Arte e Cultura, Revista 0

Telma Saraiva sob o signo da fantasia

Por Raquel Arraes
Fotos: Rafael Vilarouca

Vestida em calça e blusa de seda rosa pálido, a mulher em frente ao espelho dá os últimos retoques no cabelo irretocável. As unhas grandes, cuidadosamente tratadas, passeiam pelos fios castanhos. Um passo atrás e uma última vista na maquiagem matinal. Ao redor, uma profusão de objetos ressalta o bom gosto da dona da ampla casa. Tudo delicado, correto, requintado, nada de falso antigo. Coleções impressionantes de relógios de corda, louças finíssimas, antigos santos entalhados. A mobília exibe a opulência da madeira de lei, grande e pomposa. Por fim, ela dá a checagem por encerrada. Pelo espelho, espreita o rapaz que irá fotografá-la e sentencia. “Se você me deixar feia nas fotos, eu mando lhe dar uma pisa!”.

Miúda, rija, confiante. Telma Saraiva se multiplica indefinidamente pelas paredes de sua casa nas fotopinturas de si. Dezenas de rostos iguais enfeitados ora por penas de índia, ora por véu de espanhola. Aqui ela aparece com uma coroa de louros, tal qual uma romana antiga, ali lembra Rita Hayworth em seu apogeu hollywoodiano. Nas várias versões, a mesma Telma jovem, linda, sorridente. Vaidosa, fez de si seu principal tema e da fotografia, obsessão. Seu nome correu Brasil e mundo mostrando que ali havia uma artista nata, minuciosa, sistemática.

Telma Saraiva é o elo contemporâneo de uma arte secular: a fotopintura. Arte que se desenvolveu na França em meados do século XIX, quando André Adolphe Eugène Disdéri passou a colorir com tinta retratos em preto e branco. A técnica consiste basicamente em utilizar tinta guache (quando a base é papel) e tinta a óleo (quando a base é tela) para dar cor ao retratado. Essencialmente híbrida, a fotopintura é filha de duas artes que por um longo tempo se antagonizaram: a fotografia e a pintura.

Fotos: Rafael Vilarouca

 

CORES, CINEMA E SABONETE LEVER

“Pode escrever aí. Eu sou filha de meu pai. E para entender minha história eu tenho que falar dele. Minha família é uma família de artistas. Meu avô era ourives e meu pai, que se chama Júlio Saraiva, aprendeu esse ofício muito novo com ele. Com dez anos teve que assumir a oficina e a família quando meu avô faleceu. Por causa disso ele estudou pouco, só até o segundo ano primário, mas era um homem de uma inteligência formidável. Um autodidata. Todo mundo dizia que se meu pai tivesse estudado teria sido um cientista.

“A fotografia surgiu na vida dele muito depois, quando chegou um senhor aqui chamado Pedro Maia. Esse Pedro Maia inventou de trazer a fotografia pro Crato. Quando papai viu a fotografia ficou encantado! Como era bonito botar uma pessoa dentro do papel! Não sossegou enquanto não aprendeu o ofício de fotógrafo. Até a máquina foi ele que fez. Chamou um carpinteiro, ensinou como devia ser. Foi para Fortaleza, comprou uma lente, montou a máquina dele e começou a tirar fotografia, em 1939, com 19 anos”.

Em sua boca, o nome do pai se agiganta e D. Telma se põe a revirar o passado, com prazer e deslumbre, quantas vezes for preciso. Também foi o pai quem a levou a primeira vez ao cinema. “Ele dizia assim: ´vamos, se arrume bem bonitinha, você vai ao cinema comigo, mas não é pra história de filme, não. Eu quero que você leia as legendas, pra você aprender a ler com rapidez´. E me levava ao cinema quase que diariamente”.

A menina, arrebatada, passou a importar os usos e trejeitos das divas hollywoodianas que sempre ia visitar. “Eu, vendo aquelas artistas de cinema tão bonitas, comecei, na minha cabeça de criança, a me embelezar por elas. Minha mãe ia na rua e comprava umas bonecas de celulose, e eu já colocava nas bonecas os nomes das atrizes: Rita Hayworth, Hedy Lamarr, Elizabeth Taylor…”.

A coleção de bonecas não suportou o início da adolescência e foi prontamente trocada pelas revistas de celebridades. “Era uma revista que se chamava Cena Muda. No meio tinha uma sessão chamada “Clube do Fã”, com um pôster que eu retirava e fazia um álbum pra mostrar a minhas amigas”, recorda.

E completa: “Quando eu andava nessa feirinha em que minha mãe comprava as bonecas, eu encontrava umas caixas de sabonete Lever, em cada uma vinha três artistas de Hollywood coloridas. Aí eu dizia assim: mas não existe fotografia colorida, se até o cinema é preto e branco! Ah, eu quero fazer uma coisa dessas!”.

