em algum nível, a do outro. Repetem-se relatos que beiram a crueldade, de reclusão domiciliar à imposição do oralismo. O leque de preconceitos e de violências simbólicas, psicológicas e físicas contra a comunidade não cessa, mesmo após vencerem, na teoria, os 100 anos de oralismo.

 

Thierry e Ariane: paixão além do preconceito (Foto: Samuel Macedo)

 

No amplo campo de diversidades do ser surdo — de surdez total à parcial, passando por surdos oralizados e dominantes do português —, o preconceito ainda se perpetua no pensamento da mudez intrínseca, o que julga, na sociedade oral, a “ausência de pensamento ou, pelo menos, pressupõe que o surdo não tem o que dizer”, como expõe a pesquisadora Maura Corcini Lopes na obra Surdez & educação.

Este pensamento dúbio fez do Congresso Internacional dos Surdos de 1880, em Milão, um marco de repressão, sendo determinado o método oralista como único a ser ensinado na educação dos surdos, mesmo que experiências como a do francês Abade Charles-Michel de L´Epée — com ensino de sinais e do alfabeto manual — fossem bem-sucedidas.

Apenas em 1971, após um século de opressão e do fracasso do oralismo, a resolução foi revogada. Em 2002, o Brasil decretou a Lei n.º 10.436, reconhecendo a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Ainda assim, os resquícios do oralismo são encontrados na educação dos surdos. Gisele Gama, professora da Universidade Federal do Cariri, conta que durante o ensino fundamental, período onde perdeu gradualmente a audição, as dificuldades de aprendizado começaram a se agravar, chegando a repetir ano escolar.

“Somente quando conheci a Libras, a partir do trabalho do Intra, que passei a aprender de verdade. Tomei gosto pelos estudos e nunca mais reprovei em nada. Hoje faço mestrado em Universidade Federal, coisa que muita gente achava impossível”, Gisele relata, emocionada. “A Libras teve uma grande importância na minha vida emocional, social e profissional. Mudou tudo completamente.”

 

Nada é impossível de mudar: com a LIBRAS, Gisele Gama, que tinha dificuldades nos estudos, se tornou professora na Universidade Federal do Cariri (Foto: Samuel Macedo)

 

Zezinho também viu sua vida melhorar depois de conhecer o Intra e a Libras. Resistente no início, ele confessa a cabeça-dura. “Eu tinha minha própria língua, meu jeito de me comunicar com gestos. Depois vi como eu estava sendo bobo e que eu poderia estar me desenvolvendo junto com os outros surdos na língua de sinais. Descobri que somos, sim, capazes de nos socializar, de ter uma vida boa e feliz”, revela, sorrindo para a esposa, Izabel.

 

MISSÃO TRANSFORMAR

Na década de 1970, John e Gina Peterson, casal de missionários americanos da Igreja Batista, já estavam acomodados à cultura brasileira quando começaram a trabalhar técnicas de comunicação com pessoas surdas em São Paulo. John, já falecido, foi um apaixonado pela linguagem e importou dos Estados Unidos métodos utilizados na língua de sinais americana, adaptando-os aos costumes nacionais. Nessa empreitada, atravessaram o Brasil ajudando surdos a se comunicarem com maior eficiência.

No Cariri, a missão de suas vidas tomaria corpo nessa empreitada junto à comunidade local. Em 2001, fundaram a primeira igreja para surdos na região, onde um intérprete traduzia os ensinamentos religiosos que o pastor proferia. “Lembro bem quando um colega surdo me perguntou: ‘quem é aquele homem na cruz?’, apontando para Jesus Cristo”, relembra emocionada a missionária Gina Peterson, fundadora do Intra. Ao mesmo tempo, organizaram o primeiro curso de Letras-Libras para formação de intérpretes no Seminário Batista.

 

“Tudo que fizemos foi por amor. Foi para ver as pessoas surdas melhorando suas vidas”, diz Gina Peterson, fundadora do INTRA (Foto: Samuel Macedo)

 

Conta, ainda, que durante cinco anos mantiveram uma escola onde crianças aprenderam noções básicas de Libras. Era o surgimento do Instituto Transformar. “As aulas também eram para os pais, mas raramente havia interesse”, revela com tristeza. “Você veja: ao invés de aprenderem a se comunicarem com seus filhos, escolheram continuar atrás da barreira do preconceito.” Após a Lei da Inclusão, a escola passou a ser um tipo de reforço escolar onde crianças, jovens e adultos podiam tirar dúvidas e realizar projetos. No entanto, o Intra permaneceu como único órgão a dar suporte ao surdo, muitas vezes fazendo o papel do Estado.

