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“Somos mulheres. Somos terapeutas. Estamos aqui para ajudar”

O que acontece com o psicológico de uma mulher após uma violência? Após anos de inúmeras violências? E essas vindas do seu parceiro íntimo ou familiar? Não é difícil imaginar os traumas que ficam depois de situações como estas: desespero, desconfiança, isolamento e depressão são alguns.

Este é um assunto que merece mais atenção do Estado, pensa a terapeuta e feminista Leda Mendes. “Pela rede pública, todos os casos vão para uma mesma psicóloga e muitas vezes ela não tem condições de atender todo mundo. Precisaria de um contingente bem maior de pessoas para conseguir atender a demanda como se deve, caso a caso”, aponta.

Enquanto a questão não avança em termos de políticas públicas, Leda convidou a colega Anna Karinne para reunir um grupo de profissionais particulares e, juntas, criarem a Rede de Apoio às Mulheres do Cariri, uma iniciativa autônoma e sem fins lucrativos com apoio do Instituto Awareness de Psicologia e Ethos Estudos e Psicologia Clínica.

A psiquiatra e pesquisadora Judith Herman relacionou as síndromes psicológicas dos sobreviventes de abuso sexual e violência doméstica ao estresse pós-traumático sentido pelos sobreviventes de guerras. “Mulheres e crianças que foram agredidas e violadas são vítimas de guerra. A Histeria é uma neurose da guerra entre os sexos”, escreveu no livro “Trauma and Recovery” (1992).

Em menos de quatro meses de formação, a Rede conta com 15 terapeutas, todas mulheres, das cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha e funciona com o acompanhamento psicoterapêutico de mulheres vítimas de violência encaminhadas pelos órgãos de assistência, movimentos sociais ou pessoas que tomam conhecimento da causa.

São mulheres do campo, dos sítios, do centro, das Universidades. São jovens, são adultas, são idosas. O perfil de quem é atendido varia, mas uma coisa persiste: geralmente são mulheres em delicada situação psicológica e financeira.

Cada terapeuta atende em média duas a três pacientes, seja na clínica, na casa da terapeuta ou na casa da paciente. “A gente vai onde precisa ir”, diz Anna Karinne. O atendimento é pago por um valor simbólico, entre R$ 1 a R$ 10 reais, ao que a Rede justifica como método para eliminar a sensação de dívida que a paciente possa ter.

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“Às vezes a impossibilidade de denunciar está ligada a mulher não estar em condições psicológicas, afetivas ou materiais de sair do seu relacionamento abusivo. E ela continua presa a isso. Um espaço semanal de psicoterapia é um espaço para trabalhar todas essas questões, inclusive como lidar com o fato de não estar preparada para denunciar seu agressor”, diz Leda. (Da esq. para a dir: Leda, Patrícia e Anna Karinne, psicoterapeutas da Rede de Mulheres).

FORTALECIMENTO

Os assuntos tratados envolvem momentos cruéis na vida das pacientes. São relacionamentos abusivos, maus-tratos, agressão, violência moral e psicológica. Situações que àquelas mulheres querem deixar para trás e a Psicoterapia pode ajudar no processo de “cura”.

“São processos de promover autoconhecimento e possibilidades de mudanças. A mulher é acolhida a partir do momento em que ela nos procura, mas é nesse momento olho no olho que a relação é estabelecida”, explica a psicoterapeuta Patrícia Gomes, também integrante da Rede com atendimento em Juazeiro do Norte.

Agora a Rede quer se expandir, afirma Leda. A ideia cresceu e já existem propostas de parceria em Fortaleza e outras cidades do sul do Ceará. Leda explica isso como sendo um processo de identificação como mulher e como profissional: “Já atendíamos casos de violência, mas uma vez que estamos em rede, que estamos conectadas como mulheres e profissionais, nos damos conta de nossa condição de oprimida na sociedade e nesse setor específico. Ser mulher é foda. Cada uma ajuda do lugar que pode. Eu sou terapeuta, eu posso ajudar nisso”.

 

O CARIRI QUE MALTRATA

Um novo relatório preliminar do Observatório da Violência e dos Direitos Humanos da Universidade Regional do Cariri revelou que 1.372 casos de violência contra a mulher foram noticiados entre janeiro e julho de deste ano nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

O órgão identificou que, em média, são feitas seis notificações por dia para cada mil mulheres dessas cidades. Em 44,7%, dos casos, a violência aconteceu mais de uma vez.

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Serviço:

Rede de Mulheres:

Leda Mendes (CRP11/4648): 88 9 9271-2659

Anna Karinne Melo Barreto (CRP11/09511): 88 9 9901-1413
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Central de Atendimento à Mulher – 180

Delegacia de Defesa da Mulher – Crato: (88) 3102-1250

Delegacia da Polícia Civil de Crato: (88) 3102-1285

Conselho Municipal de Defesa da Mulher Cratense: (88) 9 9618-1794

Centro de Referência da Mulher – Crato: (88) 3521 6321 / (88) 3521 6425

Delegacia de Defesa da Mulher – Juazeiro do Norte: (88) 3102-1102

 

Veja também:

Cultura do Estupro: o Cariri odeia as mulheres?

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