Economia e Negócios

Som na caixa

Aos 16 anos ele começou a fazer festinhas de colégio. Aos 20, levava suas parafernálias de som em caminhões para tocar em outras cidades. Agora beirando os 50, ele é o homem que garante a qualidade sonora e visual dos principais eventos de entretenimento da região e do Nordeste. Conheça a história de Devanilton Soares, o Palito, e sua trajetória com a Mega Som
Por Alana Maria • 4 de agosto de 2016

Seus óculos escuros refletem a imagem do grande palco sendo montado mais à frente, onde também é impossível não perceber o paredão convexo de caixas de som subindo pelo lado direito e esquerdo. O sol forte dá um brilho especial a toda a parafernália de cabos, barras de ferro e caixotes dos aparelhos que, mais tarde, vão animar a festa e reverberar os acordes com a qualidade digna do nome da empresa Mega Som.

Lá vem Devanilton Soares, o “Palito”, de sapato de couro, calça jeans, camisa de marca internacional, Rollex de ouro e iPhone última geração nas mãos. A figura característica do empresário do show busness cearense de cabeços grisalhos – não se sabe se pela idade, que beira os 50 anos, ou se pelo estresse acumulado que só um ramo tão vaidoso poderia oferecer. Ele passa reto em direção à mesa central de controle do som e verifica se tudo está caminhando como deveria. Ao seu lado, o moço a quem todos chamam de “Cobrinha” e nada mais, insere os códigos no moderno software que representa o painel de infinitos botões e controles manuais à sua frente.

O Cobrinha sorri e conta sobre os artistas com quem já teve o prazer de trabalhar por causa da Mega Som. Não diretamente, diz, mas preparando todo o terreno para garantir um show com a melhor qualidade de som e iluminação que poderia haver. Palito, o homem Mega Som, lista com orgulho os mais marcantes: Roupa Nova, Zezé di Camargo & Luciano, Gusttavo Lima, Leonardo…

Naquela noite, a atração principal seria a cantora sensação do momento para os fãs do sertanejo, Marília Mendonça, e logo seu técnico especialista também se junta aos homens na mesa de controle para ajustar seus códigos específicos do rider. O trabalho é sempre em conjunto e a tecnologia anda rápido. Mais tarde, naquele dia, Palito assegurou que hoje pode não saber todos os macetes dos novos softwares, mas “assim que eu chego no lugar sei o que está certo e o que está errado e, principalmente, sei como consertar”. E completa: “Meu ouvido é treinado, porque eu conheço meu negócio”.

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Devanilton Soares, o Palito: homem por trás do espetáculo (Foto: Samuel Macedo)

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MAGRELO TEM QUE SUAR

A história dele começa em um bar meia boca, meio sujo e meio vazio na cidade de Altaneira. O bar, espaço alugado, na verdade, era do irmão mais velho pouco interessada na vida de bartender e ali, aos 16 anos, ajudava o irmão atendendo, limpando, fazendo graça pelas noites para assegurar alguns trocados. Pelo corpo magro e pequeno, o apelido de “Palito” caiu como uma luva para desgosto dele, o Devanilton Soares, que anos mais tarde passaria de menino do bar para um dos empresários mais bem-sucedidos da região do Cariri com uma das melhores estruturas de sonorização do Nordeste.

Foi numa noite comum de um fim de semana de 1985 que Palito teve a sacada de investir em alguns discos e fitas para animar a clientela do boteco. A música não só agitou a freguesia como garantiu uma maior saída dos petiscos e bebidas. Pode-se até imaginar o casal levantando para dançar o bom forró daquela época, sendo seguido alegremente por outros e outros. “Isso tem futuro”, Palito pensou consigo mesmo.

Sua primeira peça de som, algo assim “mais ou menos profissional”, como ele coloca, foi comprada com o dinheiro que apurou das noites no bar. Passou a animar festas de colégios na vizinhança, competições no único local de eventos de Altaneira, o Centro Comunitário, e produziu as saudosistas tertúlias no espaço que batizou de Palhoça Eros, sua primeira boate. Duas caixas Phillips, uma radiola, algumas fitas e um toca-discos faziam a noite, por uma entrada de apenas Cz$ 1,00. “Rapaz, lotava de um jeito que nem se eu quisesse dava para colocar”, ele lembra. As noites de sábado eram suas e toda a juventude da cidade seguia o ritmo ditado pela música que saía das caixas de som, dispostas na festa que ele organizava.

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Trajetória da Mega Som: das tertúlias aos grandes eventos (Fotos: Carlos Lourenço).

