Arte e Cultura, Perfil

Tudo é divino, pós-moderno e maravilhoso

Os discos e os conselhos musicais de Wellington Teixeira, o Pós

“Alguém antenado, sem preconceitos, do bem e, acima de tudo, inteligente”, é como Wellington Teixeira define uma pessoa Pós. O prefixo tornou-se seu apelido e também seu jargão, mas ele é mesmo muito Pré. Sem telefone celular, Pós recomenda que amigos se comuniquem com ele via e-mails mentais (“acho que só eu e Milton Nascimento não temos celular no Brasil”), não tem relógio pendurado no pulso e está eternamente offline no perfil do Facebook que a sobrinha criou – não está nem aí para as 1.194 pessoas que lhe adicionaram e que insistem em mandar recados e marca-lo em fotos. Figura carimbada nas noites do Crajubar, frequentemente no Raul Rock Bar & Café, Wellington Pós é conhecido por seu descompromissado trabalho musical e, principalmente, por ter comandado por dez anos uma loja de discos no centro de Juazeiro do Norte, o Relíquias, por onde passou uma geração de jovens e artistas no fim dos anos 90.

“Sou muito grato a Wellington”, contou Geraldo Júnior, músico juazeirense atualmente radicado no Rio de Janeiro “o repertório que ele mostrava à gente era Xangai, Elomar, Vital Farias…”. Hospedada na antiga Rua Santo Antônio (hoje, Padre Pedro Ribeiro), a loja Relíquias fazia jus ao nome e vendia os discos mais clássicos e os mais importantes da música nacional e também internacional. “Tive referências fundamentais pra minha vivência artística através dos livros e CDs do Relíquias”, diz o cantor que trabalhou na loja enquanto ainda fazia o ensino médio. Geraldo e os outros adolescentes que mais tarde viriam a montar a banda Dr. Raiz viviam entre os encartes de Xangai e Alceu Valença, ouvindo de graça as músicas dos discos que não podiam comprar, mas que, somados aos conselhos dados por Wellington, acabavam por promover uma espécie de formação musical dos meninos. Quando o entardecer ia pondo fim ao ritmo comercial das ruas do centro, a loja virava algo como a sala de uma casa, enquanto os clientes se tornavam amigos. Com a falta de bares alternativos na cidade, o Relíquias foi uma mão na roda boêmia. Mega-pós.

Wellington começou a colecionar LPs em 1977. Ele lembra com exatidão porque tem boa memória, mas também porque foi naquele ano que mudou-se de Parambu, no sertão dos Inhamuns, para o Juazeiro. A “moedinha número 1 do Tio Patinhas” foi o Premiére Mundial, uma coletânea de covers de sucessos internacionais, que ele comprou quando ainda tinha 10 anos, e depois vieram os de Roberto Carlos, Benito di Paula, entre outros. Na loja DiscoSom, na Rua Bárbara de Alencar, no Crato, Pós-mirim negociava com Seu Nazareno os discos que levava para ouvir em casa e, caso gostasse, comprava de vez. “Eu tive um choque quando cheguei aqui em Juazeiro”, ele relembra, “as crianças falavam de coisas banais, só queriam brincar, e eu queria ouvir música, comentar aquilo com alguém”. Quando a primeira edição do Rock in Rio trouxe Queen e Iron Maiden para o Brasil em 1985, ele convidou os amigos para fazerem uma verdadeira imersão na obra de cada grupo, que eles comentariam quando os shows fossem transmitidos pela televisão. Super-pós.

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Fotos: Samuel Macedo

Em 1997 ele viu a coleção ultrapassar os três dígitos, então percebeu que o hobby poderia virar ganha-pão e a paixão pela música poderia contagiar mais pessoas. “Com um acervo tão grande, eu pensei ‘preciso fazer algo com isso aqui, preciso disseminar a cultura'”, ele conta. Já fazia 11 anos que o CD havia chegado ao Brasil, renovando o mercado e desagradando Pós profundamente. “Senti um impacto, resisti, não quis comprar por um bom tempo porque a qualidade do som do CD é ruim, não tem o médio, só o grave e o agudo”, ele reclama ainda hoje, defendendo o LP, mesmo com toda a chiadeira e a problemática agulha do toca-discos. Feitas as pazes com a modernidade, ele se entregou aos CDs (hoje tem mais de 3 mil em sua coleção) e os vendeu a rodo no Relíquias, onde não faltavam clientes. Em uma época em que não existia Shazam e outros artifícios para reconhecer uma música, era comum as pessoas chegarem perguntando “aqui tem aquela que começa assim: panpanram panpam?”. Com ouvido apurado, memória de três HDs externos e um imenso acervo musical na cabeça, Pós respondia, sem precisar escutar o cliente solfejar por muito tempo: “Still got the blues, de Gary Moore? Temos”. “E aquela que diz ‘o que nós, não-sei-o-quê, nós queremos’?”. “Nós Dois, de Tadeu Franco. Temos também”. Ultra-pós.

Chegada a era da reprodutibilidade técnica, começou o inferno pós-moderno de Pós. Os CDs se tornaram mais fáceis de piratear, o acesso à internet se popularizou e, por fim, veio o MP3 e seus gigas de memória para armazenar centenas de músicas. Em 2006, ele fechou a loja por onde andaram clientes ilustres, como Kátia de França, Xangai e os integrantes da banda Mestre Ambrósio, e que “formou” grandes músicos caririenses, como Geraldo Júnior, Dudé Casado, Beto Lemos e Daniel Batata. Com uma mistura de desdém e tristeza, ele diz que o Google “acabou com a fantasia da busca” que ele via em suas estantes, onde os meninos iam ávidos pesquisar canções de Elomar e Humberto Teixeira. O Relíquias ainda existe dentro de Pós, que toda quinta-feira vende artigos de seu acervo no Raul Rock Bar & Café. Perguntado se admira alguma banda ou artista atual, ele se preparou para responder com veemência: “claaaaro! Adoro Nação Zumbi”. Ele diz que há jovens produzindo coisas legais, mas sente saudades mesmo é dos anos 80. A decepção vem em situações como na vez em que estava na fila das Lojas Americanas e viu um cliente perguntar à atendente onde encontraria um DVD do show The Wall. “Pink Floyd? O que é isso?”, ele ouviu a moça perguntar. Não foi nada pós.

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