FORA DO CARIRI

Tudo começou em 2006, quando o professor Titus Riedl, ao pesquisar sobre a fotopintura, se deparou com o trabalho de Telma Saraiva. Surpreendido, fez questão de incluir suas fotopinturas em uma exposição que aconteceu no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. Depois disso, o talento da artista angariou aplausos e reconhecimento fora do Cariri. No mesmo ano de 2006 a Pinacoteca do Estado de São Paulo realizou a exposição “Telma Saraiva – A Procura de um Mito”. Dois anos depois, o trabalho de Telma voltaria a São Paulo, numa exposição em Pinheiros. Ultrapassando as fronteiras brasileiras, os autorretratos foram expostos em Barcelona, na Espanha, em 2008. Em 2009 o Banco do Nordeste patrocinou a exposição “Busca”, apresentando o trabalho da autora dos anos 60 até a década de 80.

UM INÍCIO AUSPICIOSO

Há uma ternura inequívoca moldando nosso olhar nas fotopinturas de Telma Saraiva. Ternura misturada a uma fantasia juvenil que reordena nossa memória visual. E já nem é mais tão importante ter certeza se o que vemos é a Telma real ou variações fantásticas dela mesma.

Se quando menina Telma Saraiva aprendeu a ler acompanhando os diálogos de Elizabeth Taylor e a se enfeitar com Rita Hayworth, quando adolescente ela decidiu que a fase da imitação havia passado. Nada mais justo do que encarnar ela mesma a diva de sua imaginação.

Curiosa, Telma passou a observar o pai na lida de fotopintor e a desenhar os rostos das atrizes que admirava. “Eu raspava o lápis de cor para fazer a tinta e, sem ajuda de esquadro, ampliava as fotografias pequenininhas. Quando vi, já tinha um álbum completo de pinturas feitas por mim. Um dia, em uma dessas revistas, eu vi uma propaganda de uma tinta própria pra colorir fotografia, mas na América.

Meu irmão falava inglês e escreveu uma carta pedindo as tintas através de reembolso”. As primeiras experiências com fotopintura Telma realizou com as amigas. Depois descobriu que usando um pouco de astúcia era fácil passar de ano. “Quando uma professora não gostava de mim, pedia pra pintar um retrato dela. Pronto. Nunca mais tirava nota baixa!”.

O trabalho intenso lhe valeu o respeito do pai e um lugar ao lado dele no estúdio que possuía. Ela explica que na época as fotos eram feitas em câmeras que não tinham graduação, nem flash. “Até que apareceu aqui no Crato, um homem chamado Paulo Botelho que trouxe uma câmera reflex – máquina de graduação de grande porte. Um dia, disse a ele que meu sonho era ter uma máquina como aquela. Aí ele me disse: ´fique com essa até você ter condições de comprar uma´. Ah! Eu fazia fotos espetaculares!”.

 

FOTOPINTURA COMO MISSÃO

O maior encantamento de uma fotopintura é que nela está impregnada a labuta de seu criador. Em um mundo de pixels e fotografias digitais, o trabalho sofisticado e minucioso nos pega desprevenidos. E Telma Saraiva é antes de tudo uma artista de minúcias. O particular, a mosca, o alvo. É isso que interessa a ela. Em seu projeto estético, a sofisticação anda de mãos dadas com a técnica compilada por anos a fio em um quarto escuro.

Portanto, engana-se quem acha que a obra de Telma se explica por seus autorretratos. Nada mais ilusório. Aqui, a forma molda o conteúdo. Autorretrato, paisagem, retratismo, pouco importa. Telma é uma artista em busca de um projeto estético que a expresse integralmente. Por isso, a obsessão, o labor permanente, o trabalho em diversas frentes artísticas alargando e empurrando as fronteiras estéticas é uma condição para se definir enquanto artista através de uma técnica singular.

“O que eu gostava era de fazer! Era bater, era revelar, era copiar, era retocar, era pintar! Dizer que foi feito por mim!”. A minúcia de Telma é incontestável. Com orgulho, declara nunca ter comprado um revelador, e sim os produtos para prepará-lo. Entretanto, o que mais impressiona é quando conta que o primeiro retoque feito se dava diretamente no negativo de 6 cm X 6 cm. “Com um grafite de ponta fininha eu hogeneizava a pele, dava reflexos nos cabelos, definia feições do rosto. Esse era meu photoshop! Essa é minha técnica!”.

Após copiar a fotografia, vinham os retoques finais. Tonalizar a pele, traçar o cabelo e cílios fio por fio, colorir e delinear lábios e dentes, adicionar brincos, chapéus, vestimentas. Uma versão nova, um vivente de papel. A última tela, de 2003, uma obra impressionante de 1,70 da neta debutante, foi seu trabalho derradeiro. Parou de trabalhar devido a problemas de saúde decorrentes dos anos e anos em exposição a produtos químicos.

“Sinto muita falta de trabalhar. Todo dia sinto falta. Passei muitos anos dentro do estúdio, dentro do quarto escuro. Minha saúde ficou prejudicada, mas eu posso dizer: eu vivi em função de minha arte”.

Perfil publicado na edição #5, de fevereiro de 2012.
Telma faleceu no dia 8 de junho de 2015, aos 86 anos

 

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