Geraldo Urano
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“Sou um sapo que engoliu uma estrela”

Geraldo Urano (10.06.1953 – 05.02.2017)

Por José Flávio Viera

“Sabe? Estou cansado de pensar na morte. Mais vale comer sementes de girassol. Eu penso às vezes: sou um sapo que engoliu uma estrela. Pois é, sou poeta que não vive, e escreve tanto. Por que motivos? Talvez esteja dando satisfação a mim mesmo da minha morte. Um dia quando a primavera brotar no cotidiano, eu sorrirei novamente.”
(Carta de Geraldo Urano a Luiz Carlos Salatiel)

Hoje [domingo, dia 5 de fevereiro] o Cariri perdeu um dos seus poetas mais icônicos. E o mais grave é que não foi um só poeta que saiu do nosso convívio. Geraldo era muitos: Mérkur, Urano, Batista, Júpiter… Seriam necessárias muitas constelações para entender um pouco da sua complexidade. Urano conseguiu, com sua poética díspar e multiforme, catalisar os sentimentos de toda uma geração dos anos 70-80, que se via refletida num mundo extasiado com o Maio de 68 da França, o Woodstock, o Movimento Hippie, os anos de chumbo que sufocavam o Brasil.

Pois foi dessa argamassa de conflitos, labirintos, ansiedade e aspirações que Geraldo conseguiu destilar, gota a gota, a sua poesia. E foi sua poética que serviu de guia, de baliza para todo um movimento contracultural que aconteceu em Crato e que juntou , com sua força gravitacional, figuras como Rosemberg Cariry, Abidoral Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel, Jackson Bantim, Jefferson Albuquerque, Émerson Monteiro e muitos e muitos outros. O ponto alto da sua história é que mesmo com toda a moléstia que seguiu de perto, por anos e anos, todos os seus passos, Urano continuou escrevendo e compondo, como uma aranha que tece a sua teia mesmo percebendo a aproximação do inseticida.

Hoje, sua pena escapou de seus dedos, mas sua arte já tinha adejado as asas e ganhado os horizontes da eternidade, enquanto ele tentava dar a si mesmo explicações sobre a própria morte. Um misto de tristeza e contentamento invade os corações de todos aqueles que o conheceram, hoje quando o poeta toma o seu bólido de volta a Urano, Mercúrio e Júpiter. É que, tangidos pelo impacto da ausência, nos damos conta de que talvez a primavera, enfim, tenha brotado no cotidiano uraniano e agora Geraldo volta a sorrir novamente. Parodiando Rosa: compreendemos que os homens comuns morrem, os poetas apenas se encantam.

Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano cantam Sob o Luar de Oslo

“Desde 1970 prevaleceu a nossa amizade e o diálogo permeado de muita poesia. Que todos os deuses recebam Geraldo e o abracem com ternura.

Viva Geraldo (Batista, Gandhi, Efe, Urano e outros mais)!”

 

SAIBA MAIS

Carlos Rafael Dias, historiador cratense, viu de perto o movimento de contracultura que agitou o Cariri a partir dos anos 70. Ele conta neste artigo um pouco da vida de Geraldo, cita algumas de suas poesias e analisa a importância do poeta para a história e as artes do Crato.

Foto: Carlos Rafael

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José Flávio Vieira é médico e escritor cratense. Ele é autor de A Delicada Trama do Labirinto e publica no blog Simbora prá Matozinho.

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Leia também

Publicada na CARIRI #19, a reportagem de Pedro Philippe passeia pelos anos 70 no Crato, época em que Geraldo Urano, Abidoral Jamacaru, Jefferson Albuquerque Jr., Luiz Carlos Salatiel, Rosemberg Cariry, Émerson Monteiro, Cleivan Paiva, Múcio Duarte e muitos outros fizeram a cidade tremer.

A conspiração de Aquário: o Crato nos anos 70

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