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Sobre macacos e dedos

Imagem: RAINBOW HIGHWAY – Suzanne Wright

Houve um tempo em que se acreditava que a terra era plana
Algumas pessoas, para não morrer, juravam na cruz que o oceano era uma imensa cachoeira habitada por monstros marinhos insondados e providencialmente insondáveis.
Quem dissesse o contrário iria facinho, facinho fritar numa fogueira que não era de São João
O redondo da terra o tabu do mundo.

Houve um tempo em que um moço muito aclamado por seus seguidores
Desejou restaurar a Verdadeira Arte
Assim mesmo, com letra Maiúscula
Quem não se em[quadra]va não viraria mais churrasquinho, porque diziam que tufos de cabelos saiam pelas chaminés dos incineradores
Sujavam as ruas
Para resolver isto, inventaram o campo de concentração e a higiênica câmara de gás
Os artistas morriam envenenados, mas sua arte, tratada como minúscula, era exposta em galerias daquela nação para lembrar a degeneração cultural da suposta raça inferior
Os artistas eram judeus
E a arte era modernista

Houve outro tempo, há 100 anos, em que o Império Turco-Otomano matou 1 milhões e meio de armênios assim, por serem… armênios.
Os primeiros das listas:
196 escritores
168 pintores
575 músicos, compositores, intérpretes e bailarinos
176 docentes e professores
62 arquitetos
64 atores
E um longo etc
Até hoje nem a Turquia, nem os Estados Unidos, reconhecem o genocídio
Possíveis motivos: best friends estratégicos no Oriente Médio

Há tempo de choro
Choro pelo ataque terrorista ao que se considera o fundamento dos valores culturais franceses
Mas muitos dos que choravam por aqui
Chamavam algumas semanas atrás, a francesa Simone de Beauvoir de baranga, pervertida, comunista, vai pra Cuba!
Muitos dos que se horrorizam com o fundamentalismo além-mar
Batem palmas e pés para os fundamentalismos made in Brazil
Resultado de gorda ração dada a este tipo de comportamento pelos governos e grande mídia

E o cu com isso?
É tempo de uma quadrada obsessão pelo redondo do cu
Um jogo de atração disfarçada
Discursos que condenam e incitam
Fascinação embutida e inconfessável
Aquele prazer que escapa ao ver o vídeo do cu
O mesmo prazer inconfesso ao dissimular o gozo pela performance

Os surrados cus de Rabelais, de Bataille, de Pasolini e de Zé Celso estão entediados
Os átomos de Virginia Woolf e seus colegas do Bloomsbury se reviram em spins incrédulos
Em pleno século XXI?
O que há dentro deste cu que não pode ser tocado?
O que pode o cu?
Estaríamos subestimando sua potência?

De vez em quando na UFBA vejo simpáticos soins* passeando pelos fios dos postes de energia
Em geral, carregando sua prole de um lado para o outro
Isto me fazia sentir que estava no Brazil com Z
Uma espécie de episódio dos Simpsons
Depois de Macaquinhos, a performance, essa percepção mudou
Não estejamos circulando presos a um episódio surrealista de cartoon
O fundamentalismo é informe
Não é quadrado, muito menos redondo
Vive do mofo e do amorfo
Não possui profundidade
Vive na superfície
Pode destruir o mundo inteiro como um fungo que se espalha,
Diria Arendt

Contra estes efeitos paralizantes, o pensamento e o riso
O grotesco escatológico de Rabelais
O ridículo “grande ditador” Chaplin
“A risível ascensão de Arturo Ui” em Brecht
Outra vez Arendt
O maior inimigo da autoridade é o desprezo
A forma mais segura de solapá-la é o riso

Quando Freud teve notícias de suas obras sendo queimadas na Alemanha nazista, ao lado de outros grandes homens como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einstein, o mesmo comentou: “Na Idade Média, teriam queimado a mim, hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros”
Se estivesse vivo no século XXI, o pai da psicanálise não teria mais tanta certeza de sua afirmação.

*Soim é forma como sagui é chamado no Ceará


 

Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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