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Todo mundo tem uma história nesse Casarão

Juliana não se envergonhou em demonstrar interesse no garçom mal-humorado. Aldo, disseram, procurou ao máximo manter a postura profissional, mesmo também querendo retribuir os olhares da moça sentada próximo ao bar. Após dias de insistentes olhares, tímidos risos e recados em guardanapos de papel, uma oportunidade imperdível os levou até o primeiro andar do boteco, onde, encostados na sinuca, sob fraca luz, quase cinematográfica, conseguiram trocar mais do que olhares.

“Lembro até a data, foi em três de novembro de 2013”, disse Juliana pelo telefone sem esconder que deveria estar sorrindo com a lembrança por trás da linha. “Encontrei o amor no Casarão”, revela o lugar como cupido de um relacionamento que se estende pela mesma idade do bar, três anos, regados música, cervejas e, claro, romance.

“Aldo e Juliana são uma ironia do destino. Você veja, um cara que chamava aliança de ‘bambolê de otário’ encontrou alguém no bar, no trabalho, e agora está aí todo apaixonado e de anel no dedo”, solta o publicitário e sócio do Casarão, Antonino Netto, contendo o riso sobre o acaso do amigo. Esse não foi o único casal que o sócio viu ser costurado dentro das paredes vermelhas de seu boteco, que nesse mês de julho comemora três anos de noites e rock ‘n’ roll. “Também não posso negar que da mesma forma vi muitos serem desfeitos”. Sem preferências, o boteco cratense, então, funcionava pelas intenções de seus visitantes.

Encontros de estilos

Sonho de Glauco Rocha e Antonino Netto com ajuda de Lela Belém, a casa aniversariante se concretizou por seu som eclético e interessante visual num antigo prédio restaurado com decoração referente à ícones do cinema e da música. “É como um bar cenário de séries de Tv”, comentou o escritor Otacilio Luciano. “Me sinto em How I Met Your Mother”, relacionando à comédia romântica que volta e meia se passa em um calmo pub nova-iorquino. Logo no primeiro mês aberto, o indício de sucesso veio com com o bombardeio de amigos trocando suas fotos de perfil no Facebook por aquelas tiradas na luz vermelha sob o poster da Janis Joplin ou Kurt Cobain.

Mas calmaria mesmo só nos dias de semana. Nas sextas e sábados, a frequência aumenta e o palco se agita com guitarras ou mixagens de Djs. Com essa fórmula, em seus três anos, já foram quase 500 apresentações em 180 eventos, com pelo menos 160 bandas dando tudo de si.

Em uma dessas noites ali, assim como Juliana, a moça Maria descobriu seu lugar favorito e, provavelmente, sua paixão platônica favorita. “Ela olhava o céu, admirando o infinito. Eu olhava para ela admirando a vontade dela querer voar. Numa festa tão lotada, ver alguém admirando a chuva, a nuvem, as estrelas, a lua, é de se apaixonar. Que pena, só não a vi me admirando”, descreveu feito poesia.

Encontro de sons e potências

Classic rock, metal ou pop, do indie ao mainstream, uma característica se sobressai:  a cena musical caririense ganhou proporção e projeção sob a luz do projeto do Casarão de expor o autêntico. O festival Equalize, um dos eventos mais importantes organizados pela turma do boteco em parceria com produtores locais, alavancou 16 bandas na competição pela gravação de álbum em estúdio profissional. Mais que isso, alimentou a autoestima da cena.

O sentimento predominante entre as mentes do Casarão é de satisfação em animar a economia musical e a criação. “É bacana perceber que ajudamos grande quantidade de bandas serem reveladas e agora estão caminhando para o reconhecimento”, comentou a produtora Lela. 

Na vanguarda

“Se nos orgulhamos de sermos vanguarda, isso é porque somos cratenses”, responde Antonino a pergunta se algum dia pensaram em deixar o Crato. O espírito bairrista chega a acrescentar charme à atmosfera alternativa do boteco – o que não chega a impedir que a casa se adapte à novas exigências. O público do Casarão é diversificado e vai das golas polo ao moicano, passando pelo excessivo xadrez e manga de camisa dobrada – se é que você me entende. Só uma coisa não é admitida: desrespeito. 

Em noites cheias, Antonino diz que sai para esticar as pernas e ver o público de longe. Ver a diversão tomar de conta do ar, ele não hesita em dizer, é a verdadeira alegria que o motiva a trabalhar. Talvez seja isso o que também o leva a passar 70% das suas horas de folga com os amigos no próprio bar. “Nos sentimos em casa”, compartilha. “Mas temos que pagar”, ri.

Compartilhando histórias

Rabiscando histórias, os jovens de espírito ou de idade ainda tomam o lugar como ponto certo de encontro. Encontro de outros, de risos, de afetos e explicam por que:

“Antes do Casarão, as noites de sábado eram uma incógnita para a juventude caririense. Não havia um lugar certo para ir. Não havia um lugar com música de qualidade”
– Giovanna Duarte
Lembro que logo no começo era quase que um ‘status’ diferente pra uma banda que tocasse lá. A gente até demorou um pouquinho pra conseguir tocar lá, não foi logo de cara. Mas com o tempo se tornou tradição de lá, acolher a cena alternativa da região. Muitas bandas já passaram pelo palco de lá, a Cômodo em especial, já teve várias oportunidades de apresentar tanto o trabalho autoral como nosso tributo aos Strokes, além de algumas pequenas apresentações acústicas focadas em covers variados. Acredito que o que consolidou o casarão como um dos principais incentivadores da cena foi o festival de música autoral equalize, do qual tivemos o prazer de ficar na terceira colocação geral, dentre várias bandas.
– Filipe Lisboa (da Cômodo Marfim)
“É tipo de ambiente que une a galera mesmo. A galera do pop, do rock, do forró, os alternativos, os playboys. Anima tudo. Além de ser um ambiente charmoso, que dá vontade de não sair mais”
– Virgínia Macedo
“Perdi as contas de quantas vezes recuperei o ânimo nos shows e dancei até o chão com os DJs. Até mesmo a famigerada ‘calçada do Casarão’ – que já foi apelidada de todo jeito, seja ‘muretinha’ ou ‘grades do Casarón’ – foi palco de muitas das minhas melhores histórias. De toda forma, um dia que nunca vou esquecer foi vivido lá: o show da banda Os Caretas, composta pelo meu pai, meu irmão, meu namorado e amigos queridos. Meu pai, Igor Arraes, sentiu que naquela noite tinha se conectado com o lugar e as pessoas ali presentes. Há um tempinho atrás ele havia me dito que era quase inexistente uma oportunidade de mostrar o trabalho e para um público tão diverso. Foi gratificante vê-los juntos e felizes”
– Maria Clara
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(Fotos: Lela Belém/Reprodução)

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