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A veia de empreendedor transpareceu antes mesmo de concluir o Ensino Médio. E para que servia o diploma se tudo o que ele sabia vinha da experiência real? Palito não era bom aluno e, como conta, “só queria saber de trabalhar”. Assim, instigou a demanda e criou a oferta para o escasso setor do entretenimento mesmo antes de se aventurar nos conceitos e estratégias empresariais, coisa que viria com a profissionalização do mercado.

“Meu objetivo era criar festa, então todo tipo de festa eu criava”, diz estampando um sorriso nostálgico, enquanto se balança na cadeira executiva em seu escritório. Próximo dali, o galpão bem protegido guarda sua nova estrutura de som em grandes e fortes caixotes de madeira e aço. Avaliado em R$1,5 milhão, o conjunto se soma aos outros três sistemas profissionais de som e cinco estruturas de palco e iluminação.

Mas antes de chegar ao ponto em que hoje se encontra, a primeira grande conquista de Palito foi a compra da estrutura completa do colega Demar Alencar, na época agente produtor da banda Cacau com Mel. “Vendi tudo o que tinha e o que não tinha, fiquei a pé, cortei despesas, mas comprei o som e dei o disparo para a verdadeira profissionalização da Eros Som”, que posteriormente seria Mega Som.

Depois da Palhoça, montou um clube mais espaçoso e confortável. O Eros Dancing Club chamava a atenção e atraía visitas de Nova Olinda, Assaré, Farias Brito e distritos dos arredores. Não satisfeito, Palito ainda montaria, anos depois, a SS Casa de Show, local onde tocaram bandas como o Limão com Mel, Aviões do Forró, Felipão, Forró Moral, banda Líbanos, banda Tropykalia, Gatinha Manhosa, Forró Sacode.

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(Foto: Carlos Lourenço)

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GO BIG OR GO HOME

Engana-se quem acredita no sucesso como uma linha que eternamente sobe. Palito se deparou com situações que beiravam o calote, enfrentou a má palavra de seus contratantes e conheceu a imprevisibilidade do mundo do entretenimento. “Já perdi muito dinheiro, da mesma forma como algumas vezes ganhei. O jogo é assim. Tinha vez que apostavam tudo em um evento, mas não dava ninguém. Não sobrava nem para o combustível. Acabava pagando para trabalhar”, explica.

“Ele já pensou em desistir, mas não conseguiu. Sabia que era o que queria fazer”, releva sua esposa, Ana Késia, que acompanhou toda a trajetória em seus altos e baixos, dividindo dores de cabeça e responsabilidades. “Ele encontrou de fato uma profissão apaixonante. É o que ama fazer, é o que ele sabe fazer, é o que ele gosta de fazer. Quando você tem amor mesmo à sua profissão, você é bom em todo canto”.

 Em 2003, Palito encarou seu maior desafio até então: realizar os 12 dias de farra na Festa de Santo Antônio de Barbalha. Nem é preciso dizer que os contratantes gostaram do trabalho, pois foram mais de 10 anos nessa brincadeira. E a empresa deslanchou… A cada conquista, um retorno para investir nos equipamentos – palco, iluminação, telões de LED – e capacitação da equipe técnica. Isso levou a MegaSom a garantir 16 anos de Mostra Sesc Cariri de Culturas, cinco anos de Expocrato e mais alguns no Forricó.

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“Ele não pode parar”, afirma convicto o companheiro de negócios, Jota Rodrigues. Para os mais íntimos, Jota é João Valério, conhecido como uma lenda do rádio caririense e mestre na produção de eventos, responsável pela vinda de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, O Rappa, Titãs e Jorge Vercilo, entre tantos outros nomes, para as terras Cariri. “A Mega Som cresceu muito porque Palito está sempre inovando e essa deve ser sua chave. Hoje, você vê, domina a região”, comenta.

De pavio curto, mas com mira longe, Palito não ousa esquecer das vezes em que precisou retirar seu som porque o próximo artista era grande demais para ele na época. Prometeu a si mesmo que o destino só poderia ser um: ter uma estrutura que acomodasse e satisfizesse qualquer artista nacional. “Hoje consigo fazer todos, menos Roberto Carlos. Ele é o único que ainda tem restrições, mas vou chegar lá”, diz. De fato, a Mega Som já alcança todo o Nordeste.  

Não só pela confiança do artista, mas também pela aprovação do público, Palito sabe que a responsabilidade está em garantir a felicidade e a melhor experiência que o cliente possa ter. No fim das contas, aquele casal que levantou para dançar no barzinho ou aqueles que vão ao grande show só querem se divertir, e é responsabilidade do show business oferecer isso.

Alana Maria