As mãos voluntárias que ajudaram a fazer do Intra o que hoje ele é se orgulham daquilo que conquistaram. Atualmente, os alunos são professores, pesquisadores, profissionais liberais, pais e mães de família, mas, acima de tudo, pessoas realizadas em suas vidas. Outro efeito positivo pode ser percebido nos próprios voluntários. Cleuma Barbosa, voluntária há 11 anos, hoje vice-presidente do Intra, diz ter alcançado novas expectativas para sua vida após conhecer a instituição. “Eu era dona de casa, apenas. Depois do apoio de todos aqui, pude me formar em Letras-Libra, em Psicologia e voltar para contribuir mais ainda”, explica.

Completando 15 anos em 2017, o Intra ergue-se novamente, após um curto período inativo. Responsável por mobilizar a comunidade surda a partir de trabalhos de empoderamento, geração de confiança, socialização, educação, aconselhamento laboral e acompanhamento psicológico, psicossocial, e mesmo em serviços burocráticos, os frutos colhidos pela instituição vão além do que se imagina. São novos caminhos abertos para as infinitas possibilidades que, historicamente, foram negadas às pessoas que o compõem.

 

Cleide e Cleuma, voluntárias no INTRA e militantes pelos direitos das pessoas surdas (Foto: Samuel Macedo)

 

CENTRAL DE LIBRAS: ENTENDA O QUE DIGO

“A efetivação da Central de Libras é, sem dúvida alguma, uma vitória da luta social dos surdos de Juazeiro do Norte”, afirma a assistente social Cleide Barbosa, atualmente diretora do equipamento. A Central foi implementada em 2013, mas apenas em 2017 começou a ser composta por representantes da comunidade surda e hoje funciona em regime de pronto atendimento presencial e virtual, seja por chamadas de vídeo ou mensagens de texto, para interpretação e tradução de demandas da população aos órgãos públicos. Um exemplo prático dado por Cleide foi um atendimento emergencial feito no dia anterior ao de nossa conversa: uma jovem surda acidentou-se e contatou o equipamento, que fez a ponte entre ela e o SAMU.

Reaberta em fevereiro, após cinco meses desativado, a Central de Libras já realizou 540 atendimentos até maio. Dentre seus serviços de atendimento on-line para prestação de serviços estão: interpretação em atendimentos médicos, solicitações de emissão de documentos e informações sobre serviços públicos em geral. Pode-se considerar que a taxa de atendimento ainda é baixa se considerarmos as mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva em Juazeiro do Norte, segundo o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tornando essa a cidade com maior índice no interior do Ceará. Nacionalmente, mais de 2 milhões possuem deficiência auditiva grave e 344 mil são totalmente surdos.

 

(Foto: Samuel Macedo)

 

Os planos para tornar a Central cada vez mais acessível ao seu público-alvo, conforme a diretora Cleide explica, está na realização de capacitações com os servidores públicos municipais em noções básicas de Libras, assim como uma campanha em todos os departamentos e secretarias sobre os serviços disponibilizados pela Central. “O cenário é triste, mas muitos ainda não têm sequer o conhecimento sobre a existência da Libras, seja um surdo ou um funcionário ouvinte”, lamenta. “Quem é usuário da Libras, tem o direito de usar sua língua nativa e receber atendimento apropriado para seu entendimento e é dever do Estado garantir que esse direito seja devidamente cumprido”, explica.

Apesar do muito a ser conquistado, cada vez mais a comunidade se apropria dos serviços disponíveis, ou melhor, serviços que conseguiram garantir ao longo de árduos anos de luta, seja em centrais de interpretação, leis de inclusão, propostas de escolas bilíngues e cotas em vagas de trabalho. Um exemplo disso está no processo de implementação a faculdade de Letras-Libras na Universidade Federal do Cariri, um instrumento a mais de expansão, ou quem sabe eliminação, das fronteiras.

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